Azeitona no Parquinho

ago 27, 2010 by

Azeitona no Parquinho

“Não engane uma criança como centro do universo”

Odeio parquinhos infantis.

Fujo deles como gato da água. Até podiam exterminá-los! (Não os gatos!) Se “a primeira vez a gente nunca esquece”, lembro quando tudo começou:

Era uma vez…, e eu achava minha filha precoce, iluminada, prodigiosa, superdotada e única azeitona na empada do mundo. Ela era o Sol, e todo resto asteróide. Até o trágico dia que fui “gentilmente” convencido pela mãe a levá-la no Playground do Parque da Cidade. Lá, meu chão desabou, o Sol apagou, e a azeitona virou grão de farinha. Que decepção aterradora! Constatei a pior verdade esmurrando meu ego de pai-coruja: minha filha não era mais a única no mundo! (Um dia chegará sua vez!)

Já viu como tudo é caótico neste lugar maluco? Tem crianças de todos os lados, berram todos os decibéis e pulam mais que trio elétrico. Juntas, são um enxame de seres voadores e rastejantes turbinados com nitroglicerina explosiva. Bermudas rasgam, mãos sujam, caras se lambuzam, cabelos se desgrenham, corpos enlouquecem – é a muvuca pulsante retratando o pandemônio do bem. Agora, quando vi minha delicada “princesinha de cristal” perdida nas entranhas do “planeta dos macacos”, juro que morri um pouco mais dentro de mim. Os grandões trombavam nela, os pequenos corriam dela, e eu queria invadir a farra pra gritar: “Ei! Olhem minha filha ali! Ela é única, viu? Uma azeitoninha! Parem todos e a admirem!” Porém, silenciei mergulhado na vergonha de ser tão alienado e orgulhoso. No parquinho, todos brincam, todos pulam, todos são todos.

O problema são pais prometendo pros filhos que os pequeninos são o centro do universo. É a “educação heliocêntrica”. Não é difícil projetarmos miragens ufanistas sobre os pequenos que pegam carona em nossa pretensão gananciosa. Pra falar a verdade, que pai não sonha aplaudir o filho sob holofotes inacabáveis no palco da admiração pública? Não creio que sejamos de todo errados – mas, extremos estragam mais que ajudam. Ainda bem que a saga do parquinho me puxou de volta pra Terra.

Voltemos ao local do pesadelo: eles sobem no escorregador e se penduram em tudo que é “segurável” numa dinâmica enlouquecedora. Mas é incrível como se entendem! Outro dia os brinquedos plásticos da minha filha espalhavam-se nas mãos de outros dez maluquinhos. E ela segurava objetos que nunca vi na vida. Afinal, tudo é coletivo – um socialismo perfeito na comuna dos baixinhos.  Lá, Marx tinha razão. Eles curtem e dividem. Aí chegamos nós, corujas-lobos-maus, inculcando na mente igualitária deles a competição e o pódio. Se lá na arena a diversão é máxima, na arquibancada torcem os fanáticos comparando o tamanho das mamadeiras.

Vem cá, a que ponto a valorização familiar não se deforma na mimação de um irreal conto de fadas? Acertamos por fortalecer sua auto-estima ou erramos por projetar neles a vingança dos nossos fantasmas? Por que exigimos mais do sucesso impecável deles do que nós mesmos suamos pra alcançar? Não deveríamos cuidar mais? Temo que a “paparicação” os iluda a brilharem numa Pandora só existente em nossa imaginação. Um filho não pode ser nosso Avatar infalível – encenando nossos próprios roteiros egoístas. Precisamos equilibrar a valorização do carinho paterno com a realidade de um mundo-palco repleto de outros prodígios talentosos vivendo bem coletivamente. Se não cuidar, somos nós quem estragamos, acredita?

Olimpíada Infantil. Tem pais neuróticos por fazer da vida infantil uma olimpíada interminável. Tudo é uma raia, um placar, uma pontuação ou performance. Exaustas, as crianças não podem viver um segundo sem competir. E pra quê? Só porque um dia não subimos no pódio, obrigamos os pequenos nunca descerem de lá?! Deixe-os brincarem!

Rinha de Galo de Briga. Não incite uma criança bicar os outros. Outra vez vi uma mãe cutucando seu filho de 4 anos, “vai lá, bate de volta! Não leve desaforo pra casa!” Acredita nisso? Que mãe é esta? E que filho será aquele? Apostar na vitória do filho é bem diferente de jogá-lo numa rinha de galo. Um dia ele vai perder por isso!

