T-Rex versus pingüim

jul 28, 2010 by

T-Rex versus pingüim

“Quem vive sob a tirania da pressa deixa todo mundo pra trás e nem percebe que ficou sem ninguém do lado”

 

Minha filha aprendeu andar – e eu desaprendi.

Enquanto ela tropeça na fome descontrolada por passos gigantes, ao lado dela me impaciento medindo os meus com milímetros. Pra mim, andar va-ga-ro-sa-men-te é divertido como enxugar gelo – e, ultimamente, virei especialista na categoria.

Não é pra menos, nós dois juntos somos a perfeita materialização da frase “os opostos se atraem”. E como! Suas coxas gordas e arqueadas desfilam trôpegas na altura da quarta parte abaixo das minhas pernas de garça. Sua paisagem são minhas canelas exercitadas jogando xadrez. Seu andar desgovernado, embalado numa fralda de tanajura – e com braços em convulsão – parece de um gorila-mirim tentando assustar alguém (as mães vão me matar!). Mas é verdade! Ela veste chinelinhos Crocs número 4, eu calço um trambolhão 43 – é a marola do barquinho de papel perto da lancha.

Dias atrás, eu controlava meus nervos “correndo centímetros” na maratona dela, quando senti um calafrio de vergonha beirando o vexame mundial. Enquanto segurava seu pequeno antebraço com quatro dedos da minha mão, dei um passo maior do que ela. Seu bracinho retesou, o corpo esticou, as pernas flutuaram, e um sobrevôo de meio metro antecedeu uma aterrissagem estrondosa estrebuchada no chão. O universo feminino estremeceu e fui imediatamente odiado pelas mães do mundo. Minha esposa – a melhor de todas elas – me abduziu num olhar fulminante alertando sem clemência: “caaalma! vê se anda no ritmo dela!” O buraco sonhado não abriu sob meus pés e segui envergonhado mundo afora – pensando o impensável.

Prepare-se, porque vou puxar o gatilho.

Vamos tocar no assunto da pressa – ou a obrigatória ausência dela quando caminho com minha filha. Esta palavra tornou-se onipresente na geração de quem quer chegar lá. Este “lá” propulsiona a impaciência dos obcecados por um “logo ali”. E ninguém mais aguenta esperar. Corremos como malucos ridicularizando quem não entrou no mesmo hospício que nós. O pior é que quando aparece um extraterrestre apelando para a conscientização do pé aliviando o acelerador, imediatamente racionalizamos: “lá vem outro bicho-preguiça defendendo o ritmo da lesma no batuque do meu dia-dia”. E seguimos nossa rotina hipertensa assombrados pelo enfarte do tempo.

Prefiro fazer poeira que comer”, inchou-se um bem sucedido neurótico pra mim. “Não deixe pra fazer hoje o que já devia ter sido feito ontem”, berrou outro chefe maníaco. “Corra mais para ganhar mais”, “vencedores contam centésimos, perdedores os minutos”, e esta ladainha perpetua-se fabricando mais frases de efeito pra validar ansiosos engolindo hot-dogs no caminho pro trabalho. Se a pressa era a inimiga da perfeição, hoje virou amiga da autopromoção. Todo mundo se gaba em exaurir-se nas trincheiras da afobação. Quem de lá sobrevive, cisma que velocidade é sinônimo de competência e obriga liderados pularem deste mesmo trampolim em piscinas vazias – apressadíssimos.

Na verdade, minha filha de passinhos tortos nem percebeu a terrível lição que me obrigou a re-aprender. De mãos dadas com ela, voltei à alfabetização da felicidade: viver a vida no ritmo de curtir a vida. Concorda? Claro que eu posso correr mais do que ela! Meus passos são do Tiranossauro Rex competindo com os do pingüim. Mas sabe o resultado ridículo disso tudo? Chegarei “lá”, sim! Sozinho. Quem vive sob a tirania da pressa deixa todo mundo pra trás e nem percebe que ficou sem ninguém do lado. Os hipnotizados pelo pódio não vêem relacionamentos destroçados largados pelo caminho.

Isso compensa? Andar no shopping de mãos dadas com minha princesinha prova que não! Até as tartarugas são mais velozes, mas não admitirei um cronômetro insensível roubar este privilégio de mim. Melhor é pisar no freio da pressa e colecionar lembranças de momentos ímpares eternizados pelo tempo.

