Marmita dos Namorados

ago 2, 2010 by

Marmita dos Namorados

“Prometer amar alguém por toda a sua vida é fácil, o difícil é amar alguém a cada dia de toda a sua vida”

 

Casar até que é fácil. Difícil é permanecer namorando.

Minha esposa é uma obra de arte esculpida com cinzel de luz fascinando meus dias em sonhos. Tinha uma melhor amiga e buscava a companheira ideal – resolvi unir as duas. Namoramos como amigos, noivamos impacientes e casamos apaixonados por tudo. Tem gente por aí achando que amizade é uma coisa – amor pra casar é outra. Discordo! Não há nada melhor do que dormir com uma estonteante musa e acordar com a amiga curtindo você mesmo de cara embolachada e cabelos eletrocutados. Somos amigos há 15 anos, porém de 10 anos pra cá chamamos isso casamento.

É sempre bom trocar os contos das fadas e cair na real em parceria com alguém capaz de amar a despeito das chatices ranzinzas. E como nós, homens, somos chatos! Pra falar a verdade, a criatividade divina provocou o homem com uma costela a menos só pra impedi-lo de imaginar a possibilidade de se virar sozinho. Por isso um macho verdadeiro reconhece: mulher ideal é aquela que ama mesmo quando somos reais.

Só tem um problema: o tempo passa, traços viram troncos, e aquele jantar à luz de velas pode virar uma marmita requentada. Depois que a gente casa vem o perigo do tamanho da Lua, e que os românticos dos beijos estrelados não percebem: largar a Lua lá e viver um eclipse por aqui. Os votos se dissolvem, cadeiras não se puxam mais, portas que eram abertas agora são fechadas na cara, cavalheiros viram cavalos e os galãs das noites estreladas perdem lugar para a rotina desatenta do cotidiano. E pra escapar desta furada?

A verdade é que prometer amar alguém por toda a sua vida é fácil, o mais difícil é amar alguém a cada dia de toda a sua vida. Uma coisa é idealizar o romance perfeito, outra bem diferente é saltar da imaginação para a manutenção da realidade prática. Sonhos a dois são como a São Silvestre – todos largam entusiasmados, mas o percurso prova a resistência de quem tem fibra pra continuar.

Outro dia ouvi uma ilustração patética sobre casamento. Os noivos estavam de lua-de-mel e, após arrumarem os presentes na casa nova, finalmente viajaram para um lugar mais distante e romântico. Ao saírem do aeroporto, pegaram um taxi e durante o trajeto trocaram sonhos e carinhos. Chegando ao estacionamento do hotel a noiva encosta sua cabeça nos ombros do noivo e sussurra gentilmente: “Amor, vamos descer fingindo que já temos cinco anos de casados?” Ele respondeu, “tem certeza?” Ela acenou positivamente com a cabeça. Foi quando o homem pulou do carro, rapidamente, e lá do lobby do hotel berrou, “mulher, anda rápido! traga já as malas!”

Que tal? Senso de humor à parte, sob a superfície desta anedota tem uma verdade triste: com o tempo passando muitos casais vêm acomodando-se às marmitas. Quer ir mais longe? (Agora posso dizer por experiência própria!) Se o tempo revela um almoxarifado real atrás da vitrine dos primeiros beijos, quando nascem os filhos a coisa pode piorar ainda mais. O mundo está cheio de pai e mãe por aí que há muito deixaram de ser marido e mulher. Explodem as obrigações, desaparecem as noites bem dormidas, o choro quebra o clima, o corpo escultural ganha o upgrade da maternidade, passeios enchem porta-malas de tranqueiras infantis, e por aí vai… Isolados em suas obsessões por “manter a casa e educar os filhos”, o vazio da falta de “algo mais” aumenta e as tentações por miragens extraconjugais seqüestram o amor puro que um dia se vestiu de branco e desfilou de fraque junto ao altar. Não caia nessa! Isso é pular do rapel desafiador para cair num buraco do tamanho do inferno. Homem que é pai-macho encara sem medo o que “tem que dar certo”, e não como outros covardes que “se der errado caem fora”.

Se há um presente divino que Deus deu ao ser humano é o privilégio de duas vidas se amarem a tal ponto de gerarem outra nova vida – e isto, obrigatoriamente, tem que potencializar ainda mais a atração descontrolada e cumplicidade apaixonante entre o casal. Acredite! Se o namoro não acaba enquanto se casa, o casamento jamais pode esfriar quando o “beijo do Céu” – de corpinho fofo e rostinho perfeito – vem para ser embalado no meio dos dois.

Acredito que podemos acender velas românticas mesmo com a babá eletrônica entre as taças de cristal sobre a mesa. Ou manter aquele jeito de amar a dois tão exclusivo quanto suas próprias digitais. Posso compartilhar com você algumas idéias que me ajudaram ultimamente?

