O Elevador Espelhado

jul 27, 2010 by

O Elevador Espelhado

“Você não é a única pessoa sentindo-se a bruxa dos contos de fada – não se iluda com aqueles que iludem”

.

Somos todos escravos do nosso maior inimigo. As mulheres um pouco mais (perdoem-me!). Ele fica lá, às vezes escondido, mas sempre caçoando de nós. É um zombador incontrolável da nossa cara de palhaço. (Sem ofensas, você entenderá…) Ele não fala, nem age, apenas escancara suas gargalhadas sinistras com a nossa história acelerando rápida. Evitamos sempre que podemos. Gostaríamos de fugir dele como um gato foge da água, mas não podemos viver sem ele – nosso rival dos futuros inglórios. E ele sempre ganha, infelizmente. Até o próximo escravo chegar perto, com seu nariz de bola vermelha, e sair zombado também.

Quem é este vilão do mundo das trevas, apesar de só funcionar com a luz?

Apresento-lhe o algoz dos grandes pesadelos de sonhadores acordados.

O espelho.

Quem nunca saiu da sua frente pior do que entrou? As mulheres idealizam “coroas de miss”, mas ele desveste as miragens na triste realidade: com o tempo passando, você perde o “miss e fica só com o “coroa”. É a idade chegando.

Meu irmão é um médico-cirurgião muito inteligente. Como você vê, ele me puxou nas boas qualidades (apesar de ter nascido 2 anos… antes!). Já passou mais de uma década em corredores esterelizados e centros cirúrgicos estressantes. Certa vez me confessou: “Se as pessoas fossem mais felizes consigo mesmas, teríamos muitos médicos desempregados por aí”. E é verdade. Não poucas vezes, o bisturi à laser é a conseqüência a médio-prazo de doenças psicossomáticas fervendo em fogo brando no coração por décadas. Já viu um vulcão? A catástrofe explodindo nada mais é do que a culminância descontrolada da lava viva sob uma crosta de pedra. Como muitos de nós, que desfilamos com sorrisos envernizados trancando a sete chaves um sentimento doído de uma beleza que se foi – ou nunca veio.

Ninguém gosta de se sentir feio. Pior ainda quando os outros também notam isso.

E o espelho continua lá: mostrando cabelos brancos com inúmeras histórias para contar; revelando rugas que emolduram olhares de princesas sem reino; motivando cortar, enxertar e agulhar traços físicos das faces frustradas; obrigando pessoas comuns fazerem caretas circenses para não se verem feias do jeito que são (confesso que eu faço isso sempre que fico sozinho com ele!). Ah, se pudéssemos sobrepor àquela imagem no vidro a beleza ideal dos artistas de capa por aí! “Eu seria feliz e invencível”, desculpam-se os proprietários cativos das contracapas dos catálogos dos feios.

Sabia que existe um mercado indestrutível em nosso mundo consumista? Se você respondeu “remédios”, errou! “Transportes”? Mirou longe. “Setor imobiliário norte-americano”? Não brinca comigo… Nada disso! Para este maravilhoso nicho empresarial, a preocupação com as ações na bolsa é só pra conferir se ela, de couro, combina ou não com as cores do batom e sombra dos olhos. Já descobriu? Ainda não?

Estou falando do lucrativo setor dos cosméticos. Nada por aí – quando digo nada é nada mesmo! – vende tanto quanto qualquer coisa que prometa deixar alguém mais bonito, concorda comigo? Estes dias, numa loja de grife, em um aeroporto internacional, vi na vitrine um creme que custava quatro mil euros. (A vendedora tentava me convencer do preço por se tratarem de lascas de ouro mergulhadas em ovas espremidas de caviar belga. Quase comprei!)

