Madame Esfolada

set 8, 2010 by

Madame Esfolada

“Cair é uma coisa – gostar do chão é completamente outra”

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Acabo de contar: nos últimos nove minutos minha filha caiu exatamente cinco vezes! Seu corpo biônico exibiu as mais incríveis manobras antes de “se estabacar tontamente” no chão. Ela cai com a rapidez que se levanta, e beija o piso como fiel amante do rodapé. Inexplicável! Tomba por pegar o que não cabe, tomba por correr mais do que as pernas, tomba ao levantar seus braços pra trás, tomba no meu dedão do pé, tomba se ri demais, tomba sem razão, enfim, é uma bípede com crises bipolares de quadrúpede! Maravilhosamente trôpega.

Temos um trato lá em casa: toda vez que ela se estrebucha no chão fazemos festa como se fosse um salto mortal. O intrigante é que, sempre ao cair, seu olhar volta-se instantaneamente pra nós, observando a reação e acompanhando nossos risos com um sorriso desnorteado de quem tenta entender. Aprendi que o susto é um “estalo perceptivo” – seu cérebro processa a reação alheia entrando no clima de celebração ao sentir-se seguro, ou não. Outro dia ela capotou feio na cozinha e nós parecemos malucos: após o instintivo “ai!” demos um “aííí!”, seguido da sua banguelinha escancarada sob um galo na testa. E ela saiu cambaleando batendo palminhas. Nem aí!

Vem cá, quem sai aplaudindo a própria trupicada no assoalho? Que doido vê graça na própria desgraça? Nós, humanos grandões, aprendemos a jogar soda cáustica pros lados – inclusive pra dentro – quando uma rasteira nos obriga a lamber pó. Aprendemos, ou desaprendemos? Será que minha filha veio com defeito masoquista deliciando-se nos momentos inglórios? Ou nós que amadurecemos defeituosamente hiper valorizando a irrelevância do chão?

Penso que a sabedoria das crianças esfoladas junto da gente revela nossa incompetência em sermos sábios junto delas. Afinal, o sábio aprende olhando pra frente, ao invés de paralisar olhando pra baixo. Fomos feitos pra ir avante, não pra sucumbir na derrota. O problema é cultuarmos as partes esfoladas como troféus da autocomiseração pessoal. Gastamos tempo demais dentro da fossa e tempo de menos vasculhando a saída. Cair – nascemos pra cair! Mas criança aprende a andar só porque seu coração é maior que o corpo, e a vontade, uma força maior que o medo.

Outro dia, alguém procurou Alguém: “Mestre, que faço pra ser feliz?” Era um adulto cansado de cair. Enquanto o luar ascendia um holofote sobre aquele esfolado, a divindade revestia a humanidade pra ensinar a maior lição: “Em verdade te digo que se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” (João 3:3). Nascer de novo? Ou é uma piada de mau gosto contada à meia-noite, ou a extravagante ordem divina trazendo ao coração o amanhecer de volta. Por quê? É ilógico voltar ao ventre, mas possível zerar a dívida com o chão. O Sábio desconcertou o erudito fazendo-o repensar o impensável: nascer de novo é levantar dos tropeços indo adiante. O segredo é focar a reação do Pai – como minha filha, que depende do “tudo bem, querida, vá em frente, amo você!

Se crêssemos mais no perdão nos importaríamos menos com o canto esfolado.“Se confessarmos nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar de toda injustiça” (1 João 1:9). Deus é especialista em aliviar nossas derrotas, e a reação do Pai orienta a tranquilidade do filho (ou da filha, no meu caso). Fiz a macabra experiência uma vez: um dia, após ela cair, fingi me assustar apavorando-me impaciente. O que ela fez? Não levantou e, colada no piso beijado, fez o biquinho mais constrangido da humanidade. A seguir, chorou feito corneta de carro de pamonha – alto, irritante e infindável. Ela continuará assim: só levantará se eu aprovar animado. Nós seremos sempre assim: superando tudo diante do Criador que perdoa – um perdão entusiasmado com a promessa de paz e a garantia do total esquecimento.

Você se esfolou bastante? Procura um pedaço de chão cativo depois de tanto frequentá-lo? Quer saber? Está na hora de aprender com os aprendizes: depois de cair, acreditar na torcida do pai, deixar o assoalho pra lá e seguir confiante na direção do Céu. Cicatrizes continuam, mas dar domínio a elas é assumir vocação pra derrota. Você não precisa disso, nem eu, nem minha filha.

