Não Leia!

abr 18, 2011 by

Não Leia!

“Pessoas são o bem mais precioso de tudo aquilo que temos”

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ATENÇÃO! Se você não costuma sentir saudades, vai por mim: procure outro canto e pare de ler isso aqui. Este texto não é pra gente como você!

Agora, se seu coração, vez por outra, sente aquela fome estranha satisfeita somente ao rever quem alimenta sua vida com amor, siga em frente comigo. Pois fiquei 15 dias fora de casa e não aguento mais tanta vontade de voltar pra quem torna meu viver uma aventura maravilhosa. Este desejo subjuga minha razão a serviço da emoção. E que única palavra é capaz de resumir isso tudo? SAUDADE.

Vem cá, quando foi a última vez que ela lhe envolveu de verdade? Aquela saudade silenciosa que aperta sem mãos, e dói mesmo sem ferir? Confesso que não é fácil pro homem de hoje, revestido do verniz profissional-batalhador, reconhecer esta sensação. Até porque sentimento não é calculável, muito menos previsível, e isso nos assusta feito ameaça nuclear.

A questão é que desde quando “a paternidade não bateu na porta, mas dissolveu por completo minhas paredes”, tenho lidado com emoções bem distintas: viajo com vontade de voltar, falo bastante fazendo tudo pra escutar um serzinho, conheço lugares querendo retornar com outra companhia, fico em hotéis sentindo falta das fraldas pelo chão… Vai me dizer se não é estranho? Homenzão com fotinho 3X4 na carteira? Chefe sendo mandado por um metro de gente? O telefonema mais importante ter grunhidos ao invés dos resultados de metas? Isso aí! Viajar virou um impaciente espaço separando meu mundo encantado em dois momentos: passado embalado de lembranças e futuro aguardando o retorno.

A saudade, pra mim, é uma evidência de que a memória humana age sustentada pelas emoções dos relacionamentos. Podemos ser frios, calculistas, binários, negociantes e imparciais, no entanto, ficar longe de quem aprendemos amar é levar uma rasteira capaz de neutralizar todo o resto. Pra mim, quanto mais o tempo passa longe de quem amo, menos completo eu me sinto vendo-me aquém da felicidade um dia experimentada. E alguém deveria tentar tolamente ignorar este alerta de que tem gente esperando pela gente? De como fomos feitos cúmplices pra vencer o isolamento? Acredito na falta presencial que me propulsiona ansiar voltar logo pra casa. E minha filha é a prova soberba da verdade infalível: pessoas são o bem mais precioso de tudo aquilo que temos.

O problema existencial da vida humana é que bagunçamos tudo isso. Passamos a supervalorizar as conquistas menosprezando os conquistados. Tem homem gastando mais tempo preocupado com sua posição na companhia do que com aqueles que lhe farão a verdadeira companhia na aposentadoria. Infelizmente, alguns se especializam na arte consumista de “correr atrás do vento” e largam de lado o privilégio “da brisa batendo na face” de mãos dadas com alguém. Viajam for business pra ganhar mais, no entanto, se não cuidar, gastam mais depois no buraco emocional que a distância só piora. E isso é um alerta, ok? Não uma sentença de morte. Eu também viajo, mas, ao voltar pros braços que mais amo, confirmo o quanto tenho minhas âncoras bem firmadas noutros dois corações: minha esposa e filha.

Pra quê querer mais? (Só se for pra aumentar a prole!) No entanto, não poucas vezes me distraio daquilo que move a essência humana: tudo o que fazemos, compramos e sonhamos sempre inclui pessoas junto – ou pra ficar junto. E enquanto voo à caminho do meu ninho reconheço quanto tempo já perdi com coisas pequenas, discussões tolas e mesquinhez covarde. E tolices de outros desfilam por aí:

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- Ser o tipo de gente que vira bicho se não der a última palavra;

- Dizer NÃO pra tudo e todos só pra mostrar “quem manda no barraco”;

- Entrar em colapso se receber alguma crítica;

- Tornar-se implacável exatamente com aqueles que lhe amam cheios de misericórdia;

- Ver no perdão um gesto de fraqueza e no esquecimento uma síndrome de burrice;

- Não ter mais tempo pra ouvir quem um dia sussurrou no seu pé do seu ouvido;

- Ler isso aqui na defensiva, dizendo: “que bom que nunca fui nem serei assim!

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(… tempo pra pensar…  …)

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Ah! E o que dizer do “estilo manda-chuva” que transforma a vida dos que lhe rodeiam numa tempestade? Aquele cuja autoridade só lhe torna mais cego e desumano? Não se engane: todo ditador é um medroso enrustido. Chega a ser patético ver um megalomaníaco pisando em quem pode lhe encarar à mesma altura. Liderar pessoas é uma coisa, vociferar numa trincheira de robôs é outra – e existe só até uma força maior silenciar a repressão. É uma lei: quem teme a própria sombra com insegurança um dia será devorado ferozmente pela falta indomável ao ter afastado todos de perto.

Eu escolho a saudade domesticada. Mesmo “aos trancos e barrancos” de minha personalidade eternamente aprendiz, vejo a importância ilimitada de me arriscar nas alturas imprevisíveis do amor – e daqueles que me amam. Esta saudade pura é absurdamente oposta à saudade pelo medo. E quer saber? Eu já me re-matriculei inúmeras vezes na alfabetização dos relacionamentos construtivos. Repito de lição como minha filha não consegue comer sem esparramar arroz pelo chão. Mas sigo em frente vendo que pelas estradas ilógicas dos amantes “quem só ganha, às vezes, perde; e quem perde, muitas vezes, ganha.”

Neste momento de melancolia também me lembro da promessa de um Outro Saudoso: “e quando eu for (…) voltarei e vos levarei para mim mesmo – pra que onde Eu estiver estejais vós também” (João 14:3). Absurdamente impensável e sobrenaturalmente irreversível! Entendeu bem? Deus também sente saudade da gente. Seu amor apaixonado por Suas criaturinhas é tão incrível quanto o preço pago ali na Cruz pra encurtar, de uma vez por todas, a enorme distância do pecado. É maravilhoso! Isso é lindo demais, e ficou ainda mais real depois de eu ver pelo Skype a minha coisinha fofa numa webcam, dizendo: “papáái, óólta!” Eu sei que ela repete as palavras ditadas por outra “dona do meu mundo” cujo colo onde está lhe serviu pra amamentar tantas vezes. Ambas compõem a imagem quase perfeita – em primeiro plano, uma que ainda nem sabe do que o amor é capaz de gerar. E no plano logo atrás, um pouco mais desfocada, aquela que consegue mostrar pra mim o quanto sou incompleto sozinho.

Esta imagem um dia será perfeita? Sem dúvida, e logo! Será mais um momento pleno da minha vida – e bom demais! – quando meus braços, finalmente ali, envolverem por detrás as duas ao mesmo tempo. Vou congelar a imagem, de olhos bem fechados, apertar forte tudo o que tenho de mais importante pra mim. E reconhecerei ser mais um daqueles recados abençoados do Pai do Céu de que a minha saudade satisfeita é um mero prenúncio daquela outra saudade, ainda maior, a ser satisfeita por Ele – em toda a eternidade.

E muito logo!

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