Quarto ao Lado

nov 15, 2012 by

Quarto ao Lado

As vezes, Deus ascenderá a luz do quarto ao lado só pra lhe lembrar o quanto ainda está presente na casa da sua vida – mesmo na escuridão de um momento sem respostas.

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Deus não respondeu João Batista. Também não explicou muita coisa pra Elias. Desconversou tudo com Jó. Nem apareceu além dos sonhos de José. E sem contar Moisés no pasto, Davi na harpa, Neemias na muralha, até Pedro com uma orelha na mão. Todos estes enfrentaram a contradição de seus castelos de areia se derretendo perante a enxurrada colossal de uma aparente onipotência falha. Afinal, cada um deles pareceram iludidos por uma miragem tão divina quanto muda. Soa blasfêmia? Ou é o pranto sincero de tantos Jacós clonados com seus Jaboques de ferro, fogo e silêncio? Como isso doeu, ainda dói, e sempre vai doer!

Seja sincero, você já se pegou perguntando impacientemente onde é que estão os braços herculeanos dAquele capaz de pisar no Olimpo como se fosse mero formigueiro? Se Ele é o máximo então por que parece não dar a mínima? E cadê o mesmo Altíssimo ensopando lã em terra seca se não enxuga nem as lágrimas do meu travesseiro?

Mais fé? Claro que sim, ela move montanhas. E se disser daqueles momentos de embrulhar o estômago quando até os montes parecem solapados por uma desorientação nauseante? Quem já não viveu uma verdadeira crise de credulidade ingênua esperando um filete de sol bloqueado por detrás de um firmamento tão espesso quanto ausente? É este silêncio do Céu que escancara meus gritos na Terra. Eu quero um toque na coxa, uma pincelada de sangue na porta, ou mesmo um beliscão de arder os ombros, qualquer coisa. Contanto que a esvoaçante estátua-viva petrificada na praça pública se movimente só um pouquinho na minha direção.

Só um relance. Nada mais. É pedir muito? Custa quanto?

Neste momento, sem poção mágica na cartola de minha caixinha de promessas falhas, eu me agarro compulsivamente naqueles que passaram o mesmo. Jesus nem veio ver João Batista na sua masmorra existencial, ainda mais aprisionante que as grades de ferro. Mas ele entendeu. O Senhor não respondeu um questionamento sequer de um Jó com cacos sobre a pele revelando um desespero espiritual sob alma. Só que – incrível! – ele mesmo reconheceu que passou a ver mais do que ouvir. E Elias querendo morrer numa caverna de solidão maior que sua própria força? Frustrou-se com o redemoinho e o fogo até ter de entender que era na brisa do impensável que Deus ainda regia sua vida sem partitura.

Todos eles cambalearam. Todos achavam que mereciam mais. Até todos aprenderem que as respostas do Criador não cabem na insignificância das suas criaturas. E você?

Tenho me conscientizado, nestes últimos dias de lutas indecifráveis com Deus, que Ele não tem obrigação nenhuma de afagar meu ego de humano delinqüente. Sou tão finito, tacanho e carente que qualquer expectativa voltada pro Céu beira a completa arrogância pecaminosa. Quem sou eu pra espiar uma fresta de Seus planos inimagináveis? Que direito tenho eu de cobrar Alguém pra Quem deverei bilhões de eternidades da minha vida? E o mais incrível? Ele ainda sussurra no pé do ouvido de minha incredulidade. Arrepia meus sentidos quando perco o completo controle deles. Só que com uma diferença: do jeito dEle, não do meu.

Dentro do sufocante cubículo escuro de nossas insônias angustiantes, talvez o abajur permaneça sepulcral. Quem sabe nem a pequena lâmpada na tomada do rodapé se ascenda palidamente azulada. Até que, de repente, algo fora do esquadro brota inesperado. Feito uma luz acionada do nada, o clique do interruptor distrai a atenção prá lá do fim do corredor. É o beijo de um filho a tanto tempo indiferente, uma proteção inexplicável numa tragédia anunciada, uma benção material nem de longe solicitada, ou até uma coincidência estranha disparando seu estado de alerta. Eu sei lá! Mas sabemos quando acontece. É surreal, diferente, desconcertante. Como se nosso pódio ignorado fosse misteriosamente compensado por outras medalhas em modalidades alheias.

Sim, Alguém está lá, ou melhor, ali. Sempre esteve. Afinal, às vezes, Deus ascenderá a luz do quarto ao lado só pra lhe lembrar o quanto ainda está presente na casa da sua vida – mesmo na escuridão de um momento sem respostas.

Portanto, acredite – mesmo que seja ainda. Não desmereça no escuro Aquele que já lhe deu evidências claras. Ele pode fazer de todos os desencontros da sua vida o maior de todos os encontros para sempre. E o fará.

Creia.

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