Blu-ray de Glacê

out 27, 2010 by

Blu-ray de Glacê

“Garanta a qualidade, mas jamais abra mão da quantidade”

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Acabo de saber que minha filha fez uma declaração de amor pra minha chegada. Depois de uma semana fora fiz um pit-stop de 24 horas em casa para encarar outra semana em Santiago, no Chile. Sabendo que o “pai coruja” voltaria, seus dotes artísticos de Monet e Picasso se expressaram numa obra de arte de valor incalculável: um tubo inteiro de Hipogloss branco espalhado na tela impecável de nossa TV de LED. Munidos de pomada anti-assadura, seus dedinhos fizeram a festa na superfície envidraçada de 52 polegadas. De gorjeta, todos os eletrônicos embaixo também foram lambuzados – juro que ainda não tinha visto um home-theater feito bolo de chantilly, nem meu novíssimo blue-ray recheado de glacê cheirando fralda. Além de rir pra não pular da ponte, e limpar após gravar na memória pra sempre, tive vontade de ficar ainda mais tempo com esta pintora de pincéis imprevisíveis.

Quem disse que a qualidade é mais importante que a quantidade? Eu. Quem agora diz que não é bem assim? Eu, também! Desviarei a tempo se estiver em rota de colisão com um iceberg ali na frente. Por isso, assumo: mudei de opinião! Está bem? Diga o que quiser, mas troquei de time, mudei de partido e me bandeei pro outro lado. Afinal, a qualidade não joga uma pá de cal sobre a quantidade. Ambas são insubstituíveis.

Quando o assunto é tempo, a qualidade é importantíssima. Agora, se a questão são lembranças, quantidade é essencial. Nunca tinha pensado nisso, até ser o paizão mais ba-bo-bão do mundo!  Fui sempre um árduo defensor da qualidade de momentos juntos – até precedendo a quantidade. Mas, agora a pouco me assustei ao cair na real: uma não exclui a outra. Jamais. E é verdade! Posso tentar me enganar de que a “exclusividade do tempo curtido qualitativamente” com minha inebriante filha é suficiente, MAS é só entrar num avião, viajar mais, que a miragem se desfaz e a tolice mostra sua cara. Porque ao lado de quem você ama, nunca o “tempo bom” suficiente será “bom tempo” o bastante pra depois não bater saudade lá na frente. Sempre vai dar vontade de mais. Por isso, já quero pular de pára-quedas aqui de cima, voltar pra casa e beijar a mulher que amo com a filhota que venero. De novo.

Já tinha pensado nisso? Certas coisas boas da vida não podem ser separadas da quantidade. Vendo o casal apaixonado, dizemos “que vivam intensamente, ainda que pouco”. Errado! Quero viver 40 anos incríveis que nem meus pais! Outros se acomodam, “aquela viagem valeu por todas”. Que nada! Tem que viajar muito mais mundo afora para ter histórias pra contar. “Filho, esta conversa será única”. Eita, pais! Acham que um bom papo compensa milênios de ausências?! Ou ainda, “curti bem minha juventude”. E tá velho, por quê? Quem foi que mandou parar de aproveitar a vida? Enfim, vê como as coisas são? Não basta qualidade, também tem que ter quantidade.

Tenho descoberto, a duras penas, que quando o assunto é relacionamento tem que GASTAR TEMPO! Não dá pra compactar os momentos que esculpem as boas lembranças. Nem tem como espremer numa sanduicheira temporal o que só a convivência trará de verdadeiramente precioso. Isso leva tempo, custa tempo e vale mais do que o tempo.

Outro dia levei mais uma cintada-moral da musa que chamo de esposa. Cheguei afobado do trabalho, com 57 e-mails pra responder, 127 telefonemas profissionais pra justificar na conta e uma agenda exaustiva pra conferir do planejamento da manhã seguinte. Entrei em casa vestindo minha capa vermelha com um “S” de super-pai cravado no peito e, pensando estar marcando um golaço, me ajoelhei de terno no chão pra beijar por 17 segundos minha deusa-mirim de um ano e meio. A seguir, de consciência anestesiada, sumi pro escritório pra mergulhar de volta no mesmo redemoinho largado na empresa. “É o nosso pão de cada dia, filha, você entende!”, me desculpei feito trombadinha após surrupiar a bolsa da velhinha. Mas ela veio atrás, seu corpinho se enfiou no meio das minhas pernas, seus pezinhos se enroscaram nos cabos do chão e só a percebi quando sua cabecinha latejou debaixo da mesinha do teclado. “Ô, filhinha, papai já lhe deu atenção!” bati o recorde da idiotice. Porém, ela ficou lá, grunhindo e babando com sua face batendo hora no teclado, hora nos meus joelhos. Foi quando a verdadeira super-mãe entrou e, vendo a cena da libélula e o jacú, cochichou-me ao pé-de-ouvido: “amor, ela ainda não entende que 17 segundos com você equivalem a um dia inteiro sem você!”. Ai, essa doeu! O pior soco não é na boca do estômago, mas nos olhos da alma. “Quer saber”, pensei nocauteado, “isso aqui tudo sempre poderá esperar”. Joguei-me no chão com as duas e brincamos mais – a despeito de eu dormir menos. Foi simplesmente perfeito!

Ok! Mas, e a qualidade de vida? Sozinha, é papo furado! Sem quantidade de tempo, a qualidade vira moeda de troca disfarçando o sequestro da convivência mútua, das experiências duradouras e dos momentos grandiosos que não se podem reduzir. Não deixe a abreviatura substituir a poesia real. Tenho a miniatura de uma Ferrari na minha mesa, mas jamais me satisfaria com ela mais do que dirigir de verdade um carrão-puro-sangue de 550 cavalos. “Um beijo bem dado é melhor do que vários esculhambados”, dizem os românticos. “Mas, e quem disse que não podem ser vários beijos deliciosamente bem dados?” provocariam os mais gulosos. Garanta a qualidade, mas jamais abra mão da quantidade. Porque a vida voa e reivindica um armazém lotado de boas recordações. Tem que curtir, sim, porém melhor ainda é repetir as boas curtições.

Até o próprio Deus pontuou esta relação lá no Éden: “o Senhor andava no jardim pela viração do dia” (Genesis 3:8). Estes eram momentos de extrema qualidade – o próprio Criador amando Suas criaturas – mas, isso se repetia todas as tardes. Incrível! Vê a quantidade? Está na hora de beijar bem, mas beijar sempre. Viajar é bom? Repetir com outros roteiros é melhor. “Estar em casa” talvez lhe obrigue a algo mais: “ficar em casa”. E que tal ser um admirável colecionador? Uma vez conquistada a qualidade, colecione a quantidade destes bons momentos. Será ótimo vive-los. E melhor ainda acumulá-los.

Decidido! Vou lá comprar uma caixa de pomadas anti-assadura – após plastificar minha TV.

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