A Volta por Cima

jul 27, 2010 by

A Volta por Cima

“Acredite, você pode dar a volta por cima e ser um sobrevivente na selva das más notícias!”

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É sempre bom assistir a vida dando a volta por cima. Leio uma notícia que soaria roteiro de terror se não fosse real. O relato de um delicioso engano.

José Alvarenga, o ansioso pai apaixonado, aguardava a porta do elevador se abrir. Em seus sonhos, um médico sorridente surgiria trazendo sua jóia viva nos braços. Não foi o que aconteceu.  A porta se abriu e o médico surgiu. Mas, nos braços, apenas uma caixa de papelão. O atestado de óbito confirmava seu conteúdo: Ângela Rossana nasceu cedo demais, com 24 semanas – e peso de menos, 500 gramas. Não resistiu. Naquele momento, o chão se abriu, mas o pai não conseguiu cair dentro. Ficou suspenso nos ares tentando entender.

Agora, uma família pobre no interior do Paraguai tranca o quartinho do bebê e prepara o funeral de quem nem teve direito de viver um pouquinho. Horas se passam e a reserva de lágrimas seca. Nunca é fácil dizer adeus – pior ainda quando nem se disse “oi”. De repente o imponderável acontece. A tia olha pra caixa, vê um pequeno tremor seguido de um ruído abafado. Os olhos arregalam e os corações gelam. “O bebê está chorando! Está chorando!” A caixa é aberta às pressas, o inacreditável salta diante de todos. Os gritos por sobrevivência comprovam a força de um ser reivindicando viver.

“Só então percebemos que, na verdade, era um menino! E estava vivo!”, reconheceu o pai, tão assustado quanto agradecido. O hospital não entendeu nada, mas garantiu que tentaram mais de uma hora ressuscitar o bebê. Imediatamente, o quarto infantil foi reaberto e o afago da vida invadiu a casa. Com presentes assim é melhor não questionar muito.

Amo notícias assim. Sou fã assumido de todas elas. Não porque a desgraça acaba valorizando ainda mais a graça. Mas porque não suporto ver um ponto final nas histórias de sonhos. No máximo uma vírgula, até vai. Porém, que venha alguma coisa boa depois! A continuidade da esperança é bem-vinda. Um relance de sobrevida já conforta nossa alma. Concorda comigo?

Dias atrás outra volta por cima. Um enorme pássaro de aço, com 153 pessoas a bordo, tentava aterrissar no miolo de um vendaval. O aeroporto nas Ilhas Comores, costa leste da África, abrigava familiares ansiosos pelo abraço no desembarque. Crianças assistiam à chegada do Airbus A310 através do vidro. Ele aponta nas nuvens, mas algo acontece. Antes das rodas encostarem o chão, a aeronave arremete bruscamente. Socos de vento são disparados sobre ela. Em segundos apavorantes, o avião se lança para o lado e tenta se agarrar nas nuvens. Tudo em vão. Sem estabilidade, mergulha no Oceano Índico para mais um trágico acidente aéreo.

Equipes de salvamento vasculham as águas cobertas por vestígios do horror. Metais retorcidos, focos de fogo, poltronas despedaçadas e corpos imóveis espalham-se desordenadamente. Muita fumaça, nenhuma vida. O silêncio revela o que mais detesto: um ponto final.

Mas, inesperadamente, o ponto se transforma. Treze horas depois, agarrada a um pedaço de assento, uma garota de 14 anos, Bahia Bakari, foi achada sobre o mesmo mar que levou sua mãe. No entanto, ela estava viva! Era uma sobrevivente. Uma vírgula para escrever um relance de esperança. Acredita-se que ela estava exatamente na hora certa e no lugar certo. Ficou no único local partido do avião e a uma distância aceitável do impacto sobre a água. Lançada para longe, boiou por horas, perdeu a consciência, mas garantiu para nós uma luz no fim do túnel.

Por que tem que ser assim? Uma vida contra 152? Isso nos tranqüiliza? Claro que não! Jamais! Mas algo dentro de nós se anima ao ver a vida dando a volta por cima. Afinal, tragédias nos agarram por onde quer que vamos. Notícias inaceitáveis nos perseguem a toda hora. É como um cadáver grudado em nosso pescoço apodrecendo nosso otimismo. Ou um trapo fétido e úmido de atrocidades escandalosas que nos envolvem dia-dia sufocando a alegria. Um site exibe na home page o ar da desgraça: mais uma criança arrastada pelas ruas presa no carro roubado. Na rádio, nossos ouvidos oscilam entre hits de sucesso e lembretes mal-assombrados: chacina extermina família inteira na véspera de Natal. O mesmo canal que distrai com filmes engraçados, tem que nos fazer lembrar a podridão: monstro prende filha no subsolo e a estupra durante 24 anos. Não gosto nada disso.