- Troque o binóculo pelo espelho. É sempre mais fácil vasculhar defeitos no outro do que reconhecer imperfeições em nós mesmos. Porém, isso só produz atrito, injustiça e antipatia. Ninguém gosta de ser cobrado por quem também não pagou suas dívidas. Já pensou que ser um ditador tirano não está tão longe da realidade matrimonial? É só exigir do cônjuge o que nem você está dando conta também. Por exemplo, vê se entra na academia antes de esperar dela as curvas de antes; aprenda pedir perdão na proporção desejada de que lhe peçam desculpas; ao invés de brigar pela perda do celular confirme se você também não esqueceu o remédio da farmácia. Você provavelmente verá no espelho sua distância da perfeição pra exigir menos a infalibilidade alheia.

- Cadê a Lua do namoro? Antes de se frustrar com a quebra do encanto, me responda: você é o mesmo conquistador romântico de antes? Ou os flertes de Casanova se deterioraram num casebre velho sem graça? Você continua nomeando estrelas ou baixou a neblina da mudez indiferente? Mulheres não mudam nunca – sempre continuarão hipnotizadas por um elogio levantando sua auto-estima. E nós homens esperamos o brilho no olhar delas enquanto escancaramos um buraco-negro de silêncio e desvalorização. Isso não pode! Não espere mais do que uma Fiona se você se acomodou feito Shrek! Livre-se daquele zorbão tosco, devolva a ela o príncipe Don Juan de antes e receba em troca aquela diva se jogando em seus braços. Infle o ego dela como era, e vivam como foram.

- Provoque o gênio da lâmpada. Lembra do Aladim esfregando a lâmpada pra libertar o gênio? Isso mesmo. Tem três expressões básicas que funcionam igualmente para despertar a mulher que você sempre quis: muito obrigado, por favor e desculpe. Ser gentil jamais cairá de moda. Cafonas são aqueles que reservam a elegância só pra hora de impressionar o chefe. Casamento é uma busca genuína por reinventar o respeito mútuo e a educação mesmo quando ficamos à vontade demais. Ou no namoro a grosseria provocava bons momentos? Seja sempre cavalheiro.

- Quebre os paradigmas. Homem lava louça, sim – mulher lava o carro também. Um dos vilões roubando a adrenalina do casamento é o excesso da rotina. Quando trocamos papéis, ou surpreendemos com deliciosas novidades, arriscando o imprevisível, na pior das hipóteses uma boa gargalhada injetará endorfina na alma. Amigos topam tudo, então porque no casamento economizamos o desconhecido? Outro dia fui no banco de trás do carro com minha esposa ao volante – a festa foi tanta que a polícia quase nos parou. Planejem saídas alternativas, invertam a ordem das coisas, descubram lugares diferentes e curtam os imprevistos da nova vida a três (ou quatro, ou cinco…). Não deixem que uma criança a bordo estrague as novas aventuras acompanhadas das eternas músicas preferidas no carro. Viver fascina!

- Blinde sua vida a dois. Agora, cutucarei o vespeiro. Sei que vou sugerir o “quase” impossível, mas é imprescindível fabricar escapadas de casal. Não digo apenas os momentos íntimos (já que portas trancadas jamais ensurdecerão pais atenciosos) – mas falo daquela intimidade de existir saídas, passeios, jantares, ou visitas experimentadas novamente a sós. Planejem uma babá por hora, peçam aos amigos de confiança, apelem para os avós corujas, enfim, sempre há uma alternativa para reascender a chama com um encontro a dois. Valerá a pena qualquer investimento! Em poucos momentos a exclusividade resgata a paixão, e a admiração mútua reconquista espaço. Fizemos isto dias atrás, e fazia tempo que não percebíamos o quanto ainda estávamos felizes e encantados um com o outro. Se tudo começou em casal, não deixem perder a amizade particular que originou tudo. Filhos não podem roubar um namoro.

- Tragam o Deus do altar para o quarto. Certo dia, um líder religioso abençoou-os no corredor florido, e de lá pra cá vocês nunca mais ficaram “desabençoados”. O problema é que esquecemos isto. “Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam” (Salmos 127:1). Se Deus realmente é amor, tudo que amamos carrega a presença dEle. Não jogue fora a marmita – peça ajuda pra Quem criou a própria Lua. Já ministrei muitos casamentos, mas o que mais gosto mesmo é encontrá-los anos depois embalados naquela mesma benção. Acredito que dá pra ser feliz – em família.

Ah, e o casal de pombinhos fingindo cinco anos de casamento? Décadas depois ainda brincavam, mas fingindo estar em lua-de-mel. E com todas as malas, obviamente, ainda sendo carregadas…

… por ele.

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