Cometa versus Estrela. A qualidade número 1 para o sucesso é relacionamento. Evite fazer da criança uma estrela solitária. Prefiro os dinâmicos cometas, cuja beleza está na cauda de poeira cósmica que lhe acompanha. Quando agregamos pessoas sendo sociáveis e trabalhamos em equipe conseguimos muito mais. Motive seu filho a se relacionar com os outros, e surpreenda-se com seu brilho compartilhado.

Agulha no Agulheiro. Que tal parar de pensar que o resto do mundo é um palheiro! Têm muitos por aí “nem melhores do que os piores, nem piores do que os melhores”. São apenas diferentes – mas igualmente importantes. Não desperte em seu filho a vaidade de aspirar ser o único que presta. A exclusividade é uma coisa boa, a superioridade já soa arianismo hitleriano – cuja raça perfeita só existia na fantasia louca dele.

Ares de Diva. Uau! Estou neste mesmo barco! Eu também acho minha filha a coisa mais espetacular do universo – uma verdadeira musa. O problema é que serei sua única platéia se não prepará-la pra realidade. Isso dói, e como! Mas os filhos precisam ser normais com pais caindo na real. Merecem nosso aplauso, mas não uma redoma de cristal veneziano com pétalas de rosas escandinavas numa cama dourada sob lençóis egípcios de 3000 fios. Talvez, até chegarão nisso – um dia – batalhando muito.

Estou pegando pesado, certo? Eu sei! O parquinho também pegou pesado comigo. Fico pensando em quantos jovens estariam mais preparados pro futuro se seus educadores não tivessem “super endeusado” seus aprendizes. Quando olho pra trás na minha vida reconheço que os mestres que mais surtiram efeito na minha formação foram exatamente aqueles que me obrigaram dividir meu parquinho com os outros. Souberam, sabiamente, dosar meus valores com meus defeitos – especialmente, alertando-me para o fato de não ser a única azeitona na empada da humanidade. Meus pais, inclusive, encontram-se nestes herois que me prepararam pro parque dos adultos.

Pais mal-avisados estão ensinando a seus filhos lições que se lhes demonstrarão perigosas, e plantando ao mesmo tempo espinhos para os próprios pés. Em grande parte, os pais seguram nas mãos a futura felicidade de seus filhos. Repousa sobre eles a importante obra de formar o caráter dos mesmos. Os ensinos ministrados na infância os acompanharão através da vida” (White, T. Seletos 1, p. 143). Não temos alternativa: ou assumimos o controle de nossa “corujice” super protetora, ou fabricaremos futuros adultos frágeis como casca de ovo. Não suporto ver minha filha esperando na fila do escorregador – ela merecia passe VIP para uma gangorra exclusiva com banco de couro – porém, suportarei ainda menos se um dia a vir com faniquitos descontrolados por não saber esperar ou respeitar o próximo. “Freqüentemente, as crianças são mimadas desde a infância, e maus hábitos se tornam fixos. Os pais têm estado curvando seu filho. Pela sua maneira de educar, o caráter ou se desenvolve com deformidades ou com simetria e beleza” (White, T. Igreja 4, p.368).

De vez em quando é bom passearmos no parquinho. Apenas observe e lute consigo mesmo. Um filho é coisa única, exclusiva e maravilhosa – mas os filhos dos outros também são coisas únicas, exclusivas e maravilhosas. O canteirinho de areia é um espaço pra vários, no pula-pula cabe mais de um, e a casinha colorida de madeira tem entrada pra todos. Aprenda a lição do playground: não engane seu filho como umbigo do mundo – tem mais gente boa por aí e dá pra aprender muito com eles. Dê-lhes condições privilegiadas, pavimente sua estrada do futuro, elogie-os sistematicamente fortalecendo sua auto-estima, no entanto, não menospreze a importância do pé no chão. O desenvolvimento saudável reflete a admiração controlada, a proteção equilibrada e as permissões com limites.

Continuarei sempre pai-coruja e de olhos esbugalhados fascinados com meu eterno pedacinho de gente, mas aceitarei outras corujas dividindo o mesmo galho comigo. Enquanto isso, ali em baixo, todas as deliciosas criaturinhas observadas seguirão seu caminho aprendendo a viver, lutar, respeitar, crescer e amadurecer – juntas.

Que o simples parquinho nos ensine a ser grandes pais.

E brincando!

.

Related Posts

Share This