Minha adolescência presenciou a composição de uma letra cujo vocalista se foi cedo demais: “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã” Pressa mesmo? Só se for pra conhecer gente, amar gente, aprender com gente e fazer outros se lembrarem da gente. Outro grande sábio avisou: “tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu, (…) tudo fez Deus formoso no seu devido tempo” (Provérbios 3:1 e 11). E você ainda acha que o Criador investiu sete dias no processo porque não sabia ser mais imediatista na criação do mundo? O próprio Todo-Poderoso segue um padrão rítmico de fazer as coisas na onisciência do momento certo. E nós, que podemos confiar inteiramente em Seu poder, acabamos agitados e agitando todo mundo ao redor. Como dinossauros, atropelamos pessoas, perdemos as boas recordações, e a aposentadoria assombra colapsar quem jamais parou um pouco para amar muito.

Que tal sermos práticos nesta batalha de todos nós? Pense com calma:

- Relógio é pra pendurar no pulso do dono, não o dono se pendurar no relógio. Ou seja, pessoas serão sempre mais importantes que ponteiros. A pressa desgovernada inverte este valor inestimável. Veja o ser humano como prioridade e não como mera oportunidade. (Ou você gosta de falar com alguém cujos gestos revelam afobação em outra coisa?). Voe atrás de seus sonhos, mas não se isole dos sonhadores ao seu lado. Deixe-os em primeiro lugar e os segundos britânicos em segundo.

- Gaste menos tempo feito barata tonta e mais tempo planejando. Se você listar os compromissos inadiáveis do dia verá que os minutos correrão com você e não contra você. Quem se afoga no copo d´água é porque não gastou momentos importantes organizando os goles pra tomar. Escrever as tarefas no papel geralmente dissipa a fumaceira revelando brasas distintas. Isto facilita a solução dos problemas pela frente. Sem contar que uma agenda objetiva diária tira do caminho os “corvos da perda de tempo” (voem pra lá! atrapalhando a produtividade de outros).

- Corra mais para correr menos. Nosso corpo é um instrumento maravilhoso de resposta imediata à atenção despendida a ele. Fazer exercícios regularmente areja a mente, reforça o bom humor, motiva o sono saudável e acelera a tomada de decisões. Suar a camisa no esporte é bem melhor que ensopar a gola do colarinho estressado. Você achará muitos atletas disfarçados de líderes entusiastas, dinâmicos e competentes. Ainda me lembro do slogan pra vender prancha: “Quer surtar? Vai surfar!” Treine seus músculos para trabalharem a favor da sua mente. Exercite-os e ganhe tempo.

- Seja implacavelmente sabático. O descanso é inegociável. Parar uma vez por semana é condição vital para o bom rendimento de uma vida inteira. Se até o Criador descansou no sábado é no mínimo inteligente a criatura também priorizar a interrupção da rotina. Deus não parou porque cansou, mas porque sabia que nossa afobação cansaria. Reabastecer as forças nem sempre se faz dormindo, mas fazendo força em outra direção. Saia com a família, vá a uma igreja, leia um bom livro, pise descalço na grama, enfim, fique off-line semanalmente e surpreenda-se com a energia de sobra.

- Apresse-se… para ouvir! Quem corre que nem louco jamais ouvirá feito são. E quem não sabe escutar os outros, desfila como um brutamonte de luta livre – agredindo ao interromper conversas, socando ao dar as costas pros que falam, e chutando todos falando neuroticamente sem parar. Quer saber? Pára com isto! O ser humano gosta de ser ouvido e admira muito quem lhe dá este direito. Se você fica impaciente já na metade da frase do outro, além de lutar minha própria luta, lembre-se que isto é deselegante e até ofensivo. O silêncio lhe dará tempo pra respirar, avaliar, formular ideias consistentes e aumentar o fã clube de pessoas mais felizes ao seu lado.

- Faça-se de pingüim. Finalmente, reduza a marcha e passeie pela vida ao lado de quem você ama. Force-se a saborear os momentos únicos. Os apressados não têm histórias sublimes pra contar – a impaciência não os deixa escrevê-las. A família, o cônjuge, os amigos de aço, ou filhos de ouro, todos estes são tudo o que temos para viver de verdade – e não apenas existir. Este tempo precioso não voltará nunca mais. Um dia minha filhinha crescerá e eu ficarei pra trás com minhas pernas envelhecidas tentando acompanhar seus passos de mulher. Ela correrá rumo ao futuro e eu, um pouco mais lento, buscarei nas lembranças deste passado a consciência tranquila dos nossos desengonçados passeios de hoje. E você também não se arrependerá de amar curtindo o tempo com quem já lhe ama oferecendo tempo.

Posso fazer um derradeiro pedido? Termine este texto e não faça nada. Absolutamente nada. Apenas pense, reflita, desvie o olhar do pulso e concentre no coração. Lá no fundo você descobrirá o que fazer e o com quem fazer.

Acima de tudo – sem pressa.

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