Lembro-me das primeiras aulas de Criação Publicitária que tive na universidade, lá em Curitiba. Meu professor foi profético: “quando quiser vender qualquer coisa para alguém prometa uma sensação de beleza e bem-estar”. Ele estava certo. Ou você já viu por aí, comercial de pneus com garotas-propaganda exibindo alguns na sua cintura? Hoje em dia, até pra vender cimento, caixa de fósforos ou coleira de cachorro tem gente bonita com seus sorrisos incandescentes. (Ok, existe uma única exceção na publicidade brasileira, a palha de aço. Eu sei que você compra Bombril mais por misericórdia da propaganda do que por admiração do seu personagem principal. Aquele mesmo tão magro e sorridente que mais parece um varal vazio com dentes brancos pendurados.) Mas, eu garanto, todo o resto do marketing de produtos se alicerça na premissa básica de que “todo mundo quer ser mais bonito do que é”. E lá se vão os suados reais.

As coisas ficaram assim desde o Jardim do Éden. A partir de lá, não admitimos a expulsão da passarela celestial e ficamos conferindo, incansáveis, se estamos mais iguais aos nossos primeiros pais-modelos: Adão e Eva. Eles eram lindos, à imagem de Deus e esculpidos por Ele com barro e costelas. “Nós também merecemos isto”, reivindicamos. Para tanto, construímos muros de espelhos em volta de nós – para checar a todo instante a satisfação da faminta vaidade que nos domina.

Imagine um elevador-cubículo que, minúsculo, não permite nem que você abra os braços. Mas, revista-o completamente de espelhos de reflexos perfeitos: nos lados, acima, embaixo e nas portas. O que acontece? Além da tontura asfixiante, você vê imagens que se perdem no infinito. O espaço parece uma galáxia e, o melhor de tudo, só mostrando você mesmo. Empurramos nosso cotidiano olhando cara-cara para nossos reflexos.  Construímos elevadores espelhados buscando subir na vida sempre melhorando aquilo que vemos (e quem não foi a criança que ficava tentando virar rápido entre dois espelhos para ver se conseguia se ver por trás ?!).

Lembra de Saul? Os estudiosos dizem que ele era “tão belo que entre os filhos de Israel não havia outro mais belo do que ele”. Isso significa que ele era o tipo de homem que quando andava no centro de Jerusalém fazia a mulherada flutuar. Pense nas pretendentes mordendo os lábios enquanto ele passava… Seu porte fotográfico extraía suspiros femininos nada discretos, e obrigava os rivais correrem para seus elevadores checarem no reflexo o que lhes faltava. Este era Saul. “Desde os ombros para cima sobressaía a todo o povo” (1 Sm 9:2). Beleza assim ganhou o concurso – Saul virou rei. Imagino sua imagem oficial, como uma foto-pôster, grudada em paredes, guarda-roupas e atrás das portas de inúmeras fãs por todo Israel. Ele era o que o povo queria, o que os súditos almejavam. Saul: o sonho projetado da auto-imagem sonhada por todos os seres humanos.

Deus deixou o balão de ar da ilusão coletiva encher-se de tietagem e autógrafos. A beleza aparente faz isso: incha a borracha ocupando grandes espaços, embora inexista qualquer consistência por dentro. E todos parecem satisfeitos. Afinal, a ciranda dos elevadores espelhados dita a dança das grandes massas.

Mas o tempo passou e o País das Maravilhas se quebrou diante de tantas Alices. Com os anos implacáveis, o isopor de dentro extravasou por todos os lados – caía o revestimento real revelando que tudo não passava de cenário de televisão. Saul se mostrou inseguro, lunático, invejoso, avarento e independente dAquele que lhe dotou de uma embalagem avantajada. O ocaso de sua vida real foi uma mistura de vexame com neurose. Resultado disso? Feiura total! A beleza dele se foi – afinal, ninguém acha bonito alguém maluco ameaçado pela própria sombra. É sempre assim.

Surge, então, a sucessão real. Depois de uma escolha errada, o substituto tem que compensar. Mas agora os critérios não são mais humanos, são divinos: “Não atentes para a sua aparência, nem para a sua altura, porque o Senhor não vê como vê o homem. O homem vê o exterior, porém o Senhor, o coração” (1 Sm 16:7). O profeta foi direto ao ponto, como um lançador de facas: “vocês se dopam com a pele de fora, mas Deus percebe a carne pulsante de dentro”.

