Já Pra Cama!

mai 1, 2012 by

Já Pra Cama!

Viver é mais do que seguir adiante – tem que ser ir muito além.

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Minha filha passou do berço pra cama e eu saí da cela coletiva pra me trancar na solitária. Porque quanto mais o tempo passa – implacável! – mais prisioneiro eu me torno da saudade. Vê-la espichando dentro do cercadinho ainda me iludia de que tinha um bebezinho nos braços. Só que agora o casulo se quebrou de vez, enquanto suas asas de criança singram ares inevitáveis. Ela cresceu e eu não pude evitar. Tentamos fazer disso uma festa – que serviu pra ela, mas não distraiu a gente. Sei que parece trágico, porém preciso confessar que, a despeito do bolo e das velas, meu sorriso torcedor disfarçava um coração enlutado pela despedida do presente se evadindo pra sempre nos braços do passado. Foi-se o neném desta casa.

Existir é assim mesmo: escalar novas etapas rumo ao topo degrau após degrau. E vendo uma nova camazinha rosa-pink ao lado, reconheço minhas experiências inéditas adquiridas. Pois viver é mais do que seguir adiante – tem que ser ir muito além. Isso inclui se superar mesmo com a arquibancada vazia; nem recuar ainda que só reste você dentro do barco.

O problema é que existe uma epidemia contagiosa de desculpas tentando corroer a perseverança dos corajosos. Tem gente que não quer sair do berço por medo do desconhecido, pavor de errar em público, ou até fobia de arriscar. É claro que a cama sempre trará consigo novos ajustes e adaptações inesperadas – por isso tantos tremem por dentro a cobrança lá de fora. E o perigo disso? Como tubarão em lata de sardinha, enquanto o corpo não cabe mais a maturidade segue de fraldas! Crescem fisicamente e diminuem existencialmente. Porque ninguém pára na vida dentro de um tempo que não pára pra nada. Ou estamos avançando, ou recuando; ampliamos horizontes, ou fechamos janelas; ou fazemos novos amigos, ou desprezamos os poucos que restam. Sei que parece cruel, mas é assim: pra ser feliz, só largando o berço que nos prende.

E esquecer as origens abandonando aquilo que nos embalou? Jamais! Não seja estúpido a ponto de desprezar o carinho que lhe foi beijado lá atrás. Meu alerta é sobre se libertar das âncoras emocionais que proíbem novos oceanos. Incluindo certos traumas que não prestam pra nada a não ser congelar seu entusiasmo. Ah, também tem pessoas que passaram pela gente desestabilizando o bom espírito – estas precisam ser deletadas imediatamente! Pra que desperdiçar gigabytes preciosíssimos da memória emocional com tanto lixo irrelevante?

Passe já pra cama! Ninguém obrigará você a amadurecer naquilo que só depende de você. Não existe escada-rolante pra automatizar uma vida adulta saudável. Por isso desfilam tantos imaturos e carentes nas passarelas do dia-dia. Esperando seus “príncipes encantados com sapatinhos de cristal”, muitas mulheres preferem idealizar fantasias a batalhar pelo próprio reino. E apostando na sena acumulada, tem homem que já se endivida pelo bolão de dinheiro que nem ganhou. Pobre berço! Sem falar nos competitivos tornando toda e qualquer relação interpessoal em provas olímpicas de rivalidade extrema. Estes – coitados! – são aplaudidos no palco dos bem-sucedidos, mas sem ninguém pra lhes abraçar atrás das cortinas.

Portanto, que tal reduzir os devaneios infantis e exercitar sua alma nos degraus da vida? Não dependa dos outros pra se independer de sua própria imaturidade. Trabalhe com as oportunidades a seu favor sem estacionar no aterro dos indecisos. Sempre digo pra mim mesmo que é melhor errar por fazer do que não errar por nunca fazer. Não sou exemplo pra ninguém, mas isso tem ajudado a me espreguiçar na cama nova. E você? Pronto pra cair fora do berço e conhecer as oportunidades do colchão maior?

Em breve novos sonhos lhe acompanharão.

Bom sono! Acordado.

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