Morri.

set 2, 2010 by

Morri.

“A única dor pior do que doer na gente é quando doi somente em quem mais amamos”

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MORRI. Acabei de morrer com o coração batendo. Achei que tinha experimentado sentimentos fortes, mas nada se comparou a isto, até agora. Se o “tempo é relativo”, quando vemos quem amamos sofrer, a espera é absoluta: implacavelmente eterna. Ao atender minha esposa pra ser cúmplice deste ato cruel, jamais pensei que viveria o inesquecível – ou melhor, morreria. E se “homem não chora”, continuo super-homem, mas chorei dissolvendo o que de chumbo havia em mim.

Momentos atrás, levei minha filha-de-pelúcia, de 1 ano e 2 meses, pra fazer um hemograma. Como acompanhara uma vacina (leia “O Melhor Pai do Mundo”, aqui no blog!), fiquei iludido que estava preparado. Trágico engano. Quando vi a mãe chorando, antes mesmo de entrar na sala de coleta, senti um calafrio desvestindo minha fortaleza. A covardia bateu à porta. Respirei fundo, e agarrei forte a criaturinha que roubou de mim a paixão no sentido mais devoto. Entrei ressabiado.

Eu não sabia! Não sabia que precisariam 3 enfermeiras (acho que uma era pra filha e as outras duas estavam de plantão pra segurar o pai!), não sabia que encheriam 4 ampolas a vácuo, não sabia que a agulha entraria tão fundo, não sabia que seu choro seria tão desesperado. Debrucei-me em seu corpo indefeso de presa lutando contra o inevitável. Seus olhos imobilizados, suplicando o impossível, arrepiaram minha alma. O grito veio enquanto a agulha ia. Só consegui sussurrar o irrelevante: “calma, filhinha, já vai passar!” Passar nada. Ainda faltavam outros 3 tubos.

Não consegui – juro que tentei, mas não deu! Perante as 3 algozes de branco, surpresas com a força da filha e a fraqueza do pai, meus olhos imitaram os dela – só que gritando de boca fechada, e soluçando por dentro. “Ainda falta muito?”, a voz embargada buscava alento. “Mais um pouco, pai!”, foi a resposta repulsiva. Minha filha petrificada berrava por socorro. Minhas gotas de suor brotaram junto às lágrimas rolando sobre ela. “Vai logo, droga!” Seu bracinho espetado, pela segunda vez, revelava a impaciência infantil escondendo a veia. Foi quando beijei seu rosto. Um beijo que ela nunca vai lembrar, mas era tudo que eu podia fazer pra expressar carinho no momento brutal. Não vi mais a última ampola. Fechei meus olhos grudando as duas testas enrijecidas pela dor. E fui carregado pra longe, muito longe, dentro do mais profundo amor já sentido em minha vida – capaz de tornar a agulha no braço dela uma adaga encravada no meu coração. Perdido no tempo, só retornei ao sentir o toque médico no ombro, encerrando o martírio, “pronto, pai, acabou!”. Não vi mais nada, nem ninguém – arranquei-a dali afobado, pra deparar-me com a mãe, encostada junto à porta, cujo olhar desmoronava na idêntica sensação de culpa. Abraçamo-nos os três de maneira tão forte que ninguém ousou intervir. Apenas choramos – juntos.

Quem ama sofre. E o amor age pra preservar a vida. Mas, quando o amor, a dor e a vida se misturam num mesmo momento a coisa toda fica absurdamente contraditória. Se eu amo, por que fiz isso? Exatamente porque amo. Estranho, não é? Só que hoje atravessei a fronteira das palavras para adentrar o território do inexplicável. Tem um sentimento indescritível capaz de matar a gente por dentro – matar de pena, matar de saudade. Nunca tinha percebido que a única dor pior do que doer na gente é quando doi somente em quem mais amamos. Esta dor enlouquece, asfixia e, o pior, não mata. Mas não significa que não morremos – a morte por dentro de quem faria tudo pra substituir o impossível. E eu faria o impensável pra que não fosse ela. Pra que não fosse nela.

Confesso que sempre fui meio cético para atos heroicos de substituição redentora. Escolher sofrer no lugar do outro? Épico. Mas, minhas 3 décadas de pura curtição da vida aliaram-se aos 7 anos de um casamento intensamente aventureiro. Fomos criados pra experimentar o sabor da felicidade e isso não admite espaço para pretensões masoquistas. Até, de repente, eu me ver colapsado com um desejo irracional de proteção por uma criatura que me abençoou com ares de criador. Minha filha é uma extensão de mim, derivada de mim e refletida de mim. Este sentimento de co-criação é absurdamente grandioso. Surge, então, o “tal amor” que chega a doer. Supremo.

