Demônios Caramelados

ago 24, 2010 by

Demônios Caramelados

“O erro jamais deixará de ser errado só porque parece ser bonzinho”

 

Minha filhinha não mexe num IPod, mas se soubesse o que escutaria? Nem lê meia palavra, mas se lesse, qual livro seria? Ainda não “navega”, mas pra onde clicaria?  Acabei de pensar nisso – com um calafrio na espinha – e me deu vontade de desabafar.

Já viu como é assustador educar uma criança hoje? Não? Então veja! Eu sonhava com um ninho macio, seguro e previsível, mas trocaram a árvore pela cerca elétrica e lá ficamos nós, pais-corujas-assustados, tentando aliviar o choque do mundo sobre nossos filhos. O que tem arrastado multidões de fãs “ninho afora” não tranqüiliza meu coração de pai. Os bilhões de dólares do entretenimento anestesiaram o ser humano de questionar se o conteúdo é certo ou errado. “Ô, caretão, vai pra gaveta de naftalina! Deixa curtirem!”, dizem os contemporâneos liberais. Noutro extremo vêm os puritanos com foices: “Que horror! Quebre a TV, fuja pra roça, ouça Beethoven!” No meio fico eu – querendo ser “pai bacana” sem perder meu bebê a longo prazo. O que fazer?

Escrevo voltando da Austrália. Há 15 mil km. do meu ninho confirmo ser tudo igual: pais e filhos se aventuram rumo ao desconhecido, mesmo do outro lado do planeta. As livrarias se parecem, o apelo do showbiz segue o mundo globalizado, e as “celebridades-relâmpago” desfilam pros curiosos matando a fome de modelos a serem imitados. Sei que minha filha, um dia vai crescer” (leu esta poesia no blog?!) – ela será incompreensível, incompreendida, “incompreendendo” como todo teenager – e terá a mesma carência de ler, ouvir e experimentar. Não sofro por antecipação, mas o que me preocupa é o mal cada vez mais bonzinho. Se, tempos atrás, não ousávamos falar, hoje cansamos de ouvir. Deceparam a faixa etária de censura mínima! Pareço cafonão? Acho que não. Sou eclético e descolado com meu Carpe Diem (curta o dia!) saborando minha vida com neurônios, hormônios e endorfinas. O problema é que certos demônios se caramelaram demais pra revelar seu verdadeiro gosto. Não admito educar e iludir minha filha ao mesmo tempo. Se tem coisa errada, não fujo da raia!

Pop Porn. Com o trocadilho inglês popcorn (“pipoca”), a moda é a cultura “pop pornô”. Hoje, dá pra assistir um clipe musical cujo apelo visual não beire o pornográfico? Luzes, ângulos, contorções e figurinos comunicam uma mensagem altamente erotizada aos fãs – fanáticos pelos ouvidos e hipnotizados pelos olhos. Recentemente, você assistiu canais musicais ou LCDs em academias? Não disfarço minha angústia impotente perante o furacão Lady Gaga, o vozeirão Beyoncé,  a transtornada Amy Whitehouse, ou o precoce Justin Bieber. Estas top-pop-porn-stars faturam alto vendendo moral baixa. Perdoem-me seus seguidores, mas avalie.

Vassouras Travessas. Como não bastasse o recorde do maior fenômeno literário juvenil da nossa geração, a bruxaria adocicada se perpetua no olhar das legiões de bruxos inofensivos. Nós, “os trouxas”, testemunhamos um mega-marketing cativando milhões de magozinhos crescidos pra lembrarem os últimos capítulos assistindo os filmes de Harry Potter. O personagem cresceu, sua autora enriqueceu e seus leitores viraram uma década de travessuras no mundo das trevas. Porém, redime-se um conteúdo por causa de seu disfarce? Hogwart, e a super-lotada loja de varinha mágica, são mais que um parque recém-inaugurado em Orlando.

Dráculas Galãs. Quem não gosta de uma apaixonante história de amor impossível? Tudo é romântico e encantador, há não ser o fato de escancararem a demonologia do vampirismo como nunca. Uma enxurrada de literatura draculiana infestou as livrarias. Se jovens amam um confronto, melhor se for o chupador de sangue contra o lobisomem – e com suas gangues! Mas, atenção, o erro jamais deixará de ser errado só porque parece ser bonzinho. Os bruxinhos crescidos de J.K.Howlings agora amadurecem nos braços de Stephanie Mayer com seu envolvente romance Crepúsculo – gerando filmes, camisetas e promoções de fast-food. Seus artistas sarados adoçam um satanismo inevitável por trás de seres milenares com caninos afiados. Que tal?

