Já Foi

abr 2, 2011 by

Já Foi

“Curta pra valer aquilo que faz a vida curta”

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Fazia tempo que não me deixava flutuar na brisa encantada da minha filha me assoprando pra bem longe. Agora há pouco consegui soltar as amarras da rotina hasteando as velas pra admirá-la em novos mares. É incrível como seu crescimento anabolizado explodiu mais rápido que o movimento singular de minhas pálpebras. Foi voltar a abri-las e pronto, tudo diferente de novo! Tento laçar o tempo com força de Hércules, mas ele desliza sorrateiro por entre os dedos no tic-tac do relógio. Desesperado por eternizar cada momento, fotografo o que posso, como quem busca agarrar o intocável. Apenas pra concluir, logo a seguir, a dura verdade implacável: ter filhos é pisar fundo no descontrolado acelerador da vida. O que vai ser – é! – já ficando para trás. E sem voltar – nunca mais…

Quando vi minha filha descalça subindo num tiro de fuzil o escorregador do nosso playground, senti uma cratera vazia devorando o peito. Ela cresceu demais – e me avisou de menos. Seus cachinhos ensopados molhando a roupa suja amarrotada agrediram minha ingenuidade que não viu que agora ela corre, grita, pula, berra, gira, vira do avesso, endoidece e está mais encantadora ainda. Seu sorriso aberto se abre ágil e hipnotizante como um acordeon de magia ímpar. Seus dentinhos brancos preencheram o varal de sua boca que ontem só parecia ter quatro meias penduradas. Acompanhá-la no olhar é sentir-se incompetente como o vigia de um mosquito doido entupido de Red Bull. Sua voz ganhou decibéis atômicos e seu pescoço uma mola de boneco de madeira. É difícil aceitar, mas o que nem começou direito já acabou lá longe. Seu corpo alcançou minha cintura sobre pés firmes que não são mais chaveirinhos. A saudade atordoa forte enquanto tento espanar a melancolia tão morna quanto indestrutível. É melhor aprender  a lidar com isso!

Quer saber das suas últimas traquinagens inexplicáveis? Minha esposa desistiu de ir ao supermercado com ela. “Não aguento mais pagar tanto mico, amor!”, rendeu-se após algumas tentativas calamitosas. Na derradeira vez, minha filha arrancou sua fralda e decidiu sair rodopiando pelas prateleiras feito porta-bandeira em praia de nudismo – e igualmente “não-vestida” para isso. O pior foi quando a mãe encontrou a fralda esgarçada gentilmente largada em cima dos tomates frescos no meio da verduraria. Nem ousei perguntar se era o “número 1 ou 2” que estava dentro. Ah, outro dia, ela inventou de falar “papai, chê!”, e a mãe inflou meu mundo ao explicar “querido, ela quer dizer ‘papai, amo vochê’. Uau! Levitei enlouquecido de paixão, até escutar, momentos depois, ela também dizendo: “xixi, chê! Mimi, chê! Totô, chê… E agora à tarde? Depois de muita cautela pra me contar, minha amada confessou a última da minha amadinha: um pote de patê de maionese e uma inofensiva faca plástica eram tudo o que ela precisava pra se divertir recheando generosamente seu alimento. O único problema foi quando a mãe percebeu que a grossa fatia apetitosa NÃO era de pão, mas sim, o novíssimo controle remoto da TV a Cabo em HD do papai! Viu que chique? Botões de silicone aromatizados com atum e azeitona. Além disso, ela é fascinada por rolo de papel higiênico! (Tão limpinha que puxou o pai!) Se a gente descuidar com a porta do banheiro aberta, lá vai ela se deleitar em puxar todo o papel, enquanto conversa com o vaso sanitário no seu idioma de grunhidos. Até imagino ela dizendo: “viu só, amiguinho branco tampado, quero transformar o mundo sem toda esta enrolação!

