Cadê o meu chão?

jul 25, 2010 by

Cadê o meu chão?

“Se não dá pra voltar as coisas como eram antes, com certeza dá pra curtir as coisas como serão depois”

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Socorro!

Quero meu chão de volta!

Puxaram meu tapete. Apagaram a luz. Amordaçaram minha goela. Jogaram-me ladeira abaixo. Pregaram uma peça em mim. Ainda acho, e ninguém me provou o contrário, que tem gente escondida em algum lugar rindo às minhas custas por aí.

Eu não sei você, mas já percebeu como algumas coisas mudam de repente quando a paternidade bate às portas? Hoje, quando entro em casa, desfilo com a mesma cautela que um soldado se espreita em um campo minado. Os brinquedos por toda a parte parecem anunciar a iminência de um próximo tombo. Esta ameaça nuclear vai desde perigosos patinhos-amarelos de silicone até restos de chocalhos barulhentos torturando o silencio dos vivos. É uma completa bagunça.

Ora, tragam meu chão de volta!

E com ele todas as outras coisas que também sumiram. Por exemplo, tampa do sanitário aberta, tomadas disponíveis, bolsas intactas, gavetas fechadas, chaves sem baba, revistas  desamassadas, sapatos no lugar e, por incrível que pareça, meu carro lindo sem fraldas descartáveis esquecidas dentro – e cheias!

Não adianta, ser pai é presenciar o tabuleiro da vida virando de vez – e com as peças em cima. Não tem Escola de Treinamento Básico no mundo que ensine nosso cromossomo XY a prever tamanho transtorno da vida. Uma desorganização encantadora se instala e ficamos perdidos feitos peixes-beta velhos em aquário novo. Simplesmente beira o surreal.

Outro dia procurava um par de meias pretas no varal lá atrás e me deparei com a realidade chocante: tornei-me minoria absoluta no reino das micro-roupas infantis. Perdi meu palácio. Tenho que entrar na fila concorrendo com meias do Mickey, pijamas do Ursinho Puf e camisetas minúsculas com estampas da Barbie. Até, finalmente, minha irritação sumir vendo uma blusinha pendurada com um coração felpudo, escrito: Sou do Papai! Bom, ao menos como bobo da corte ainda estou junto à realeza. São coisas que valem a vida.

Mas não mude de assunto! Ainda reivindico meu direito ao chão.

Passamos a dormir aos solavancos e acordar aos sobressaltos. Nossa farmácia caseira quadruplicou, e quando entro no Wallmart meus olhos avarentos buscam qualquer promoção de papinha infantil (tem gente enriquecendo mais que poço de petróleo!). Troquei meu carro esportivo por uma perua-funerária pra levar carrinho, babyseat, troller, bebê-conforto, bolsa de emergência, bicho inflável, dispenser de fraldas, tapa-sol pro vidro, móbile portátil e (finalmente uma esmola para o súdito aqui!) um espaçinho para uma raquete de tênis (mais 3 bolinhas, e só!).

Por isso aprendi admirar esta raça silenciosa de fina estirpe: os pais. Não podemos reclamar – afinal, não tem macho no universo que inchou nove meses e pariu no centro cirúrgico. Não temos pra quem extravasar, ou você anda dormindo menos do que as super mães? Nem o direito de exigir muito – ou melhor, exigir nada – pois fraldas infinitas, banhos explosivos, choros inexplicáveis e rotinas inacabáveis, tudo isso pertence ao currículo… delas. Resta para nós o irônico posto de guardiões da Terra do Nunca – nunca se meta onde não foi chamado, nunca faça cara feia ao pagar um novo modelo de lenços umedecidos e jamais pergunte “onde estão minhas cuecas lavadas?”

Entende agora por que eu quero o meu chão de volta?

Porque um “pedaço de gente” de 9 quilos ganha longe de mim na queda-de-braço das atenções. Consegue me deixar prostrado junto ao mesmo chão que esteve completamente livre um dia. Posso mandar em meio mundo lá fora, mas aqui dentro sou refém voluntário do seqüestro diário da minha autoridade masculina. Mandar o quê? Em quem? O negócio é entrar na dança, sair do ringue e quebrar paradigmas.

