Saída de Emergência

nov 26, 2010 by

Saída de Emergência

Quando as coisas fogem do controle, esperar Quem sabe é sempre melhor do que fugir com quem não sabe.”

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4:14 AM.

E cá estou eu, sonhando em dormir com os olhos bem abertos. Se as minhas pálpebras ardem, a mente viaja: já viu como a coisa mais incrível da paternidade é a capacidade inexplicável de sobrevivermos a limites cada vez mais prolongados? Somos como um elástico prestes a arrebentar, mas sempre conseguindo esticar um pouquinho mais. Juro que não sabia, nem sequer imaginava o potencial de resistência encubado num macho-humano que, surpreendentemente, aflora quando ele embala seu bebê. Ser pai é a metamorfose da superação – só que ao invés da borboleta surgindo da crisálida, o que desponta mesmo é a força intangível de prosseguir adiante.

Enquanto ouço o coral de grilos sob a batuta da lua, além de ser platéia única deste concerto do alvorecer, um silêncio diferente invade meu coração. O dia não foi fácil. As últimas noites ainda piores. Ultimamente tem sido assim – o elástico puxa cada vez mais, e meus músculos suportam o tranco de maneira inédita. Até quando? Sei lá! Pra quê se preocupar aqui com aquilo que não preocupa o meu Deus do Céu lá?

Descansa no Senhor e espera nEle” (Salmos 37: 7). Curto e imenso. Adoro como o Criador não dá voltas em Jericó se o assunto é acalmar a tempestade da angústia. Admiro a teologia que nos leva a sobrevoos mentais de grandes complexidades. Só que quando estou com minha alma espremida dentro de um corpo exausto quero apenas uma frase Onipotente tão simples como banana amassada num pratinho do Ursinho Puff.

Não sei você, nem se isso é pra você, mas meus últimos dias têm sido uma apoteose de lutas incríveis. Se a pressão de todos os lados fosse um show, este seria aquele momento de tirar o fôlego cujos fogos de artifício explodem sobre a cabeça e o estrondo musical arrebenta os ouvidos. Tentei ser otimista na tragédia, porque estou mais para uma cadeira de dentista com brocas insuportáveis de todos os lados preso dentro de uma turbina de avião – ligada! Já sentiu isso? Se você tem filhos, sabe do que estou falando. De repente, sem qualquer placa de aviso, a direção da brisa inverte e o tufão lhe engole rodopiando seu corpo no olho do furacão. Às vezes cansa sem canto pra se apoiar, e aperta sem gravata pra afrouxar, restando momentos assim: quando a paz ali da janela pra fora vira uma incômoda ironia contra a guerra de nervos aqui por dentro.

Espera no Senhor” (Salmos 37:34). Curto e absurdo. “Como posso ainda ‘esperar’ se a coisa que mais quero é algo bom ‘esperando’ por mim?”, pensamos num surto de ingratidão compreensível. E Deus não se irrita – nem pune – quando lutamos feito Jacós em nossos Vales do Jaboque que ninguém entende. Ele também não fulmina se nos acuamos nas cavernas do desânimo logo após arrancar fogo dos Céus nos Montes Carmelo. Mas, apenas sussurra na brisa com um leve toque em nossa coxa pra lembrar-nos da Saída de Emergência: quando as coisas fogem do controle, esperar Quem sabe é sempre melhor do que fugir com quem não sabe.

O mundo nos envolve num panelão abarrotado de alternativas vazias parecendo pratos cheios. Tem gente que corre dos outros, alguns correm contra os outros e ainda tem aqueles que correm de si mesmos. Fugindo das pessoas, nos isolamos encasulados num orgulho inseguro; agredindo os outros nos iludimos com o sabor traiçoeiro de viver passando todos pra trás; e alienados de quem somos quebramos os espelhos tentando, em vão, escapar do buraco da baixa auto-estima pra despencar na cratera da irrelevância. Como resultado compramos coisas sem curtir, trabalhamos sem desfrutar, conhecemos pessoas sem fotografar, fazemos amor sem expressar, e acabamos endividados até pedir concordata da própria satisfação. Vem cá, e tudo isso só por que as coisas apertaram?

O Senhor firma os passos do homem bom” (Salmos 37:23). Curto e promissor. Este, pra mim, é o capítulo bíblico embrulhando o colete salva-vidas (ou à prova de balas, se é um tiroteio!). Tenho me agarrado a ele como minha filha quando – chorando sem parar, mas sem sequer acordar – grudava em meu pescoço, minutos atrás, até dormir um pouco mais. Para ela, sou seu muro de lamentações; e para mim, Deus é meu abrigo contra terremoto. Sempre que vou a algum país onde a terra treme, já entro em qualquer lugar buscando o aviso de alívio: “rota de fuga em caso de abalo sísmico”. Ôpa, eu até espero mais na fila, mas é ali mesmo, perto daquela viga, que vou sentar pra jantar! E o Dono do Universo é muito mais do que isso. Ele segura tempestades com uma assoprada e tapa vulcões com seu dedo mindinho. Então, espere aí, por que ficamos de pernas bambas quando puxam o tapete de baixo? Se eu faço meu melhor, estou de consciência tranquila e acredito em Alguém mais (do que estes últimos dias de menos), já não é hora de exigir de Deus o que Deus é?!

Acredite, é possível pisar no chão movediço nos braços dAquele que andou sobre as águas. Levante a cabeça, respire fundo, conte até 11 (pra ser diferente!) e deixe-se levar pelo abraço contagiante do que vem a seguir: “mas os que esperam no Senhor possuirão a terra” (Salmos 37:9). Isso não é mera promessa de candidato em eleição – é a garantia inquestionável de um Pai que lhe ama. Esperar por Quem sabe tudo é ganhar uma escritura de posse do maior terreno da vida: a sua própria felicidade.

Os grilos se calaram, o céu clareando despachou as estrelas, as buzinas re-começaram, e lá vem tudo de novo pela frente: outro dia pra ser pai, marido, chefe, motorista, contador, trabalhador e até ator. Mas me sinto diferente, bem melhor. Dormi menos, porém já consigo sonhar mais. Posso ir em frente deixando a Saída de Emergência a cargo de Quem conhece bem a entrada do melhor que está para vir. Afinal de contas, esperar nEle, aguardar nEle, e descansar nEle são as únicas coisas inteligentes que posso e devo fazer para deixá-Lo me surpreender com Seu jeito espetacular de Ser Divino.

Assim sendo, até posso esticar o elástico um pouquinho mais…

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