Boias Virtuais. O maior desafio dos pais-corujas, no entanto, é a educação real no mundo virtual. Mudou tudo. Navegar é questão de existência. Blogar, twittar, postar e conectar são obviedades pra qualquer internauta do ciberworld. A polêmica da web é a quantidade de gente trocando barco por isopor e, ao invés de desbravar novas rotas, bóiam pacatamente sobre águas profundas. Sou contra proibir o que possa ser útil com discernimento, mas a internet achatou a Terra, e neste “mundo plano” as distâncias sumiram tanto pro bem quanto pro mal. Milhões de sites pornôs e bilhões de internautas se encontram boiando por aí. E nossos filhos? Navegam ou boiam? As redes sociais são pontos-de-encontro entre amigos, ou armadilhas de perda de tempo expondo a privacidade inocente? Sou twitteiro, tenho facebook, atualizo meu blog e vejo YouTube, porém tenho que blindar a navegação de uma filha ante o ataque dos piratas!

Bom, ainda há mais coisa assombrando nossa vontade de acertar. Educar certo é o maior desafio dos pais apaixonados pelos filhos. Sei disso! Mas, escancaro minha alma pra confessar a vulnerabilidade de sentir-me um rato à sombra da pata do elefante – a qualquer momento serei esmagado pela desproporcional concorrência alheia?! Tateando neste escuro busco sinais de luz que ajudem. Sou tão aprendiz quanto você, mas creio ter um “socorro bem presente na angústia” (Salmos 46:1):

Fique por dentro, ou sobre lá fora! Sei que custa tempo – tempo é dinheiro! – mas filhos não precisam de mesada como carecem de pais atualizados. Informe-se das coisas, conheça “o que rola” no universo deles, não menospreze seus “ídolos”, pois não dá pra educar sem ter assunto. Ou acha que eles curtem Globo Repórter? Entre na deles. Admiro pais que “descem do salto” pra calçar All-Star de vez em quando…

Não fuja do in-conversável. Ai, ai! Tremo só de pensar nas profundezas abissais de assuntos que um dia encararei com minha filha. Mas, vem cá, não é melhor eu ruborizar na conversa do que ela aprender da Madonna? Abra o peito, deixe falar, não se assuste visivelmente (mesmo implodindo por dentro!), puxe papos-medonhos antes que nunca mais conversem. É melhor falarem agora, do que emudecerem depois!

Não exorcize seus gostos. Mesmo sendo absurdos! Lembra as coisas ridículas que você gostou um dia? Eram ridículas na época? Isso mesmo: não! Então trate de respeitar o gosto questionável deles. Não é “deixar rolar”, mas estar junto. Certas preferências são tão passageiras quanto a maré. Se modismos são fúteis e voláteis, pra que armar a 3º Guerra Mundial pelo que sumirá na próxima estação? Tenha bom senso!

Derreta o caramelo! Atenção! Questione a ameaça açucarada. Aproveite os dráculas, bruxos e erotismos pra mostrar claramente o malévolo sob o chantilly. Não seja um permissivo alienado, mas o parceiro de altos papos. Se o atrito da curiosidade for extremo, assista junto, ouça junto, enfim, esteja presente! Depois, explique francamente.

Não encare a queda de braço. Fácil escrever, eu sei! Difícil é gelar o sangue fervendo. Mas não entre num ringue de boxe. Nunca. Além de agredir, você perderá a única chance de conquistar a amizade e o respeito de quem pode lhe esconder muita coisa. Adianta medir força e ficar desinformado do pior? Seja firme com autoridade, mas não embruteça o carinho – que ama demais pra permitir tudo.

Aposte no bumerangue. Sei que há duras exceções, mas, geralmente, quando os filhos parecem escapar eles acabam retornando. Saem afoitos pra transgredir limites, testar o que não presta, e provocar nossas aversões – mas, se continuam vazios, buscam de volta o caminho do ninho. Se você fez sua parte, não entre em colapso, seja paciente acreditando que a maioria deles, cedo ou tarde, sempre voltam. Receba-os de braços abertos!

Dobre os joelhos. Rua sem saída? Pânico sem saber que fazer? Poço ao invés de túnel? Ore. Ore! Cada ser vivo é tão inédito quanto sua digital. Chegará o momento em que nenhum livro ou educador no mundo preverá o que seu filho exclusivo fará. Só Deus, e sempre Deus. Creio no Pai do Céu como maior pedagogo do universo. Ele não abandona um pai ou mãe tentando seu melhor. Conte com Ele – conte para Ele!

Finalmente, não se acovarde perante o perigo florido. “Vivemos num tempo em que tudo o que é falso e superficial é exaltado. Deve a mente ser conservada livre de tudo o que a guiaria numa direção errada” (White, Testemunhos V, p. 544). Busque ser sábio. E sabe o melhor? “Se alguém de vós necessita sabedoria, peça-a a Deus que a todos dá liberalmente” (Tiago 1:5). Isso ajuda? Não extermina os caramelos traiçoeiros, mas nos dá força pra salvar quem mais amamos. Acredite: é possível educar bem! Se a concorrência assusta, temer e ceder não resolvem nada. Encare as atrações falsificadas com a genuinidade de um amor capaz de tudo – inclusive dizer não. Eles saberão que não existe erro bonzinho e, lá no fundo, não esquecerão os fortes princípios do ninho.

Já posso me desesperar menos e confiar mais.

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