Ciclo da Vida

abr 2, 2012 by

Ciclo da Vida

Se envelhecer é retornar ao Jardim da Infância – tragam as bolhas de sabão!

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Eu estava na academia quando vi uma mulher ajudando sua mãe mais velhinha a se equilibrar na esteira. O cuidado de uma era tanto quanto a insegurança da outra. Então me lembrei de um senhor no estacionamento do prédio cujos passos debilitados se apoiavam nos braços do filho ao sair lentamente do carro. E os outros filhos buscando o assento especial na fila do supermercado pros pais octogenários? Ou cobrindo com casacos seus corpos encurvados pra fugirem de uma garoa? Lembrou comigo? Não adianta, envelhecer é voltar a ser criança – inclusive na dependência dos outros.

E não é fácil admitir isso pra quem corria atrás dos pais passando a esperá-los mais à frente. Os mesmos ombros que lhe carregavam nas alturas agora se aconchegam frágeis entre seu abraço. Aquela voz decidida tornou-se mais rouca acompanhada das rugas emoldurando seu olhar terno. Ué, seu corpo encolheu, ou você virou gigante? É a vida. Foi o tempo. Eis o ciclo da vida – este mesmo ciclo que um dia deixou o herculeano Adão repousando no colo de algum tátara-tátara-neto e, por fim, também nos transformou em “pais na prática” dos nossos pais heróis.

Eu não sei quando o jogo virou. Não percebi. Apenas notei quando já tinha acontecido. A verdade é que passei a me preocupar com meus pais do mesmo jeito que eles faziam comigo décadas atrás. E confirmei o indesejável ciclo da vida ao notar a inversão da autoridade protetora de quem recebeu na infância para quem passou a merecer na velhice.

É no mínimo estranho, pra não dizer incômodo, questionar nossos pais com coisas como: “tão indo no médico regularmente?”, “por que não ligaram pra gente?”, ou “cuidado, não me inventem de sair de casa tarde da noite!”, ou ainda “já não falei pra não andarem com dinheiro a mostra?”, e até mesmo “ei, tô mandando: tratem de fazer exercícios agora!”. Isso não é quase bizarro? Quem eu me tornei para, de repente, dar mais ordens do que obedecê-las? Eu, hein, vou deixá-los de castigo?

Claro que não. Faço isso pra EU não ficar de castigo – pela ingratidão, negligência e insensibilidade. Porque ser filho é tudo igual – inclusive na dívida que temos com quem sempre nos amou. Aqueles mesmos! Que um dia trocaram nossas fraldas e amassaram a bananinha no prato. Só que os ventos do tempo mudaram de direção, restando-nos cuidar, amparar e até nortear quem nos trouxe ao mundo pedindo uma carona nos seus anos de fim do mundo.

Comecei a pensar nisso ao perceber minha filha precisando do pai e meus pais precisando do filho. Nesta experiência de dupla-personalidade a gente se torna valorizado um pouco mais por quem somos do que pelo que os outros são. Enquanto ouço uma garotinha vestida de Cinderela dizendo “pai, quero papá!”, recebo uma ligação no celular com duas vozes pedindo “oi, quando você vem nos visitar?”. Se por um lado sou o paizão pra quem pula em meus braços saindo do berço, do outro sou o filhão pra servir de âncora a quem desbravou oceanos intermináveis. E isso me surpreende, atordoa de vez em quando, mas fascina de vez em sempre!

Não nos esqueçamos – jamais! – que faz parte da gratidão pelo legado recebido fazermos de tudo pra alegrar também nossas crianças de cabelos brancos. Pois se envelhecer é retornar ao Jardim da Infância – tragam as bolhas de sabão! Façamos deste aplauso final uma verdadeira festa de companheirismo, boas viagens e, acima de tudo, o repasse do maior tesouro da humanidade: a sabedoria adquirida com a experiência. E isso ninguém conquista por antecipação.

Portanto, acredito ser esta minha fase de filhão-paizão o maior recado do Céu de que um dia o ciclo se romperá. O despontar da vida não se debruçará mais no ocaso da mortalidade. O incessante desenvolvimento da mente puxará o fortalecimento dos músculos. E todos correrão com pernas viris no mesmo ritmo do seu coração bombeando tantos sonhos. Que tal?

Só assim, presenciaremos a “melhor idade” com a “maior esperança”. Até quando, finalmente, tudo voltará a ser como deveria ter sido – sempre novo, muito feliz e sem fim.

Com as bolhas coloridas cintilando à luz do sol pra nunca mais sumirem.

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