Lembrete das Nuvens

mar 25, 2012 by

Lembrete das Nuvens

“Afinal, se ser pai é morrer de saudades, que não seja do peso de consciência”

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Passaram oito meses. Meu outro “dever de casa” foi cumprido. Finalmente, volto aos meus desabafos pessoais de Pai Coruja. Ah, e mais paizão e corujão que nunca!

Neste período, minha filha desabrochou num buquê de orquídeas. Cada florzinha compondo a flor maior, e todas juntas fazendo o que ela é: linda, surpreendente e imprevisível.

Hoje, ela beira os três anos de puro deslumbramento. Sua mente está afiadíssima, suas iniciativas são hiper criativas e, acima de tudo, sua maneira de se expressar perante a vida é inacreditável.

A última dela foi uma declaração de amor à distância que aproximou meu ego da beiradinha do Éden. Saí para uma viagem sem saber que levava na mala uma bomba relógio. Daquelas capazes de explodir minha rotina masculina transformando-a num alento de nostalgia. Como sempre, foi só eu acabar de entrar no quarto de hotel e já fui abrindo minha mala pra pendurar terno, camisa e gravata. Só que, de repente, após o ruído do zíper sem graça, com que me deparo? Uma folha branca repousando em cima de tudo como se fosse o portal cósmico para outra dimensão – a da felicidade indescritível.

Ali estava o desenho de um macaquinho e um leãozinho pintados a dedo com tinta guache. Cada um foi cuidadosamente colorido com cores vibrantes – vermelho e laranja. Os limites do desenho impresso do computador, obviamente, foram completamente desrespeitados. E, apesar de se ver ali mais um borrão com traços convulsivos, pra mim foi a maior obra de arte dos meus dias até aqui. Um delicioso beijo de Deus esvoaçando minha imaginação…

É claro que tinha o toque humano-divino da mãe nisso tudo. Mas foi incrível: uma perfeita composição de amor das duas mulheres da minha vida capazes de me quebrar das pernas ao coração. Pegando o papel entre os dedos, sorri sem ninguém me ver naquele quarto solitário. Olhei pra cima, suspirando profundamente, e pensei: obrigado, Senhor, pelos lembretes que escapam lá do Céu pra nos acariciar aqui na Terra.

Oito meses depois, reconheço sob juramento da corte a verdade que me arrebata: quando Deus coloca pessoas em nossa jornada sempre chegaremos melhores ao destino final. Ou seja, se o horizonte da chegada é a plenitude tão sonhada, o percurso da viagem vira os dias experimentados um após outro do lado de cá da eternidade. E é nesse hiato – entre nascer e chegar – que o Criador põe “gente com a gente” pra tornar tudo isso aqui uma aventura mais fantástica.

Percebe como as pessoas que amamos são capazes de nos fazer viajar no tempo? O presente vira e mexe nos reporta ao passado e, constantemente, nos motiva ao futuro. Assim como um papel enrugado pelo exagero de tinta seca me transladou às lembranças mais doces, ao mesmo tempo me deixou totalmente impaciente pra apressar o futuro do reencontro pra já! E, por isso, quem ama de verdade é carregado por sensações atemporais que nos surpreendem.

Um abraço repentino, aquela olhada inesperada, mãos envelhecidas entrelaçadas, ou até o sorriso feito um enigma que só os dois sabem decifrar, todos são estímulos únicos feitos pra nos lembrar de que os relacionamentos são nossa maior fortuna universal. Só que o problema é a ameaçadora tentação de menosprezarmos esta riqueza d’alma pra encher nossos bolsos tontos carregados de expectativas passageiras.

Uma promoção na empresa compensa um débito no lar? Um bônus no salário desculpa a falta imperdoável no teatrinho da escola? E até que ponto o profissionalismo corporativo não obriga um amadorismo afetivo? Tenho pensado cada vez mais nisso – e me preocupado ainda mais com o além disso! Afinal, se ser pai é morrer de saudades que não seja do peso de consciência.

Portanto, dobrarei com cuidado esta folha lambuzada da tinta mais preciosa do mundo – a do amor singelo superfaturado em pequeninas atenções. Guardarei na minha pasta como um lembrete imbatível: pessoas que amamos não podem pagar a dívida pelas coisas que almejamos. E voltarei logo pra casa – feito fã descontrolado – pra uma surpreendente missão: pedir o autógrafo da artista que conquistou minha pátria emocional.

Mas ela saberá assinar seu nome? Sem dúvida! Toda vez que me fascina com um beijo fofo gritando entre os espaços de seus dentinhos: “papaaai, fortão! Você voltou!

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