A Cadeira Dela

jun 15, 2012 by

A Cadeira Dela

Homenagem à minha esposa Ellen – e todas as outras que fazem o mesmo pelo seu marido!

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Sentar naquela cadeira não é fácil. Com toneladas pesando sobre os ombros, ele sente a responsabilidade de liderar um povo. Ali as pessoas pedem, sonham, choram e perguntam. Ele pensa, reflete, planeja e julga. Pode ser um assento confortável, até com apoio pra cabeça, mas nem de longe isto alivia a pressão da concentração mental. Porque impulsionar os outros é, muitas vezes, abandonar a si mesmo – e motivar um ideal custa caro no mercado emocional.

Mas é “aquela” cadeira! De couro ou tecido fino, parece tão sedutora pra alguns – e tão solitária pra ele. Ali, seu autocontrole é testado no limite; seu equilíbrio é provocado ao extremo; e sua prudência esperada por todos. Mas ainda tem algo mais… A necessidade mais urgente de quem senta nela – mesmo sem ter sonhado com ela – é o dom divino mais precioso pra quem lida com o ser humano: sabedoria. E nas cavernas de um coração de carne, que muitas vezes sofre sob a couraça de aço, reside um herói idealizado por uns e um vilão mal interpretado por outros. Por isso, sentar ali não é obra de homens, é obra-de-arte do Céu. E enquanto ele estiver nela, humilde como um aprendiz e gigante sobre os ombros de Deus, ninguém entenderá plenamente o que é estar à frente dos outros sem nunca deixá-los pra trás.

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Ao final do dia, porém, ele vem pra outra cadeira. Muito mais simples e menos pomposa. Talvez com outras três ou até cinco iguais! Só que nela ele também senta – muito mais cansado e assustadoramente frágil. Junto à mesa de jantar sua gravata afrouxa, seus sapatos cedem lugar aos chinelos gastos, e sua vontade de conversar parece ter ficado escrava daquela primeira cadeira. Este lado que ninguém vê é o verdadeiro perfil que só você conhece – quando o mito se mostra vulnerável, e o líder anseia ser um pouco liderado.

Seu sexto sentido feminino dispara um alerta de que é hora de aceitar mais do que pedir. A exaustão dele é um chamado urgente pra outra heroína entrar em cena. Você acaricia aquela cabeça que ninguém se preocupou em poupá-la. Seus dedos encostam ombros cuja tensão tornou seus músculos em telhas. Sim, é nesta cadeira que o tabuleiro muda o jogo. Enquanto o rei vira peão, a rainha mantém o império. Na verdade, um reino secreto em que os rótulos se dissolvem e a compreensão se espalha em cada atitude.

Como pode”, perguntariam os curiosos, “a cadeira de jantar valer mais que o trono presidencial?” Sim, é graças a ela que você se torna a única verdadeira auxiliadora capaz de ajudá-lo por conhecê-lo como ninguém mais. Já pensou no tamanho desta vocação? Ou melhor, por que não dizer, o valor desta unção?

Saiba que ninguém sabe disso – nem ele! – o quanto você sabe aos pés de Deus. Seu marido nunca chegaria mais longe do que você conseguiu chegar perto dEle. Eles não expressam, mas percebem; talvez nem reconheçam, mas dependem; e sabem que esta cadeira é a única capaz de aceitá-los mesmo acuados pelos dragões de um dia intenso.

Se ele trabalha pra Deus ocupando a cadeira dos homens, é porque você também trabalha pra Deus amparando a cadeira do lar. Se lá a resistência dele fortalece a missão de uma verdade, ali você cumpre seu chamado com sensibilidade ímpar. E graças a estas duas cadeiras – tão antagônicas e cúmplices ao mesmo tempo – a profecia se cumpre pelos dias encurtados a cada dia bem vivido.

Até quando, finalmente, aquela outra cadeira deixará de existir, enquanto está aqui não sumirá jamais. Porque a posição dos homens pode ser passageira, mas a disposição do coração que ama é eternamente um lugar cativo na alma. Acredite nisso quando ninguém mais parecer acreditar nele. Levante sua cabeça de rainha, mesmo que a do rei precise repousar. Revista-se de graça pra encantá-lo tanto quanto intercedê-lo. Sua oração por ele valerá mais do que mil assinaturas despachadas por seus punhos.

E por isso é possível seguir em frente. Abastecendo o espírito na cadeira ali da sala, pra deixar-se gastar pelo Céu naquela cadeira do escritório.

Graças a Deus e – aceite isso de uma vez por todas! – graças a você também.

Portanto, cuide bem desta verdadeira cadeira mais importante.

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