Nove Meses

jul 21, 2010 by

Nove Meses

“Ser mãe é ter permissão de encostar um pedacinho sagrado da sensação de ser deus”

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A gravidez é uma explosão de beleza ímpar na passarela da vida. Nunca pensei que o corpo de uma mulher fosse capaz de ultrapassar limites tão incríveis. Estou fascinado pela minha esposa, na forma pura como Deus presenteia a espera.

À medida que a barriga cresce, multiplica-se a ansiedade incontrolável por desembrulhar o presente. Dentro do ventre reside intacta uma promessa revestida de amor. Protegida em pele de elástico e ternura de pérola, lá está ela – a continuação da história misturando genes no milagre da re-criação.

Cada vez mais me convenço do inevitável: ser mãe é ter permissão de encostar um pedacinho sagrado da sensação de ser deus. É um visto do Céu no passaporte dos sonhos para se experimentar o dom da geração de um ser. E dom não se pede, nem se conquista – apenas se ganha, e ponto final.

A mesma mulher amaldiçoada lá no jardim de Deus, cuja fruta mordida lançou o Filho na cruz, ainda assim foi beijada por Ele. Tornou-se a mesma mulher, incrivelmente abençoada pelo Criador, para desfilar nove meses no centro das atenções do Universo. Se mulher já é princesa de fato, uma gestante torna-se imediata rainha de direito. E cresce dentro dela este direito inalienável de ser amada, bajulada, protegida e admirada. Uma diva única alargando seus vestidos reais.

Hoje entendo porque Deus nos fez esperar. Porque o ser humano tem muito que aprender aguardando a concretização dos planos. E o gene masculino tem mais dificuldade ainda quando não pode “por a mão na massa”, ficando refém da linha do tempo. Já viu como isso é difícil? Para nós, homens, o máximo que aguardamos são até três carros na fila do pedágio. Buzinamos, aceleramos e ultrapassamos rápido. Somos seres do agora, que já podia ter sido ontem. Queremos controlar as coisas. Como “realizadores autênticos” driblamos, miramos, chutamos e fazemos gol. (E por que não passou a bola pra cá antes?)

Mas, de repente, o mundo pára. No resultado positivo, as duas listras secam a garganta. Tudo fica diferente. (No meu caso “congelei” na hora, sentindo o mundo pesando sobre os ombros. Fui pra cama e dormi 15 minutos!) Agora é olhar um corpo que você ama esculpindo outro amor que embalará pelo resto da vida. Elas mudam instantaneamente. Nós levamos horas para entender. Elas passam a sorrir com um olhar de quem sabe que agora é senhora de seu destino duplo. E nós? Compramos coisas, pintamos paredes e viramos machos protetores, na tentativa de disfarçar o simples fato de que não sabemos nada.

A gravidez é uma pré-escola para a mãe-professora maravilhar o pai-aprendiz. Deus fez assim e sabe por que. Dependência, humildade, carência e paciência levam certo tempo para se desenvolverem. Nove meses para começar – e uma vida inteira para concluir. Um pequeno ser, do tamanho de um grão de mostarda, move montanhas de paixão no coração dos futuros pais corujas. A criança vai se formando, exibida em relances chuviscados na monocromia de um ultrassom. É um filme cinematográfico com imagem tremida e o som pulsando de forma rítmica. Na audiência, só dois espectadores tão encantados quanto emocionados. E como sempre, lá está o pai, fingindo que vê a imagem, e ao seu lado, a mãe: chorando porque sente o milagre criando dedinhos.

Não tenha dúvida, a mulher grávida sabe o que é amar sem enxergar. Consegue sofrer um pouco, sorrindo por aquilo que não tem preço. Da noite pro dia, aprende a se privar dos próprios gostos, para fortalecer com saúde um prolongamento de si mesma. Suas noites se encurtam e viram dias, mas ela continua sonhando – agora mais acordada do que dormindo. No seu andar jogado, equilibrando quilos colhidos de repente, ela revela com orgulho a elegância jateada em mimos de quem merece a preferência em tudo.

Por isso Deus a fez assim. E por isso o Salvador nasceu assim. “Disse-lhe o anjo, Maria, não temas! Conceberás e darás a luz um filho, e porás o nome de Jesus” (Lc 1:30-31). Para mostrar às galáxias que, se de um estômago faminto a fruta do pecado estragou tudo, foi do mesmo ventre feminino que o Filho de Deus veio consertar tudo. E este Deus em pele humana formou-se nove meses no corpo de uma mulher.

Já tentou imaginar isso?  Anjos incontáveis assistindo a Onipotência carente dos nutrientes de uma mortal? Os mundos não caídos presenciando o Criador dependendo do cordão umbilical? Impensável. Absurdo. Tanto quanto um Deus que quebra todas as regras.

Só nove meses – foram tudo o que o Messias teve de paz e compreensão. Esta era a missão dEle. Mas foi o período suficiente onde a Redenção formou-se plena dentro de uma guerreira.

Nove meses.

Um tempo que passa rápido, em segundos de magia encantadora, para mostrar o verdadeiro valor da mulher. Pecadora, mas sublime. Criatura e criadora. Serva de seu corpo, mas soberana de sua vocação. É uma verdadeira unção do Céu. Uma rainha recebendo a coroa. Somente para poucos. Para poucas. Só para a mulher.

Você merece isso, mulher!

E Jesus nasceu assim.

De alguém como você.

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