A Bilíngue

set 30, 2010 by

A Bilíngue

“Apesar de Deus ser Pai, Ele prova que também tem tudo de Mãe”

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A-dádã… E minha esposa, melhor mãe do mundo, aprendeu o inexplicavelmente ilógico. Bilú-blú. Um idioma indecifrável. Nhá-vrrr. Ela conversa como se entendesse e fosse entendida. Bãrhhsh. É uma tradutora bilíngue do alfabeto dos ETs. Ghurgs-dáh. Não consigo processar tamanha virtude – ou doidera completa. Quer ver? Zúbrrr. Agora há pouco eu estava no volante e presenciei algo maluco: enquanto minha filhota grunhia no banco de trás, a mãe tinha um surto de abdução linguística. Uma blú-blúleava, a outra interpretava:

- Nhã-am! – Amor, ela quer água!

- Nhã-an! – Agora tem que trocar a fralda.

- Nhã-ham! – Eita, ela quer um biscoito.

- Nhã-ââm! – Ai, ai, está entediada.

- Nhã-ôm! – Pare, que ela fez cocô.

- Nhã! – Ela quer escutar música.

- Nhãã! – Essa não, troque!

Chega! Como alguém pode transformar um “nhã” num idioma? E como as mães entendem? Será que elas blefam pra cima de nós, homens, só pra subir no tamanco? Lembra Daniel ao decifrar o sonho do rei-sonhador que nem se lembrava mais? Acho que um “nhã” está no mesmo nível! E pior é que acertam todas! Minha esposa não erra uma, quando o assunto é interpretar “nhãs”. Outro dia, após o banho, teve outra visão: nhãã! = “querido, ela está com frio, sentindo falta da bonequinha de estimação, acho que quer mamar e pedindo o papai brincando em cima da cama!” Pirei. Da onde um “nhã” quis dizer tanto?

Parei pra pensar e reconheço: nada, no mundo inteiro, é mais forte que a ligação inexplicável entre uma mãe e seu bebê. Desde o útero aos braços acalentando junto ao peito, a relação de cumplicidade ultrapassa o compreensível. Minha esposa decifra minha filha como eu nunca entenderei, simplesmente porque uma veio de dentro da outra e ainda passam horas milenares juntas. Por isso elas se entendem, e eu assisto de camarote. Afinal, quando alguém ama demais, percebe o imperceptível – até uma equação de física quântica de um mero “nhã”.

Já teve a sensação de querer ser compreendido e fracassar na tentativa? Lembra alguma situação frustrante em que seu desejo pareceu ininteligível? Você queria um príncipe encantado, mas achou um macaco de circo; ou pensava num trabalho de verdade, e se meteu numa encrenca decepcionante; confiou em “gente da hora” pra descobrir, tarde demais, que estavam longe de ser “gente do bem”; gastou o impensável pra sair do salão com um cabelo detestável, e por aí vai… Comunicamos nossos sonhos pra vida não passando de “nhãs” que ninguém entende. Detesto falar e não ser entendido! Odeio ficar de cara no chão porque as coisas não saíram conforme o discurso do meu coração. Mereço ser aceito, traduzido e feliz. Na verdade, todos merecemos uma bilíngue.

Por isso, aparece a mãe pra minha filha – e surge um Deus pra mim e você. Ninguém entende o que você quer dizer, porque não está nem aí para o que você significa. O mundo corre louco dando pouca atenção aos desejos particulares, e cada um se preocupando com seus próprios interesses. Até que venha Alguém capaz de gastar tempo, interessado em lhe observar, e atento para ouvir suas necessidades. Quer saber, tem que haver uma “mãe no Universo” com condições de traduzir o impossível em você. E há! É neste momento que apesar de Deus ser Pai, Ele prova que também tem tudo de Mãe. No Céu, a Onipotência paterna sempre vem acompanhada da Onisciência materna – que sempre acalentará você!

