Corda Bamba

nov 23, 2012 by

Corda Bamba

Eu sei de uma coisa: Aquele capaz de sustentar as galáxias pode me apoiar rumo ao infinito.

 

A multidão nem respira. Olhos arregalados resistem em não piscar. Bocas escancaradas secam emudecidas. Cada momento é a sucessão de medo, angústia e alívio. Na beirada do céu um corpo se equilibra entre a força de um fio e as garras da morte. Outro passo é dado – o coração acelerado de todos engole o peito de cada um. É a ciranda hipnotizante de quem testemunha um indefeso corajoso sobre a incerteza brutal da corda. E enquanto a ameaça da queda assombra os atônitos, a vitória do herói dispara o clamor de esperança.

Sim, outro conseguiu!

 

Quando penso numa ilustração da vida, surge a imediata imagem de alguém na corda bamba. Mesmo na platéia vazia, o canhão de luz destaca a silhueta do candidato a astro do dia. Se o ribombar dos tambores ferve o sangue de adrenalina, as mãos embebidas no suor frio denunciam o flerte com o perigo. E pra quê? Simplesmente para chegar do outro lado – de preferência são e salvo.

A questão por detrás deste picadeiro é existencialmente simples e solene: como vencer sobre o fio implacável da desnorteante indecisão de nossos atos? Se acertar é o alvo, por que errar tenta tanto? Equilibrar-se nos braços dos ares se torna o cálido chamado para ultrapassar o inimigo de nós mesmos. Mas nossa fraqueza é o que apavora e desconcerta – uma verdade incômoda puxando nosso pé de apoio contra o abismo. E no balanço da inconstância nos revelamos ainda mais fúteis do que úteis. Erramos feio e despencamos de alma ferida.

Minha filha agora já avista seus quatro anos. Ela já não cai mais embrulhada nos próprios pés, nem inventa grunhidos pra tentar se expressar. Com reflexos espertíssimos, nem de longe parece aquela que engatinhava no tapete. E como andar se tornou óbvio, pedalar foi seu próximo desafio. Lá fui eu, pai ludibriado, atrás de uma bicicleta tão rosa quanto encantada. Achei um sonho de fadas sobre duas rodas brancas com pingentes laminados no guidão. Uma carruagem da realeza apenas maculada pela buzina irritante que insiste em não quebrar!

Como ela se equilibra? Ainda mais ligeiríssima com suas perninhas supersônicas de energia ultra-atômica? Óbvio! Graças às duas rodinhas de apoio que tornam a instabilidade de pedalar uma aventura de se lançar atrás do vento. Ela grita, sumindo no infinito dos meus olhos, enquanto observo sua ousadia infantil bem protegida pela minha prudência na roda de trás. Ela se sente o máximo – e eu o melhor. Que seja assim, afinal, seus joelhinhos de seda são macios demais pra descobrirem do que o chão é capaz.

E nós na corda bamba? Sem rodinhas atrás ou cama elástica embaixo? Como se livrar da tragédia anunciada nos tremores cambaleantes de nossas lutas desumanas? Eu sei de uma coisa: Aquele capaz de sustentar as galáxias pode me apoiar rumo ao infinito. O Deus que irrompeu das trevas regendo temporais sabe como firmar meus joelhos e refinar os passos. Sigo em frente – não sem temer a altura da queda – mas fascinado pela Companhia infalível.

O mesmo Ser invisível que me ampara por este trajeto de dores surge visível com seus braços escancarados na chegada quase ali. E isso me dá fôlego de um atleta, força de um herói, e energia de uma criança. Pra prosseguir sempre adiante até que um dia a corda acabe. Só então entenderei que quanto mais bamba ela foi, mais presente Ele esteve – como Supremo Guardião de meus percursos mais atrozes.

Portanto, acredito, e digo o mesmo a você: acredite! Não pela distância do picadeiro duro ameaçando lá embaixo, mas pela proximidade da vitória pairando sobre você logo acima. O Mestre das Surpresas Boas jamais lhe largará de joelhos bambos. Reforçará seus pontos fracos na conquista das lutas superadas. Fortalecerá cada passo em falso sobre Suas mãos cicatrizadas. Por lhe amar deste jeito, não apenas torcerá pela sua conquista eterna, e sim, viverá em cada momento a realização de seu sonho maior acontecendo desde agora.

Basta olhar além da corda.

E que tal imaginando o abraço indescritível que sempre dou em minha filha quando ela vem confiante pedalando para mim?

De rodinhas. Segura. E feliz.

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