Traidores Traídos

ago 3, 2010 by

Traidores Traídos

“A traição sexual feminina pode ser uma reação desesperada à traição profissional masculina”

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Hoje não quero falar da minha filhinha dormindo no quarto ao lado. Dedico estas palavras pra quem divide a mesma cama comigo:

Minha mulher.

Vai entender este ser enigmático desfilando beleza às custas de nossas fraquezas! Elas parecem frágeis e fáceis apenas pra disfarçar a fortaleza de alma quase inatingível. Conseguem nos arrancar do centro reposicionando-nos a meros hipnotizados com vontades periféricas. Suas armas são invencíveis: doçura, singeleza, ingenuidade, sensualidade, maternidade, garra, força e dependência. Movem o mundo com caixas de sapatos, cartões de crédito, trocas de fraldas, cabelos impecáveis, cosméticos intermináveis e resistência de fibra de carbono sob um olhar suavemente estonteante. Todas sabem deste poder imenso – nós nos iludimos tentando não reconhecê-lo.

E por que, depois de tanto esforço para conquistá-las, jogamos tudo ralo abaixo tentando sobreviver na sarjeta de casos extraconjugais? De qual reino do absurdo a palavra traição revestiu-se de esperteza na realeza? Filmes, novelas, piadas e histórias-de-pescador tratam deste assunto como se o humor empacotasse de aventura memorável este terrível desvio do bem capaz de estragar tudo. Talvez, nesta supérflua demonstração da malandragem masculina resida nossa patética marca registrada de insegurança. Tememos aquilo que amamos, porque na queda-de-braço nossos bíceps perdem para a resistência às dores de parto – a testosterona fica longe da versatilidade empática da progesterona – e somos completamente incapazes de fazer várias coisas ao mesmo tempo. De repente, o placar se inverte e, com um calafrio na espinha, percebemos que o verdadeiro sexo frágil… Bom, deixa pra lá!

Mas, calma aí! Antes de você entrar em colapso com fúria de ego ferido, prometo não nos fragilizar mais. Somos os reis na floresta de concreto, e ponto final. Agora, neste papo de infidelidade, confesso me incomodar com a razão disto acontecer. Não precisamos disso para sermos mais homens. Não amadurecemos no Olimpo fazendo malabarismos pra disfarçar lares simultâneos. Muito menos, somos mais valorizados ao gastar neurônios encenando duas caras – ou até mais.

Na realidade, você gostando ou não, o verdadeiro prazer na vida não está na mesma experiência com inúmeras anônimas por aí, e sim nas inúmeras diferentes experiências com a mesma mulher aninhada em nossos braços por aqui. Se criaram o casamento como um plano divino de proteção ao sentimento mais eterno herdado pelo ser humano – o amor – a cerca não existe porque os de dentro pulariam, mas para os de fora não atrapalharem. Não perca tempo tentando se destacar agarrando o mundo – invista mais tempo sendo feliz no mundo de alguém.

E do lado delas? Sem pânico! Mas, nesta geração democrática, as mulheres estão numa sociedade em ebulição capaz de igualar direitos e deveres independentes do cromossomo XX ou XY. Se um homem quebra o encanto e pula a proteção, a mulher não é pior se faz o mesmo – ambos são responsáveis pela infeliz desordem na vida numa triste decisão infiel. O que surpreende, até mesmo no universo cristão, é o aumento exagerado destas atitudes feitas por quem antigamente era obrigada a passar o dia “na pia, no fogão, cuidando das crianças à espera do marido com o jantar”.

O que levaria uma mulher, conquistada com pétalas e gentilezas reais, trocar o certo pelo duvidoso? Enquanto homens buscam auto-afirmação provando-se machos onipotentes nas rodinhas dos garanhões, elas sabem que não precisam disso – até porque estão muito acima com “suas mãos embalando berços e movendo o mundo”. Então, qual a razão delas pularem fora do muro protetor explorando outros braços protetores?

Preparem-se…

Homens-pais-machos-corujas-fortões, a resposta é simples, e assustadora: a culpa pode ser nossa! Se você não foi obrigado a casar com ela, não foi conquistado à força por ela, nem lhe pagaram uma fortuna para fingir amá-la, quem moveu montanhas para tê-la junto a si pra sempre? Acertou: você, o homem! Exceções à parte, e sem justificá-las pelo erro, a imensa maioria de casos extraconjugais protagonizados por elas alicerçam-se em razões práticas ofertadas por eles. Filosofem o que quiserem, mas até hoje nunca fui convencido de que a mulher tem propensão, vocação ou pré-disposição para espionar a grama do vizinho. Ela vive feliz focando a preservação de seus sonhos de realeza: ser amada, sentir-se linda, proteger seus filhos, surpreender-se no romantismo, manter-se importante, existir num estado de graça, e rir do charme bem-humorado exclusivo do homem que a cativou pro altar. Ela nem se lembra do binóculo se está valorizada no seu palácio.

