A Boneca Feia

ago 14, 2010 by

A Boneca Feia

“Admirar a paisagem sempre facilita as complicações do percurso”

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Estou revoltado! Descobri que minha ótima filha tem um péssimo gosto. Sério mesmo! Depois de nos levar à loucura – com brinquedos cintilantes e pelúcias importadas – sabe o que ela realmente gostou, a ponto de ter um surto psicótico de descontrole emocional, se perdê-la de vista? Você imagina a coisa mais importante para felicidade dela tocar a plenitude? Dou-lhe uma, duas, chega! (Tô revoltado!) Uma patética e horrorosa boneca de borracha, de quinta categoria, com braços tortos e pernas de mamute – além do cheiro de pneu de Chevette com cor de burro quando foge. Ah, e totalmente nua. Gente! é uma coisa espantosamente bagacenta beirando o muquifo em liquidação! E o pior? Ela adora esta troglodita com veneração de diva. Não dá! Detesto essa boneca. Êita boneca feia! Vai ser medonha assim no cafofo do cão chupando manga! (Ok, vou respirar… Pronto!) Mas, como pode um troço pavoroso desses? (Calma!) Ela podia gostar das amenidades de fina estirpe e acabou apaixonada pelo saldão paulista, de 1,99, na 25 de Março?! Já tentamos todas as trocas, mas pra ela escancarar seu contagiante-sorriso-desdentado, só apertando forte a maldita boneca-espantalho. É a princesa agarrando um vira-lata pulguento. E pra ela não surtar, nós surtamos. Vai explicar isso?!

Enquanto me acalmo, lembro da minha filha, ligada em 220V, grudada com seu mal-assombrado objeto do coração. Ouvindo seus grunhidos, concluo: primeiro, ela não está nem aí para o que esta boneca significa pra mim, definitivamente isto não é relevante no seu mundo. Segundo, a boneca é incrivelmente anatômica às suas mãozinhas e bracinhos – o tamanho compatível dá sintonia. E terceiro, a simplicidade da boneca é tão descarada que minha filha, com seus neurônios debutando, entende seus detalhes, por isso, embala pra dormir, põe colher na sua boca, passa pente na cabeça e aperta a mamadeira na sua cara – é uma amizade descomplicada. Racionalizando assim, reconheço: sabia que ela não está errada?

1) Deveríamos nos preocupar menos com a importância das nossas coisas para os outros. O que o vizinho tem a ver com o que me pertence? O que é meu é meu – pronto! Às vezes, sucateamos nossa felicidade simplesmente porque ficamos vivendo à mercê da opinião pública. “Não usarei esta camiseta de novo!”, esbraveja a adolescente, só por uma brincadeira feita. “Amor, joga fora esta gravata!”, pede o marido, frustrado porque o chefe não elogiou seu bom gosto. “Chega desta bolsa!”, despreza a mulher, após ver a colega com outra igual. Acabamos reféns do julgamento alheio como se fôssemos réus no tribunal do bom gosto. E quem disse que o meu gosto é pior do que o seu? O que você é para imperar no meu jeito de viver a minha vida? Existem idéias prodigiosas que jamais se libertarão do rascunho só porque seus donos morrem de medo do que outros vão falar – daí, eles procrastinam ousadias por pura vergonha. (Você acha que Google, Twitter, Orkut, YouTube e paicoruja.eu arrecadaram elogios unânimes quando deram seus primeiros passos?) Minha filha, Thalissa, está certa! Ela não gasta uma fralda sequer preocupada com minha opinião. Sua afeição pela boneca feia importa para ela, e eu que me reduza à minha insignificância!

Não deveríamos ser assim? Que tal valorizar mais o que é seu, e menos o que poderia ser seu? Salomão reconheceu: “pois vi não haver coisa melhor do que alegrar-se o homem nas suas obras, porque essa é a sua recompensa; quem o fará voltar para ver o que será depois dele?” (Eclesiastes 3:22). Incrível! Se você não admirar o que lhe pertence agora, ninguém lhe ajudará a voltar no tempo para curtir depois. Bilhões de dólares do consumismo cimentam-se no desespero humano de querer algo mais só para os outros também lhe admirarem mais. Balizamos nossa satisfação pela ditadura alheia, e pra quê? Posso lançar um desafio? Agradeça mais pelo que tem e pare de ficar mendigando aprovação pública. Saia da encubadora! Deixe de ser avestruz e tire a cabeça da cova – ideias todos têm, coragem de praticá-las é pra quem não liga pros outros, e segue adiante.  Aproveite o que é seu, servindo mais o seu gosto pessoal. (E daí, se a boneca é feia?)