Da próxima vez que a queda lhe grudar no solo, faça que nem ela:

1. Reconheça a queda. Quanto mais cedo encarar o erro, menos tempo você perderá pra se recompor. Não tema ver-se rapidamente espatifado – será um curto momento de aceitação antes da cura. Crianças, quando caem, giram 360° observando ao redor pra entender o que aconteceu. Que tal parar um instante também? Assuma.

2. Olhe a torcida. O olhar dos pais é mágico. Minha filha até esquece a dor quando enxerga minha torcida. Sei que certos pais não são um exemplo de incentivo a filhos crescidos esfolados, mas, e Deus? Não estaria Ele zilhões de vezes mais encantado com Seus filhos criados à Sua imagem? Acredite! Olhe o Céu pela fé e surpreenda-se com a torcida celestial por você. O Pai estará sempre sorrindo.

3. Menospreze o nível baixo. A mente humana sempre alcança o nível das coisas que observa. É assustador! Olhe demais pro chão e jamais se libertará dele. “Busque as coisas lá do alto” (Colossenses 3:1). Minha filha é cômica: literalmente, ela esnoba o azulejo do piso com tremendo descaso pro que lhe derrubou – e nem quer saber! Ordem divina deve ser levada a sério. Quanto da vida você desperdiça admirando poeira? Chega de inflar o ego das porcarias desprezíveis! Se não tem valor, não pode receber valor. Alguém lhe roubou a paz? Hora de arrancar seu nome da galeria de ilustres de sua memória. Deixa pra lá. Deixa pra lá!!!

4. Força pra levantar! Resignação é insistir até vencer. Seja resignado! Não compactue com a preguiça de mudar de galho. Levantar-se é dar a volta por cima – mesmo que insistam em lhe puxar pra baixo. Não desista no primeiro obstáculo – nem no vigésimo. Uma criança gira, se contorce, rola sobre a fralda, agarra um pé da cadeira, dá cambalhota, e muito mais. Mas, sempre encontra um jeito de se erguer. Sempre! Perseverança não é conseguir na primeira tentativa, quer dizer rechaçar a tentação do “não dá!” Dá, sim! Levante e prove que o chão não é mais forte. Outros aplaudirão.

5. Livre-se do retrovisor. É impossível prosseguir com a cabeça sempre regredindo. Extermine a marcha-ré. Fuja da retro-visão que lhe mantém refém da queda dentro da memória. Toda vez que você voltar o olhar desanimará sua auto-estima. Pra quê reforçar um momento negativo? Que masoquismo é este em prender-se atolado ao que não presta? (Leia “Esvazie a Lixeira” na sessão “eu.mesmo” deste blog.)

6. Siga em frente. Não sei se é defeito de fábrica ou limitação muscular, mas minha filha não olha pra trás. Nunca! Ela sai desenfreada, engatando a quinta marcha, toda vez que levanta de um tombo – e sempre pra frente. Ela está certa. Avançar é condição pra conseguir. Se querer é uma coisa e conquistar é outra, para uni-las só indo adiante.

7. Aprenda com a banguela. Finalmente, crescer é o resultado de aprender. Enquanto assisto aos janelões na sua boca se fechando rapidamente com dentes novinhos, percebo o inevitável: ela está crescendo. Penso quantas lições diárias seu HD-mental recebe com downloads das experiências vividas. Nós também! Cada queda é um convite urgente ao aprendizado. Uma vez visitado o rodapé de perto, aprenda com ele – sem se envergonhar por mais uma aula da vida.

Siga estas sete etapas infantis e você cairá menos, levantando mais. Minha filha acaba de se espatifar novamente sobre um cubo amarelo de Lego. Não está nem aí! Com seu andar desengonçado rebolando numa fralda imensa, suas coxas gordas já sumiram pro outro quarto. Logo ela vai se estabacar de novo e, como deveríamos fazer, levantará na direção certa. Afinal, sua bússola aponta sempre pra frente – independente se é norte ou sul. Quer saber? Chega de ser gente-coruja de asa imobilizada no assoalho. Cair é uma coisa – gostar do chão já é completamente outra. Cuide com isso.

E daí, se o tombo esfolou um pouco? Que venha o próximo.

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