O Saradão

out 6, 2010 by

O Saradão

“Todo homem que é homem quer se sentir homem na vida de alguém”

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Todo pai é fortão, mesmo se for só aos olhos do filho. Forjados por deuses gregos seus bíceps, tríceps, peitorais e panturrilhas são tão definidos quanto a ilusória admiração de uma criança. Até os pneus-e-carecas somem na imaginação de um motorzaço de 500 cilindradas. Eu faço parte deste grupo de marombados-abobados! Minha filha chegou à fase de apertar o “pause” pra congelar o tempo no controle remoto da vida. Lembra o varal de sua boca com dentinhos feito duas meias brancas? Agora já são oito meias penduradas, e seu sorriso infla meu ego ao me sentir He-Man do seu lado. Faço flexão de braço com ela em cima, levanto seu corpo como alteres olímpicos e me exibo com infinitas sete abdominais. É uma incrível musculação anabolizada sob a única condição de ficar longe do espelho – pra quê estragar a farsa?

Na verdade, sinto-me o Mister Universo perto da minha fã número um. Inclusive é bom, de vez em quando, desfilar na miragem da fortaleza masculina. Há pouco, ela bateu no meu peito e contraí meus músculos esculpidos em aço elástico. Até a mãe explodir, cruelmente, o balão de ar colorido: “coitada, ela acha o pai o homem mais forte do mundo!” Ignorei este absurdo, continuando imerso na fantasia – é interessante como homem gosta de ser bajulado, mesmo se a admiradora usar cinco fraldas por dia.

Hoje, defenderei a pátria amada: o território dos homens que não falam, mas sentem. Estes dias, estava jogando minha filha pra cima vendo-a voar às alturas. (Atenção! O Ministério da Saúde adverte: não faça isso a menos que você seja o melhor paizão do mundo.) Enquanto ela curtia, gargalhando até faltar gengiva, eu me sentia ineditamente assim: pleno. Acho que é a única palavra pra traduzir a sensação de plenitude que se apodera de nós em certos momentos. Ao vê-la pelos ares me senti forte, seguro, admirado, poderoso, importante e realmente único. Afinal, ela aterrissava confiando em meus “musculosos” braços, e eu a projetava pra ver o mundo lá de cima. Foi quando pensei: e por que esta satisfação existencial não pode se repetir em outros pedaços da vida?

Todo homem que é homem quer se sentir homem na vida de alguém. Gaste um tempo pensando nesta aparente obviedade. Muitas vezes, as atraentes-mulheres-divas, hipnotizando legiões por aí, se distraem da lacuna existencial que também cala fundo na alma do imbatível “ser sarado” que a corteja, protege e conquista. Por isso, tem muito macho procurando uma fêmea que o coroe Rei da Floresta. Lá dentro, misturado numa galáxia de estereótipos e vergonhas, também há no coração masculino carências capazes de motivá-lo a procurar algo mais – capazes de torná-lo relevante e admirado. Como diriam, somos seres da caverna implorando atenção para o tamanho da fogueira feita. E sábias são aquelas que, de vez em quando, descem do salto alto pra pisar no gramado do campo de futebol elogiando um gol feito pelas chuteiras, um dia, conquistadas.

Posso contar meu segredo? Não sei se devia escancarar isso a você, mas vou confiar! Minha profissão parece uma moeda, e trabalho em duas dimensões: o lado “cara” é administrar um veículo de comunicação com pouca gente aparecendo para milhões de gentes, a “coroa” é falar pra inúmeros auditórios o que ultrapassa o discurso pra se tornar uma pregação (você já percebeu que acredito em Deus e amo falar nEle!). Já preguei pra muitos, mundão afora, e certas mensagens até mais de cinquenta vezes. Recebo inúmeras reações de reconhecimento carinhoso do público – quer na porta de saída da igreja ou depois da imagem na tela da televisão. Mas sabe quem é a única capaz de reduzir todos os elogios a castelos de areia ruídos? E também construir uma fortaleza de rocha blindando minha sensação de missão bem cumprida? Só ela, uma mulher: minha esposa! Mesmo se ouviu dezenas de vezes o mesmo sermão, quando voltamos de carro pra casa, ou sentamos juntos num avião, eu espero dela a verdadeira opinião de quem cativou minha vontade de me sentir o eterno saradão. Ela sabe disso e me sinto amado por isso.

Se as mulheres entendessem a força devastadora de um elogio admirador teriam os homens ainda mais a seus pés (não acredito que abri a Caixa de Pandora!). Ser pai é uma injeção incalculável de auto-estima porque nos faz sentir sóis irradiantes iluminando planetas ainda que só de gatinhos. O olhar fascinado de um ser de 10 quilos engatinhando desperta em mim a vontade de provar que sou tudo o que ela acha que sou. E por que levar na graça o que é encantadoramente sério? Nós, homens, precisamos ser mais admirados para admirar ainda mais. Naturalmente, não me venha com a ideia de que somos buracos negros sugando a energia universal pra satisfazer um egoísmo narcisista – homem metido assim tem que viver puxando ferro e dormir sozinho numa cama de espelho. Não é isso que quero dizer! Apenas revelo a vontade calada masculina de mostrar que não somos surdos, e também gostamos de ouvir e ser reconhecidos.