A escolha de Davi foi a “zebra” máxima de uma Copa do Mundo. Já imaginou a seleção do Azerbaijão dando seis a zero pra cima da Itália? (obviamente, eu não exporia o Brasil nesta ilustração…) Foi o que aconteceu. Os irmãos de Davi eram sucessores imediatos de Saul, mas desta vez o “Olheiro Divino” espiou na direção de um modelo diferente para Sua agência. “O primeiro eu fiz à maneira de vocês, agora vocês farão à minha maneira”, Deus alertou o povo.

Davi e Saul. Dois elevadores espelhados com reflexos diferentes. Enquanto um refletia a sensualidade masculina, o outro tinha que deixar o elevador meio aberto para escapar o cheiro do pasto. Um desfilava, o outro apascentava. Um falava bonito encantando as súditas, o outro compunha salmos na presença de uma platéia de quatro patas. Ilógico, não acha? Deus responde: “perfeito para Mim”.

Confesso que me animo mais quando vejo um Davi “três por quatro”, preferido por Deus, que seus irmãos “cartões-postais”. Enquadro-me mais no elevador de Davi que no de Saul. Talvez você também. Já se sentiu envergonhado e frustrado com sua imagem? E aquela sensação de, mesmo com roupa nova, parecer vestir uma perfeita combinação de gravata de bolinhas, camisa xadrez e calça listrada na alma? Estes dias uma jovem desabafou pra mim: “acho que quando Deus me criou, pegou o molde quebrado”. E os espelhos continuam colocando nariz vermelho em nossa cara.

Você não é a única pessoa sentindo-se a bruxa dos contos de fada. Você não está sozinho quando busca um lugar neste mercado competitivo dos Sauls modernos. Existem muitos escravos da beleza buscando ofuscar com a imagem o reboco vazio de quem também não gosta de si mesmo. Não se iluda com aqueles que iludem.

Além disso, não esqueça: não é pecado ser bonito – nem pensar! Também não está errado investir no bom gosto para tornar sua “fachada” mais atraente. O problema essencial de tudo isso é o perigosíssimo fato de você achar que a beleza é mais importante do que a herança. E você já tem um lugar cativo no reino do Pai do Céu. É de lá que vem o documento real, autenticado pela Cruz, provando para o universo quem é o herdeiro da beleza de Cristo. E a Bíblia confirma: “se somos filhos, somos também herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo” (Rm 8:17).

Quando Ele quebrou todas as regras, colocando no trono o ruivinho caçula cheirando a ovelhas, comprovou que ser herdeiro de Deus é melhor do que vencer o concurso das beldades. Saul não foi o que o povo esperava. Davi também não foi perfeito. Mas no final da passarela de cada um foi fácil avaliar quem realmente se deu bem. De um lado um “formoso enlouquecido”, do outro “um jovem segundo o coração de Deus”.

Lembre-se que o mais relevante da vida não é o reflexo infinito no cubículo espelhado ao seu redor. O importante de tudo é checar, agora mesmo, se o seu elevador está subindo, ou descendo. Do fundo do meu coração, prefiro mil vezes perder um concurso de beleza por aqui, mas confirmar minha subida eterna lá pra cima. Ou você ainda está naquela de achar um bom negócio descer “toda bonitona” diretamente para o subsolo? “Pelo contrário, mesmo que o nosso homem exterior se corrompa, contudo o nosso homem interior se renova de dia em dia” (2 Co 4:16) Amo esse texto porque ele projeta o elevador do cristão para as alturas.

Finalmente, use o espelho, sim, para arrumar o cabelo e ajeitar sua embalagem (pessoas cruzando seu caminho agradecerão!). Mas jamais se iluda em dar a ele poderes sobrenaturais para controlar sua auto-estima. Porque se você for herói o bastante para colocar o Reino do Céu em primeiro lugar, vai vencer qualquer inimigo de vidro que fique no seu caminho.

E sabe o que é melhor? Um vilão assim tem que ter um ponto fraco mortal. E o espelho tem. Na verdade, sempre teve.

É só apagar a luz. Com Jesus.

.

Related Posts

Share This