A verdade é que ser pai é o maior barato! Coisas assim fazem a gente repensar a ordem de valorização das coisas. Meu mundo previsível virou mera lembrança arqueológica tão remota quanto uma ossada de dinossauro. Mudou tanto que não consigo mais imaginar como tudo era tão estável e controlado. Agora, sou empregado do acaso criativo e aprendiz da Teoria do Caos. Porque ter um serzinho vivo roçando na sua perna é reconhecer, de uma vez por todas, o respeito ao livre-arbítrio alheio e a educação como via de mão-dupla – afinal, ensinamos aprendendo mutuamente. Isso tem sido minha grande aventura de pai-coruja: abrir mão do que eu acho imutavelmente certo para aceitar iniciativas diferentes da minha imaginada infalibilidade auto-suficiente. E quem disse que controle remoto não pode ser fatia de pão?!

Neste momento filosófico-existencial (só porque ela está dormindo placidamente!) tento ousar com respeito imaginando como é Deus olhando para nós. Somos inexplicáveis e inconsequentes como prova de que também não passamos de crianças crescendo. O Todo Poderoso, capaz de lançar galáxias pelos ares feito confetes em Suas mãos, deve olhar pra nossa pequenez e balançando a cabeça, dizer: “é incrível como o ser humano ainda tem muito que aprender!”. Consegue pensar no Criador sentado na plateia enquanto a criatura se acha uma divindade só porque “planta bananeira” lá no palco? Minha filha garante que pular pelada em praça pública é a coisa mais maravilhosa – só que “no seu mundo”. E nós cismamos em nos iludir de que “damos conta do recado sozinhos”. O resultado disso? “Pagamos micos” homéricos restando apenas nossos galos doloridos na testa após as cabeçadas dadas. Por isso, pergunto: que tal aproveitar a vida como aprendiz assumido de Alguém que nos ama tanto? Não é melhor reconhecer o quanto podemos apreciar desta relação de dependência protetora?

Quando a gente ama demais, o único revés disso é que o tempo voa ainda mais rápido. Assim como minha filhota ferve meu sangue ao jogar pedaço de banana mordida dentro da minha pasta de trabalho, ela derrete meu coração quando penso na rapidez com que isso vai passar. Cedo ou “mais cedo ainda”, sentirei falta de me ajoelhar engravatado pra dar aquele abraço imenso num corpinho correndo alucinado em minha direção ao voltar pra casa no fim do dia. Ou verei o quanto valeu a pena me esforçar por deitar no chão deixando-a escalar como alpinista o Everest do meu peito (que pra ela é super sarado!). Se ela errar, eu estarei lá – se eu errar, Ele estará lá. E por isso não dá pra brincar com a fugacidade do TEMPO. Porque tudo passa muito rápido, e logo-logo aquele escorregador de plástico que hoje parece sua eterna Disney de todas as tardes, virará uma irrelevante imagem de fundo quando ela passear por ali de mãos dadas com seu novo namorado.

Com tudo isso, que tal juntar-se a mim nesta jornada da vida se reinventando momento a momento? Não deixe que a saudade se deforme em peso de consciência. Impedir que uma lágrima escorregue involuntária pelo canto do olho ao ver um rolo impecável de papel higiênico numa casa de gente crescida, será improvável. Agora, envergonhar-se sob a frustração de não ter degustado as peripécias de uma criança incrivelmente inexplicável talvez seja imperdoável. Pra quê perder este pedaço da melhor parte? Curta pra valer aquilo que faz a vida curta. Porque os filhos crescem, enquanto os chefes onipresentes já cresceram. As traquinagens desaparecem, a despeito das agendas aparecerem cada vez mais cheias. Os gritinhos sumirão e os celulares seguirão sempre tocando. Os carrosséis perderão a graça, mas as reuniões de negócio permanecerão ingratas. Não haverá mais joelhos esfolados, nem pedaços de brinquedos espatifados sob a cadeira de jantar, porém os compromissos causticantes nunca sumirão. Entende o recado? Se tem coisas que passam – e outras que estarão sempre lá – valorize o que não voltará mais. Seja filho assumido de um Super Pai do Céu, e não abra mão de ser um paizão ou mãezona assumidíssimos de seus super-presentinhos-vivos desta Terra. Você sentirá falta daquilo que o tempo carregou sem nem pedir permissão, mas sentirá o doce conforto por ter feito o que podia enquanto pôde.

E meu controle remoto voltará a servir apenas para zapear de canal. Nada mais.

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