Vou espetar o casulo das vespas africanas: toda mulher já deve ter detestado a ordem bíblica “sejam em tudo submissas a seus maridos” (Efésios 5:24). Isso despeja sal grosso na ferida feminina de um mundo machista. O problema é que, ao invés de se plastificarem anti qualquer bajulação a eles, elas deveriam ler a seguir: “maridos, amai vossas mulheres como Cristo amou a igreja e a Si mesmo se entregou por ela” (Efésios 5:25). Quer mais? “Assim também os maridos devem amar suas mulheres como a seus próprios corpos” (Efésios 5:28). Aqui estão toneladas de obrigação acumuladas sobre os ombros masculinos! Ou seja, homem que é homem pode chegar a morrer por aquela a quem se entregou. Homem mesmo doa-se a ponto de fazer o bem sem nem receber de alguém. Se veneramos nossos corpos fortões isso deve disparar um amor maior àquelas que se “submetem agüentando nossas chatices”. E o caminho vai longe, numa estrada interminável onde quem dá mais recebe ainda mais (adoro como a Bíblia é perfeita!).

Isso tudo é pra alertar o universo feminino a não se desiludir com o falível mundo masculino. Existem por aí homens dispostos a se sentirem valorizados tanto por crianças banguelas quanto por mulheres esculturais. Ninguém perde o valor por dar valor a alguém. Sempre disse isso pensando nas desvalorizadas, ignoradas e desrespeitadas princesas modernas destituídas de seus palácios sonhados. Mas, por outro lado, eu também sou obrigado a relembrar da existência dos bons reis descoroados e frustrados pela carência de admiração de suas rainhas. O aviso muda o sexo, mas não o conteúdo: mulher que nunca valoriza seu homem pode estar reforçando sua busca por se sentir super-homem em outras realezas. E não é ameaça, nem chantagem, mas a sincera realidade de que felicidade é uma via de mão dupla. Elas sempre merecerão sentirem-se lindas, e qual o problema deles merecerem sentirem-se fortes? Elas esperam pelo romantismo inebriante, eles também aguardam o suspiro de fã. Elas não erram por sonhar com um príncipe sedutor estonteantemente lindo carregando-as fortemente em seu esvoaçante cavalo branco, mas eles não podem ser punidos por quererem se ver assim de vez em quando. Elas são tudo, e eles não são “de nada”. Este é o momento crucial de aumentar merecidamente o preço – de ambos!

Acho que minha super-esposa incorporou o verso “a língua serena é árvore de vida” (Provérbios 15:4). Ela sabe, de maneira singular, fazer-me sentir a última trufa da caixa importada de chocolates belgas. Se ela é espertamente exagerada (longe disso! mulher jamais bajularia por um vestido novo!), eu não quero nem saber. Só sei que faz um bem danado ouvir algo que me dispara correr pro espelho, e dizer: “é isso aí, você é o cara!” Sou perdidamente errado em muitas coisas, e imperfeito zilhões de vezes, mas ela descobriu na valorização a Poção Mágica pra me dobrar como papel celofane. Isso não é carência, é sobrevivência! Não dependo de bajulação pra tocar minha vida, mas sentir-me importante é condição para sentir-me vivo. Acredito que Deus tem me ajudado a lembrar, constantemente, que sou mais do que pareço quando estou no fim da fila e menos do que dizem quando cheguei ao topo do pódio. Sou apenas um homem buscando encontrar o que nunca se perdeu: a confirmação de minha filiação da paternidade divina e à Sua própria imagem. Isso é melhor do que mereço e mais do que recebo. Faz bem à alma, e como!

Que tal encararmos o mundo com olhos melhores? O homem deve admirar seu porte atlético, não através do espelho, mas conforme sua propensão para amar fortemente. E tem gente que saberá reconhecer esta força, não tenho dúvida! Um dia, minha filha – com seu varal cheio de dentes perfeitos – descobrirá que meus braços não são tão Herculianos como parecem hoje, mas continuará vendo meu olhar de segurança, mesmo se emoldurado por rugas. Também não conseguirei mais jogá-la pra cima, no entanto ainda segurarei suas mãos crescidas transmitindo a mesma proteção. Ela acabará encontrando peitorais mais definidos e sorrisos mais sarados, porém nunca esquecerá o caminho de volta para este paizão envelhecido tão ciumento quanto apaixonado por seu bem. E isso me trará de volta o mesmo reconhecimento que hoje aquece meu coração. Logo em seguida, mesmo numa cadeira balançando, ficarei novamente feliz, sentindo-me fortão e em paz – feito um verdadeiro super-heroi.

Como um homem de verdade.

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