Vinde a Mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e Eu vos aliviarei” (Mateus 11:28). Ele entende você! “Não vos inquieteis com o dia de amanhã” (Mateus 6:34). Ele protege você! “Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em Mim” (João 14:1). Ele acompanha tudo o que você faz. “Se permanecerdes em Mim e as minhas palavras permanecerem em vos, pedireis o que quiserdes, e vos será feito” (João 15:7). Ele está apaixonadamente preocupado com você. Cada declaração dessas é uma promessa revestida da garantia do próprio Deus. Mesmo que a humanidade não entenda nenhum dos seus “nhãs”, siga em frente balbuciando do seu próprio jeito.

Minha filha não se preocupa em acertar a gramática utópica do seu idioma hipotético. Ela apenas esboça um ruído e sabe que sua mãe fará tudo para entendê-la. Um dia desses, minha esposa saiu sozinha e, de novo, lá fui eu pagar mico. O bebê ficou grunhindo e eu colapsando: nhã! É fralda? Nhã! Então é água. Nhãã! Tá aqui uma bolacha. Nhããã! Eita, quer lamber chave? Olha a foto do Elvis! Vai uma tampa de garrafa, aí? Nhãããã!! Vixe, quer fazer xixi? Quer banho morno? Belisca o papai! (Socorro!) Deixa eu lhe jogar pra cima! Rola no chão, olha minha cara de pateta aqui, morde meu dedo-minguinho… Não teve jeito! Fui por eliminação de alternativas até a exaustão completa. A pequena tiranazinha abriu o berreiro e eu catei o celular implorando pra mãe resumir o passeio e voltar correndo. Foi quando, do outro lado da linha, ela ouviu o “nhã!” e perguntou: “Amor, você pôs o DVD de musiquinhas infantis que ela gosta?” Odiei. Parecendo um tonto aloprado, apenas confirmei o inevitável: ela tinha entendido o nhã à distância, e pelo telefone! A mocinha ficou quieta mais de vinte minutos, grudada na tela, até a sua fada-tradutora voltar pra casa.

Vai entender essas mães incríveis! Sou fã assumido delas. Cada dia que passa eu admiro mais a mãe da minha filhinha como minha própria maravilhosa mulher. Ela entende e eu, não. O mesmo é com Deus. Ele nos entende, os outros, não. E a cada dia, encanto-me ainda mais com Ele que traduz os anseios secretos das minhas vontades agindo de acordo com Seu poderoso amor de Deus-Pai-e-Mãe. Quando um filho do Céu precisa, Ele aparece. Se nós nem sequer entendemos o que exatamente queremos, Ele pega esta bagunça toda incompreensível de nós mesmos e transforma em algo especial para nosso bem. “Porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira, com gemidos inexprimíveis” (Romanos 8:26). Você já pensou nisso? Os Céus traduzem o que nem conseguimos expressar. Isso é absurdamente fantástico! Deus conhece minhas necessidades antes mesmo de eu conseguir dizê-las.

Da próxima vez que você se sentir perdido feito cachorro magro em caminhão de mudança, olhe uma mãe “conversando” com seu bebê. Se uma mulher entende o ininteligível, quanto mais o Pai do Céu compreenderá sua angústia. Não sofra sozinho. Não se frustre com os ouvidos surdos ao seu redor. Do lado de cá da eternidade você sempre valerá mais do que parecerá aos outros. E disso o inimigo é especialista em tirar vantagem. Ele aperta, esmaga, deixa-nos roucos e decepcionados. Mas, somente até olharmos pra cima e perceber nosso Pai-Mãe que entende tudo e ama demais. Não fomos feitos para pedir felicidade e receber solidão. Eu me recuso a aceitar minha história de sonhos escrita aos remendos. Portanto, reivindico meu Deus bilíngue que esculpiu uma digital única em minha vida, e também sabe o que é melhor para mim. Podemos confiar nEle que sempre traduzirá nossos “nhãs”. Com tudo isso, você até que consegue prosseguir firme só um pouco mais – tenha certeza!

A-dádã: “Pedi e dar-se-vos-á!” (Mateus 7:7).

Bilú-blú: “E tudo quanto pedirdes, isso farei” (João 14:13).

Ghurgs-dáh: “Porque Deus, vosso Pai, sabe o de que tendes necessidade antes que lho peçais” (Mateus 6:8).

Nhãããm! É bom demais ser filho de um Deus que é Pai e bilíngue como Mãe.

Pode grunhir do seu jeito.

Ele entenderá.

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