É por isso que amamos finais felizes – surpresas colorindo o céu de arco-íris. Precisamos disso, senão sucumbimos. Uma garota nocauteando a morte no ringue de um acidente ou um neném chorando forte no próprio funeral; tudo isso são janelas que se abrem para respirarmos uma lufada de ar fresco. Como um carinho na pele sofrida trazendo a brisa do Céu.

Aí está, para mim, a maior prova de que existe Algo muito mais forte que o acaso. Você até pode ficar com sua explosão cósmica espalhando universos à deriva do talvez. Eu prefiro vasculhar meus próprios incômodos e ver que aqui dentro algo anseia por mais. O despropósito da humanidade ateísta se encolhe diante de incontáveis humanos pulsando por dias melhores. E estes dias existem. Têm que existir.

Agora entendo porque toda vez que Cristo passou num velório transtornou completamente o ambiente. Você se lembra de Betânia? Ele se especializou em estragar os planos de qualquer funeral. Era só Jesus chegar perto de um caixão e os demônios já perdiam a graça na festa do inferno. Foi sempre assim. Imagino um anjo caído reclamando para outro: “Lá vem o estraga prazeres de novo! Ele não consegue se controlar um pouco mais?!”. Frustração para eles, exultação para nós.

“Eu Sou a ressurreição e a vida. Quem crê em Mim, ainda que morra, viverá” (Jo 11:25). Isto, sim, é dar a volta por cima. Uma promessa mágica de um Deus impaciente que vê na morte a ambição barata do mal pretendendo subir no pódio. Ele não dá espaço para uma serpente rastejante querendo criar pernas. Pecado é pra ficar no chão – lambendo poeira como medalha. Aí está a razão de Cristo virar enterros de cabeça pra baixo com defuntos para fora. Sacando um adiantamento de poder da conta de crédito do Calvário, manda sem rodeios: “Sai daí, Lazaro!” A ordem foi nominal, senão todos os mortos viveriam. Que tamanho poder! Este é o Salvador que põe a miséria no seu devido lugar.

Não tem pra ninguém, só Ele pode pisar na cabeça do mal – mesmo com seu calcanhar machucado. A serpente conseguiu ferir o tornozelo. A dor de se abandonar numa cruz mereceu um curativo. Mas a vitória garantida trouxe poder às palavras mais absurdas “e todo aquele que crê em mim, nunca morrerá” (Jo 11:26). Esse é o grito eufórico do supremo vencedor com troféu na mão. Rebaixa a morte a um mero sono. Ninguém consegue acordar, eu sei! Só com a voz do Messias. Mesmo assim, não passa de um sono. E Ele não quer Seus filhos dormindo muito tempo por aí.

Acredite, você pode dar a volta por cima e ser um sobrevivente na selva das más notícias! Levante-se desta lama oleosa do desânimo coletivo. Se vozes derrotadas tentam anular seu valor, grite forte, ainda que dentro da caixa de papelão. Reivindique a esperança. E toda vez que o medo traiçoeiro beliscar os pés, chame O “estraga funeral” para por tudo em seu devido lugar. E todos também.

Deus está ansioso por provar a Seus filhos que é Pai nos piores momentos. Para mostrar, na prática, “qual a suprema grandeza do seu poder para conosco, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder” (Ef 1:19). Eu e você somos a maior exceção à regra na lógica do pecado. A Lei sempre alertou: pecou tem que morrer. Mas Deus concede uma alternativa rara. É só agarrar firme, com força vital, os braços dAquele que viu no olhar de Lázaro os nossos próprios olhos marejados. Foi um reencontro de todos nós.

Sobreviva nesta saga do amor divino. Afinal de contas, não é sempre que se pode dar a volta por cima. E como a oportunidade surgiu, aqui e agora, esteja exatamente lá – sentado no lugar certo e no momento certo. Nem que você seja o único sobrevivente.

(Junto comigo, eu espero!)

Ah, e sobre o ponto final? Que vírgula, nada! O fim de todas as coisas será um precioso sinal de reticências, para a eternidade escrever o resto…

Vai ser bom demais sobreviver para sempre!