Em certo instante da eternidade o Dono do Universo surpreendeu: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gênesis 1:26). E de lá pra cá tudo mudou pra sempre. Deus expressou de maneira prática a essência absoluta da sua divindade: o amor. Quebrando as regras de todas as eras, o Todo Poderoso morreu como Filho doendo alucinadamente como Pai. Só hoje, e antes jamais, eu pude antever uma minúscula fração do que foi aquele grito estremecendo os fundamentos do cosmos: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mateus 27:46). Naquele exato momento, rompia-se a possibilidade do Pai ocupar o suplício do Filho, mas escancarava-se diante de nós a redenção da miserável morte merecida pela vida eterna recebida de graça. Ganhamos a permissão de voltar ao Céu pelo Deus que morreu por dentro assistindo seu Unigênito também morrendo por fora. Isto é incrível! É tudo.

Toda vez que sofremos aos pedaços por aqui Alguém também morre por inteiro lá. Acha que Ele não se importa com você? Hoje tenho autoridade prática pra lhe garantir: filhos jamais sofrerão sem que os pais sofram de carona. Se um sente a dor da espetada, o outro sofre ainda mais por não sentir a agulhada. Cada vez que você chora deste lado, dispara um pesar em Quem também chora do outro lado. Entre Céus e Terra a fumaça do pecado machucou ambos, mas também descortinou o absurdo amor de cada um. E o ser humano gasta a vida tentando amar, apenas para um dia descobrir, cedo ou tarde, que já era amado antes mesmo de existir. Toda vez que nos ferimos às lágrimas, Alguém nos envolve forte chorando também. E a dor é maior nEle. Certamente.

Deixa eu abrir, cuidadosamente, a gaveta dos segredos humanos? Quem sabe você fuja de reconhecer sua vida disfarçada – sorrindo por fora na proporção da desorientação por dentro. Provavelmente busque no espelho o reflexo vaidoso do que não parece arrumado no corpo.  Talvez sua cama, cheia de gente, não aplaque a triste realidade de um coração vazio. Não poucas vezes, os grandes poderosos são altamente carentes da paz de algo mais. E sua família, só é linda no retrato da sala de visitas confrontada ao silencio das refeições na sala de jantar?  Todos, sem exceção, temos nossos próprios “hemogramas”. Desconversamos, desviamos o assunto e lacramos os porões da alma, mas eles ficam lá – incomodando, latejando e fazendo chorar. Se você é como eu, fica ainda mais difícil sair berrando como minha filha, então, defensivamente, nos profissionalizamos na escravidão dos papeis encenados: atuando feito atores e blindando-nos anti qualquer indício de desmoronamento emocional.

Você não precisa disso. Pra quê relutar em descartar a solidão que simplesmente não procede? Não temos o direito de ignorar a paixão de um Pai agarrado ao filho sofrendo tanto quanto. Acredite, podemos sofrer por tirarem nosso sangue, mas não pereceremos nos braços de Quem já deu todo sangue que tinha. Creio nas minhas lágrimas enxugadas. Sobrevivo no abraço do Pai que ama. Confio que tudo passará. E, se as coisas piorarem pra valer, olharei pra cima tentando ver que Ele sofre também. Ah! Se eu entendesse, estou certo que ouviria: “calma, filho, já vai passar!” Por isso, você tem que seguir em frente. “No mundo passais por aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo” (João 16:33). Quer saber? Uma agulhada no braço não é comparável aos pregos encravados nos punhos. Diante disso, será que dá pra agüentar só mais um pouco ?!

Termino vendo um ser inquieto roçando minha perna. Foi um dia exaustivo e heroico para ambos. Seus bracinhos gordos têm um esparadrapo de cada lado. Ela já esqueceu – até o próximo exame. E quem sabe um dia vá entender o que passei hoje, quando também morrer de amor por alguém que, provavelmente, não entenderá do mesmo jeito. E assim seguiremos nós: sofrendo e amando, chorando por fora e morrendo por dentro. Até quando, finalmente, daremos lá no Céu aquele outro abraço tão forte que ninguém ousará intervir. Pois estaremos juntos, protegidos, com o Pai, e também chorando.

Só que de felicidade.

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