Bebê Al-Qaeda

jul 26, 2010 by

Bebê Al-Qaeda

Quando os Céus tiram uma benção é porque outras maiores ocuparão este lugar: vale a pena confiar em Quem sabe o que a gente não sabe!”

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Já percebeu como toda a criança é potencialmente suicida?

Minha filha também. Até questiono se seus genes são herdados de mim, ou de algum terrorista kamikaze por aí. Não se assuste, explicarei melhor…

Nos últimos meses sobrevivo numa montanha-russa de solavancos emocionais. Levo susto o tempo todo e, se não profetizo o próximo segundo, lá está minha princesinha-Al-Qaeda brincando com a morte novamente.

Para uma criança, tudo o que é perigoso parece estar caramelizado com chantilly. Incrível! Os dedinhos adoram tomadas elétricas. Seu corpo se apóia em todas as quinas ameaçadoras. Tudo vai pra a boca – de alfinetes até meias sujas. Outro dia estávamos à mesa no almoço e, de repente, adivinha que talher ela agarrou? A faca, obviamente – e pela ponta! Estou mais neurótico que Woody Allen. Se desvio a vista por micro-segundos, pronto, lá vai mais uma arma letal pra gengiva. O lavabo da sala tem que ficar trancado, com a tampa do vaso lacrada e cerca elétrica em volta – senão, é a festa da cara na água, lambida no spray de ar, canto da gaveta na testa e por aí vai…

Não adianta, ser pai é viver sempre antes da hora. Por isso, descobri meu “quinto olho” – depois dos olhos originais e dos de vidro pra miopia – agora tenho o “canto do olho”. Tem que olhar mesmo, antever o pior e se adiantar às terríveis ações possíveis. Por quê? Ora, “não basta ser pai, tem que ter bola de cristal!” E se não vejo o futuro, o presente me dá uma rasteira com os berros de dor da “terroristinha” que mais amo no mundo.

Qual a razão para essa propensão masoquista infantil? Crianças brincam com o perigo simplesmente porque não conhecem o perigo. O que pra elas é uma caixa brilhante de brinquedos estreitos, para nós é a gaveta de facas da cozinha. E como elas vão saber? Nós é que temos que saber! E essa onisciência profética prevendo suas decisões mais ameaçadoras pesa sobre nossos ombros de pais. Simplesmente, porque conhecemos o que uma criança de um ano nem imagina: o perigo real e imediato.

Parece que a gente envelhece, mas não cresce. Os corpos aumentam e a barba também, no entanto, continuamos atraídos pelo que machuca. Hipnotizados pela ponta cintilante da faca vivemos magnetizados pelo precipício. Certa vez, um “bebê-Al-Qaeda crescido”, chamado Paulo, desabafou: “quem faz isso já não sou eu, mas o pecado que habita em mim” (Rm 7:17). Incrível! Ficamos nos batendo pelos cantos da vida não porque somos filhinhos ingênuos, mas por sermos paizões pecadores. Projetamo-nos para a maldade, a traição e o egoísmo da mesma maneira que minha filha acaba de puxar o fio do ferro elétrico (desligado, ufa!).

Deus age conosco do mesmo jeito. Ele precisa antever a nós mesmos para nos proteger de nós mesmos! Lembra da última vez que você pediu um “sim” do Céu e recebeu um redondo “não”? E se o seu filho de 15 meses lhe pedisse uma elegante taça de cristal? Hoje entendo um pouco melhor as respostas dEle exatamente porque também respondo os olhinhos negros mais suplicantes do universo. Digo “não” porque amo. Ou você acha que o Pai do Céu proíbe um filho de ser genuinamente feliz?

Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria, como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos e quão inescrutáveis os seus caminhos” (Rm. 11:33). Não sei se Paulo foi pai – provavelmente, não – mas tenho certeza que ele sabia da sua condição de filho. E filhos são potencialmente suicidas, a menos que os pais os ajudem a fugir do “perigo real e imediato”. Entende por que os resultados de Deus são diferentes dos nossos planos?

Não estamos errados por intentar a conquista do sucesso. “Eu quero o que eu quero!” E como homens, apesar de parecermos imbatíveis por fora, ficamos devastados por dentro quando as coisas não saem como gostaríamos. Olhamos pro Céu vazio e esmurramos as nuvens tentando supostamente reivindicar uma divindade que ficou surda. Mas, será que é um problema de audição divina? Ou, quem sabe, a solução sábia de um Pai que jamais se furta de proteger-nos ao prever um problema maior? “Confiai no Senhor perpetuamente” (Is. 26:4), isso é básico na relação pai-e-filho, a despeito de nem sempre ser recíproco. Minha filha chora quando arranco algo das suas mãos porque não sabe ainda definir o que é confiar em mim. Lá na frente, porém, ela vai me agradecer.

Com você é a mesma coisa: um dia, seu coração de filho agradecerá os limites de um Pai que lhe ama demais para se omitir de intervir. Creio que Deus sabe nossas lutas. Ele sabe os sonhos genuínos que, por aí, podem equivocadamente até chamar de ambição ou ganância. Nem sempre é imoral querer mais. Porém, pode ser como um bebê abocanhando uma caneta pontuda – ela não é uma arma, mas pode virar. Da mesma forma, quando Deus muda nossos planos não significa que eles eram errados, mas que poderiam deixar-nos errados. Se você esperou um aumento e ele não veio, ou sonhou com um carro novo e o estoque da promoção acabou, acredite: quando os Céus tiram uma benção é porque outras maiores ocuparão este lugar.

Termino vendo uma miniatura da eternidade: minha filha brinca no chão, rodeada de tampas plásticas coloridas. Ela nem imagina, mas eu com meu “quinto olho” não saio de cima dela. Talvez ela vá engatinhando até o forno, ou se aproxime dos cristais da sala, e novamente eu estarei lá, antes dela, desviando-a de sua própria felicidade auto-destrutiva. Ela vai chorar, eu sei, mas crescerá protegida, ela nem sabe.

Assim avançamos uns auxiliando os outros. Quem vê mais longe até chateando quem vê só perto. E Deus seguindo junto conosco nesta ciranda protetora. Ele estará sempre ali, para o que der e vier – mesmo que seja um passo a frente do nosso precipício. “O que Eu faço não o sabes tu agora, mas tu o saberás depois” (Jo. 13:7). Vale a pena confiar em Quem sabe o que a gente não sabe. Acredito nisso.

E aquele brinquedo cintilante que você queria? O tempo passa, e um dia você usará a faca afiada pra cortar laranja.

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