2) Sonhe coisas que caibam nos seus sonhos. Entenda uma coisa: satisfação não é agarrar tudo, é pegar o que cabe. Existe muita coisa boa acontecendo em sua vida na proporção da sua realidade. Aceite o tamanho dos seus braços. Minha filha entendeu que boneca de um metro ela só segura pelos cabelos – mas, a boneca feia encaixa direitinho. Olhe pra si: o que você quer? O que você já tem? E o que falta para fundir o “querer” com o “ter”? Dias atrás, caímos numa cilada: estávamos frustrados porque não conseguíamos comprar um imóvel. Até um bom conselheiro nos trazer de volta ao chão, “e por que vocês só procuram casas há anos-luz do seu orçamento?”. Ficamos mudos. Meu pai tinha razão. Daí, tem a mulher que não “desencalha” (perdão, trocarei por “desancora”) porque almeja ser rebocada por um iate com heliporto! Ok, também não se conforme com um pedalinho! Mas, têm outros homens mais possíveis – se seu sonho for mais anatômico a você. Entende? Seja feliz com o que está acessível. É bom querer degraus mais altos, mas não dá pra saltar do subsolo à cobertura num único passo.

Ah, e as “figuras antipáticas” que bebem suco de caco de vidro com cereal de prego?  Não poucas vezes, gente mal-humorada é quem só sabe visar miragens – afinal, tudo poderia ser melhor, maior e antes! Estes “tipos” azedam o dia nunca elogiando, porque a chatice reflete os bracinhos curtos tentando levantar um hipopótamo. Além de impossível, frustra! “Grande fonte de lucro é a piedade com o contentamento. Tendo o sustento e com que nos vestir, estejamos contentes!”(I Timóteo 6:6,8), tem mais, “Não andeis ansiosos pela vossa vida, (…) pois vosso Pai celeste sabe que necessitais de todas elas”(Mateus 5:25,32)  É isso! Alegre-se com seu veículo de 4 rodas, e não rumine porque tem 2 portas. Agradeça o privilégio de voar, mesmo enlatado na econômica. Valorize o mulherão do seu lado, pois a da revista só existe no Photoshop. Por aí vai… Você curtirá mais as coisas desfrutando do conforto de tê-las compatíveis com o seu tamanho. (Mesmo sendo boneca feia.)

3) Explore o fascínio das coisas simples. Escrevo este texto há milhares de quilômetros de distância da minha filha. A saudade aperta e amordaça ao mesmo tempo. Sinto muito a falta delas (meu bebê, sua mãe e (incrível!) até a maldita boneca!). Sabe o que me conforta? Lembranças. Uma recente, em especial: ontem, fomos a um shopping e ela cismou com um trenzinho que dava pena só de olhar – a volta inteira media nossa mesa de jantar (pra 6 pessoas!). Eu, de terno e gravata, respondia e-mails no celular, quando a mãe implodiu a rotina: “vai com ela, amor!” Eu?! Nessa bujinganga barulhenta? Não creio! Entrei feito sardinha de fraque esgoelada numa lata sobre trilhos (que parecia a máquina de costura com pedal da sua bisavó!), porém, lá estava ela: minha filha, irradiando alegria como se fosse a Disney. De repente, percebi a magia do momento: aquilo era um acontecimento único no universo! O trenzinho apitou, e eu, arrependido, agarrei-a bem forte curtindo aquela cena surreal – e agradecendo a Deus pelos minutos sem preço. A mulher do parquinho ainda esqueceu a gente, e demos umas 10 voltas naquele meio-metro de percurso. Saí feliz, e agora percebo a sublimidade de lembranças assim. E se tivesse racionalizado, “eu não, isso é sem graça, muito simplório!”, e deixasse passar?

Viver é assim. Existem coisas simples incalculáveis para nossas recordações. Não complique o que Deus simplificou. Momentos com pessoas valem mais do que mega-momentos sem ninguém. Uma equação de física quântica não vale mais do que rolar no chão ou pisar descalço na terra. Desde o Éden, o ser humano foi feito pra ser complexo e descomplicado. Aproveite o alto valor das experiências gratuitas. Muitas vezes, o caro é de graça! Pois têm situações imensuráveis que, se “passam batido”, nunca mais voltam. A “simploriedade” da boneca feia ensina: admirar a paisagem facilita as complicações do percurso. Esteja atento ao momento ímpar e não implique com o trenzinho. Curta o simples! E foi como o Pai do Céu resolveu a complexidade do pecado: vestiu Seu Filho de pele humana (feito a boneca feia) pra vê-lo ir aonde nós deveríamos ter ido. “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu Seu Filho unigênito” (João 3:16) Entendeu a graça? Grátis pra nós, cara pra Deus. Não é de admirar pessoas rejeitarem a eternidade acessível de maneira tão simples? Vale a pena atentar à des-complicação aproveitando o dia-dia. Isto é questão de salvação!

Tá, mas e a boneca feia? O que fiz com ela? Bom, com lições assim, não tenho como impedir esta amizade quase siamesa. Perdi o round aprendendo muito com as duas. De repente, a cena que surge é da minha filha, com passos entortados, abraçando forte sua bonequinha no peito – um abraço aconchegante de quem ama, e possessivo de quem protege. Ela dá as costas pra mim, explorando seu próprio mundo novo, e desaparece lentamente na direção do corredor. Não a vejo mais, só escuto as pisadinhas secas e seu idioma ininteligível. Mas lá vai ela, eu sei, sem se preocupar com os outros, apaixonada pelo que cabe nos braços, e vivendo feliz sua vidinha simples.

Junto com sua preferida boneca feia. (E quem disse que os feios não somos nós? Vai entender…)

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