Os Olhos Dela

nov 3, 2010 by

Os Olhos Dela

“Se os olhos são as janelas da alma, as pupilas da mulher são persianas do paraíso.”

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Deus é onisciente, mas as mulheres são quase!” escutei de um admirador delas. Já percebeu que não existe doutorado no mundo capaz de ensinar um homem enxergar o que só elas conseguem ver? Seus olhos são microscópicos a ponto de perceber um fio de cabelo na ombreira do blaizer, e telescópicos pra notar o encanto de uma lua cheia. Seus olhares explodem numa galáxia de diamantes ao ganharem uma bolsa nova, mas também marejam lágrimas quando o mocinho do filme morre no fim. Numa piscada de relance obrigam joelhos masculinos beijarem o chão, e noutra mais direta silenciam uma criança esgoelando há horas. São olhares multifacetados de mosca em corpo de sereia. Não adianta, se os olhos são as janelas da alma, as pupilas da mulher são persianas do paraíso. E não é porque tudo ali são “mil maravilhas”, mas porque elas conseguem ser seletivas ao extremo. Sabem o que, quando e como olhar – e até demais!

Minha filha está crescendo e, com ela, uma mulher-mãe merecendo o Nobel da Percepção. Se a fase de embalar seu corpinho de um palmo já passou, chegou a hora de correr atrás dela feito maluco – tanto com pernas, quanto com olhos. Eu até ganho na corrida das pernas, mas jamais – nem de longe – ganharei da esposa nos “100m rasos” do olhar. Ela vê coisas que ainda não existem, mas, certamente, logo existirão. É uma profetiza num avental. Absurdo! Semana passada, ela previu: “amorzão, não deixa cair semente de azeitona no chão!”, adivinha o que sufocou nossa filha minutos depois? Depois, profetizou: “gatão, enrola o fio do computador, por favor?”, a coitadinha desfilou 3 dias com um mega-galo na testa, depois de quase se enforcar. “Lindão, feche a tampa do vaso sanitário!”, em que manancial de águas a mocinha fez seu oásis? E a mais recente: “fortão, não largue seus pesos de chumbo por aí, tá?”, tudo bem, já pedi mil desculpas pela boquinha dela virar a da Angelina Jolie! Vem cá, será que sou tão azarado a ponto de ter que inventar todos os adjetivos anteriores? Pois é, acho que sim! A verdade é que a mulher vê além e, se não cuidar, o homem aquém. Vida cruel… pra nós!

O que vem a seguir? Essa virtude feminina provoca nossa altivez masculina. Eu sei! Mas, o negócio é valorizar isso nelas contando pontos a nosso favor. Não tem saída! Elas sabem que suas “meninas dos olhos” são melhores que nossos “grosseirões míopes”. Sua percepção mais nítida expõe nosso estrabismo desajeitado. Surge, então, a aberração da cegueira de uns machos por aí: querer obrigá-las pela força se submeterem a esta fraqueza. Impensável! Você consegue imaginar um homem vesgo ameaçando uma mulher visionária? Ou um maluco de bíceps explorando os favores da abelha-rainha? Não admito um brutamontes estrábico agredindo a lady de olhar de águia. Nem permita você também!

Como não têm perfeitos antes do Céu, reconheço que, de vez em quando, viro farinha do mesmo saco. Um dia, cheguei do trabalho, e lá fui dar uma de “olho que tudo vê”. Fiquei impaciente porque minha esposa não pagara uma fatura na internet. Ela me ouvia matraqueando ao mesmo tempo em que espiava nossa filha escalando a cristaleira. Após meu discurso de rei, foi a vez dela me fazer enxergar: “Fofinho (me adjetivei novamente!), não paguei a conta porque a web caiu, a diarista não pôde vir, a bebê vomitou 3 vezes, chequei a febre dela, tive de trocar 5 fraldas, dar banho pra dormir, fazer a cerimônia da janta dela, atender seus pais que ligaram, limpar a cozinha pra torná-la habitável, falar com o síndico, pedir sua pizza preferida e remarcar o pediatra desta tarde. O que você acha?” Enquanto eu gaguejava, remoendo aquelas expressões que homem nunca encontra, ela já sumia da minha frente pra segurar a filha no ar antes de se espatifar no chão da sala. “É… hmm… a internet já voltou?!”, me ofereci mansamente envergonhado.

Não adianta, é sempre mais fácil olhar pros outros do que através do olhar dos outros. Ponto final. Não somos ralé e elas imaculadas, mas, querendo ou não, precisamos reconhecer que temos muito a aprender – inclusive com as mulheres. Isto não significa ter que diferenciar o esmalte branco pérola do branco marfim, muito menos um salto palito do plataforma, quer dizer ouvir a voz do sexto sentido e a praticidade das soluções múltiplas. Elas olham simultaneamente, enquanto nós, exclusivamente. Por isso precisamos arejar nossas tradições bitoladas e admitir a versatilidade ímpar deste Universo Pink. Quem sabe, se admirássemos mais suas virtudes agregadas economizaríamos energia vital pra investir em outros sonhos? Tenho lutado num ringue íntimo contra a petulância que só me torna mais tonto. Pois, na verdade, covardia não é fugir de alguém, é não suportar reconhecer o potencial deste alguém. E isto pra nós, homens, vira machadada no ego ao ver nelas algo indestrutível. Pena alguns não perceberem o quanto se ganha quando o amor se traduz em admiração de maneira pura. Ninguém perde, todos ganham!

São os teus olhos a lâmpada do teu corpo; se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo será luminoso” (Lucas 11:34). Tá explicado porque certas pessoas irradiam uma luminosidade capaz de conquistar o mundo ao seu redor. Enquanto alguns são meras lanternas de pilhas fracas, tem gente varrendo o horizonte dos mares como um farol despontando na rocha. Como você vê os outros determina como os outros verão você. Olhos radiantes nem sempre serão da própria luz, mas sim, do reflexo vivo de admiração por alguém que merece ser reconhecido. E nossas lâmpadas masculinas deveriam perceber, mais e melhor, os castiçais femininos que engrandecem nosso próprio ambiente. Pense nisso!

E o olhar delas? Ah, aquele olhar… Continuará multiplamente imbatível e sorrateiramente ambíguo. Uma deliciosa mistura de praticidade desconcertante com um toque de sensibilidade indecifrável. Milênios não ousarão compreender o enigma de tanta poesia piscando tanta força. Será sempre assim: elas antevendo por sentir, e nós protegendo por nos deixar encantar. Viverão um momento à frente na linha do tempo enquanto nós às cortejaremos gratos por chegar mais longe. Serão cidadãs do futuro pra nossa admiração no presente pavimentar lembranças incríveis do passado. Que elas olhem – sempre, tudo e antes – pro bem da humanidade e tornando a vida ainda mais bela. Com tudo isso, ganharemos junto às vitórias delas. Até que um dia nossos olhos se cruzem novamente, como foi na primeira vez e, de novo, percamos o rumo encantados por aquele olhar – e com tudo mais que o acompanha.

Desculpa, vou lá exterminar todos os caroços de azeitona do chão.

Aqueles olhos lindos merecem muito mais de mim.

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