Quando Deus inventou os pais acho que estreou uma pitada de humor na criatividade divina. Já que criou a mulher da costela do homem, aproveitou pra dar o troco e fez o pai da sombra da mãe. Desde lá, passamos a seguir as pegadas cintilantes maternas com nossos pezões desajeitados paternos. Enquanto elas conseguem fazer um trilhão de coisas ao mesmo tempo, entramos em pânico tentando, em vão, provar que damos conta de dar mamadeira e zapear no controle remoto ao mesmo tempo. Não adianta se irritar comigo. Sou apenas um confessor sincero que passou a escrever o que outros tentam nem ler: a gente “paga mico” com fraldas fechadas do avesso, body colocado por cima da calça, beijos tolos aplacando choro de fome e sapatinhos espremidos no pé errado. Faz parte da nossa biografia.

Mas, apesar disso, aqui vai um sincero apelo: se não dá pra voltar as coisas como eram antes, com certeza dá pra curtir as coisas como serão depois. Acho que toda esta saga épica dos machos-pais se adaptando às pressas a uma nova dimensão da vida, nada mais é do que uma tremenda oportunidade de provarmos que somos capazes de surpreender. E isso não é uma convocação dos desajeitados cômicos, mas dos bem-intencionados cavalheiros. Cada vez que aproveitamos as rotinas quebradas para nos reinventar à altura de nossa força, concretizamos em ações um sentimento que nem sempre somos profissionais em expressar. Legamos às décadas futuras um amor prático que cede para não chatear, e até perde seu espaço próprio pra ganhar um carinho sem medida.

Ainda continuo sem meu chão, mas descobri que Deus me deu a chance de ver coisas novas com meus olhos velhos. Tenho aprendido que meias em falta revelam afeto de sobra. Não podia imaginar que existia outro universo tão imenso de experiências novas ao meu alcance. Diariamente tomo posse de meu telescópio de aprendiz para explorar novas experiências como pai. Entre nebulosas multicoloridas e buracos negros assustadores, a paternidade é um privilégio único exigindo da nossa masculinidade ao extremo. Afinal, ser homem também é abrir mão dos próprios interesses egocêntricos para compartilhar um amor indescritível com um ser humano indecifrável. É um sucesso em particular renunciado por um sucesso em parceria. E no final do balanço, quando crédito contrapõe o débito, a fortuna emocional beira o incalculável.

Da próxima vez que você sentir uma intromissão na sua zona de conforto, deixe a blindagem mais vulnerável e aproveite os momentos imprevisíveis na jornada dos relacionamentos. Minha filha tem sido um espelho diante de mim revelando um precipício sob meus pés. Tenho visto refletido no olhar ingênuo dela a obsessão de meus interesses voltados para meu umbigo. Também reconheço que a busca insaciável de poder neste século frenético nos distrai do abismo solitário que pode nos tragar a qualquer momento. Quando reflito sobre o imenso mundo aos olhos dela pasmo para reconhecer a pequenez deste outro mundo aos nossos olhos. Não dá para ser feliz e possessivo ao mesmo tempo. Nem é possível encontrar paz de espírito fazendo guerra para preservar meu pedaço. Nós, homens, temos que desativar as defesas bélicas anti-imprevistos e nos arriscar mais no terreno da adaptação criativa. Filhos nos obrigam constantemente repensar tradições rígidas e amolecer hábitos cativos. Mais vale uma boa risada disparando endorfina do que a fúria emburrada cobrando adrenalina.

Creio que o Pai do Céu sabe exatamente tudo o que passam por aqui os pais da Terra. Aquilo que transtorna o dia-dia também transforma o coração. E minha filha tem sido este presente inquieto de Deus capaz de tirar meu chapéu de formatura e me matricular novamente na escola da vida. Como “novo aprendiz mais velho” sinto na alma uma plenitude pura que até então nem sabia que se podia experimentar. Este é o verdadeiro reinado de um macho que perdeu sua coroa no mundo dos mandões, mas ganhou um trono vitalício no palácio da paternidade. E é um dom precioso, exclusivo e único – só meu, finalmente!

Tudo bem, sendo assim, até deixo bagunçar o meu chão…

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