Sobrou pra nós, os homens? Claro que sim! Serei masculinamente objetivo:

TRABALHO. Jamais traga seu chefe pra cama. Esposas sabem quando estamos dando mais importância para um engravatado nos dando ordens do que ao recado enviado numa camisola de cetim. Metas, cotas, alvos e índices, tudo isso existe para oportunizar uma melhor qualidade de vida em casa – o problema é que sacrificamos exatamente aquilo que deveria ser beneficiado com nosso profissionalismo. Você tem gasto mais tempo falando do trabalho que do descanso? Sinal vermelhíssimo. Elas preferem um bônus a menos no salário do que uma solidão há mais dentro do quarto. Uma terapeuta me deixou de queixo caído: “a traição sexual feminina pode ser uma reação desesperada à traição profissional masculina”. Trabalhar é privilégio divino, escravizar-se é tentação diabólica. (Ou só trabalhe, e abra mão da companheira pra vida, vivendo de aventurinhas adolescentes…)

PRESENÇA. Tem a ilustração de uma canguruzinha que vivia fugindo da jaula no zoológico. Aumentaram sua cerca e ela saltou pra fora novamente. Levantaram mais meio metro, e lá estava ela perambulando solta de novo. Outro meio metro, e nada. E outro… Até que um dia o leão perguntou pra ela, “vem cá, até quanto você acha que eles vão subir sua cerca?” E a canguruzinha respondeu, “por mim, eles podem aumentar quilômetros, enquanto continuarem esquecendo a porta aberta!” Sentiu o soco no estômago? Existem espaços na relação que não se resolvem com cartas, e-mails, buquês, presentes caros ou telefonemas infindáveis – simplesmente, porque só a presença de corpo e alma nutre a carência genuína de sermos plenos a dois. Nem sempre tríceps definidos serão o mais importante, mas ser carinhosamente envolvida num abraço sem pressa, isto sim, é profundamente encantador. Se você viaja demais, se distraia de menos. Planeje seu retorno cuidadosamente. Deixe claro sua preocupação. Elas precisam ser compensadas de alguma forma: fins de semana surpresa, levar junto em certas viagens, voltar pra casa sem o notebook desligando o Blackberry, etc…

EXCLUSIVIDADE. Não adianta! Dificilmente uma esposa trai porque achou outro mais bonitão (só se você relaxar ao cúmulo do ridículo com pelancas e fedores, se observe!). O que hipnotiza uma traição feminina é o desejo instintivo de se sentirem importantes – e nada no universo prova mais importância do que sentir-se única. O problema não é o futebol, é a devoção inadiável ao vício; nem chegar tarde do trabalho, mas o desinteresse em avisar; encontrar ex-namoradas também, mas não apresentá-la apaixonadamente, é pecado mortal. Ela será exclusiva sentindo que os amigos no esporte não sabem mais segredos do que ela. Na festa, ficará em paz se uma piscadinha discreta garantir pra depois a explicação ultra-particular. Mulher sente-se única com fragilidades masculinas confessadas, traumas reconhecidos e experiências fortes compartilhadas. Sei que pra nós machos é melhor mastigar prego com um piercing no olho a revelar nossos pontos-fracos, mas isso é a coroação máxima para a parceira não temer clones. Minha super-esposa diz: “Amor, mostre-se vulnerável! Sinto-me amada sendo a única saber disso!”

SEGURANÇA. Um dia todas tiveram um pai e, admirando-os ou não, buscam inconscientemente a proteção idealizada na figura paterna. A fidelidade feminina é proporcional à segurança sentida no afeto, respeito e firmeza. Homenzinhos de seda são bons pra trocar fofoquinhas – isto as afasta inseguras e nem de longe é sensibilidade. Mas a força equilibrada de quem sabe o que quer, aonde sonha chegar e defende seu dia-dia, estimula atraentes feromônios despertando a admiração de fêmea protegida. Mesmo com equívocos no percurso, ser proativo vale mais do que reativo (nada haver com impulsivo!) – vivemos um slogan lá em casa “é melhor errar por fazer do que não errar por nunca fazer”. Maridão com iniciativa é artigo precioso no mercado rosa-pink.

HUMANIDADE. Muito raramente, homem pendurando toalha na testa recebeu esta “proeminência” por causa de outro homenzarrão grosseirão. Que nada! Os tempos de Rambo, Conan e Hulk se foram faz décadas. Alguns sentem calafrios com medo de perder autoridade se tiverem de pedir perdão ou extravasar uma lágrima. A questão é que exatamente neste momento a mulher percebe que também pode ser um porto seguro. Já tentei revestir de chumbo a carapaça do meu cotidiano, tornei-me um samurai no front, mas distanciei meu coração humano daquela capaz de me ajudar. Elas se sentem úteis ao encontrarem espaço para também remarem o barco na tempestade. E quando pedimos ajuda, a cumplicidade estabelecida blinda além da cerca. Faça o teste!

AMOR. Não acredito que escrevi isto, mas minha esposa me convenceu – em meus risos irônicos – de que o leitor precisa ler esta palavra! É que minha mente racional, manipulada pelo lado direito da objetividade do cérebro, se recusa gastar muito tempo se derretendo nesta expressão. Mas, vamos lá! O óbvio às vezes é tão óbvio que se esconde dentro do comum. Por isso Deus alertou: “os maridos devem amar as suas mulheres como a seus próprios corpos” (Efésios 5:28a). Traição é o homicídio do amor. Nunca esqueça que o livre-arbítrio é uma via de mão dupla. Faço um apelo aos homens que observem suas atitudes traidoras. As mulheres têm limites e reagirão mais cedo, ou mais tarde. Até algum dia surpreenderem – usando seu livre-arbítrio.

E quem ama sua esposa, a si mesmo se ama” (Efésios 5:28b). Na mosca! Quer sentir-se macho todo poderoso? Você gosta de si mesmo como qualquer homem busca ser centro do universo? Ame pra valer aquela que protegerá sua própria auto-estima, sendo fiel e companheira. O sortudo será você. Na lei da causa-efeito do casamento, amar de verdade é fazer um bem também pra si mesmo. E nada é melhor do que a volta pra casa ser a melhor parte do dia. Feliz.

Sem se estressar com a cerca.

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