Adesivos de Deus

abr 14, 2012 by

Adesivos de Deus

O Pai do Céu nunca deixará de dar uma passadinha pelos seus sonhos

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(Ouvi de um amigo e imaginei um conto…)

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O pai e o garoto eram cúmplices de aventuras únicas. Um não vivia sem o outro e ambos se completavam em tudo. Até porque o filho sempre preferia trocar as muletas pelos ombros do seu super-herói. E a deficiência física se superava no carinho da amizade.

Os dias voavam enquanto as noites revelavam uma tradição: o menino só zarpava rumo ao mundo dos sonhos se o paizão contasse suas histórias incríveis – sem exceção. Daí, ele dormia em paz beijado por aquele que lhe amava demais.

De vez em quando, a fábrica de peças precisava de horas extras. E toda vez que o pai voltava no turno da madrugada ele cumpria uma promessa infalível: colava um pequeno adesivo na cabeceira da cama sinalizando que esteve ali acordado, ainda que o garoto já estivesse dormindo.

Quando o dia raiava, a primeira coisa que ele fazia era achar o sinal da garantia que seu pai havia passado ali. Seus olhos brilhavam ao confirmar que, mesmo durante o sono, seu “melhor amigo” jamais se esquecia dele. E cada adesivo tinha um significado especial. Se o dia tinha sido pura festa, o decalque era de um balão colorido ou um sol radiante. Mas se tivesse dificuldades – com prova na escola ou uma bronca da mãe – o desenho ia de um braço musculoso até algum animalzinho resistente como cavalo, leão ou águia.

Um dia, porém, a cidade entrou em colapso sob a notícia inesperada da Grande Guerra iminente. Homens de bem foram convocados pros campos de batalha do mal. Viver seria a maior incerteza de todas, e a procissão de despedidas virou coro de lágrimas pelos lares. O garoto não entendeu nada, muito menos o derradeiro aceno do seu pai olhando pra trás.

Naquela noite, seu visitante ilustre não veio. Nas noites seguintes, também não. O choro abafado no travesseiro denunciava a sombra da saudade. Com a tristeza apertando o coração do filho, aquela mãe já não sabia mais o que fazer. E sem notícias do marido – olhando o par de muletas na parede – foi na angústia que cintilou um raio de esperança. De sobressalto, ela se lembrou da cartela de adesivos.

O amanhecer seguinte varreu a noite embora. O menino se espreguiçou esfregando os olhos e, de repente, deu um grito que há muito não se ouvia: mãe, olha quem veio aqui!”. Seu rosto arregalado quase grudava num adesivo de sorvete. Sim, haviam passado por lá, e isso era tudo o que ele precisava saber pra voltar a sorrir.

A partir dali, todas as manhãs traziam consigo um desenho colado pertinho do garoto. De caricaturas a objetos intrigantes, os dias passaram e a cama encurtou pra tantos adesivos. Apesar dele não ver, não havia dúvida: seu super-pai estava dando uma passadinha por lá. E enquanto a parede do quarto virava um mosaico de figuras sem fim, o filho se animou pra estudar, brincar e acreditar.

Finalmente, certa manhã um carro oficial estacionou na frente da casa. Olhando pelo vidro da cozinha, o sangue daquela mãe congelou num calafrio de medo. Dois homens com uniformes de gala saíram lentamente do veículo. As pernas da mulher esmoreceram sem forças enquanto se ouviu a voz do juvenil, agora mais crescido, gritando: “olha! o adesivo de hoje é um farol!”.

Recobrando a consciência pelo susto, as batidas na porta despertaram a mãe no corredor. O que ela não havia visto era que os dois soldados tinham ajudado um terceiro a sair do banco traseiro. Apoiado pelos braços, o inesperado herói retornava ao lar superando o imponderável da morte.  Nem medalhas, nem cicatrizes, chamaram a atenção dentro daquele abraço tão apertado a se perder no tempo.

Em meio àquela alegria, o garoto surgiu nas escadas fotografando na memória a imagem de seus pais juntos novamente. Até que o olhar de um se reencontrou com o outro. Seu melhor amigo estava de volta – após tantas batalhas pela vida. E antes que o herói dissesse qualquer coisa, o que se ouviu foi um desabafo afobado:

Pai, eu tinha certeza que você voltaria! O quarto já estava pequeno pra tantos adesivos. Hoje à noite, você fica do meu lado contando histórias de novo?

Enquanto a mãe tentava se explicar numa piscada de olho, o homem envolveu o menino com seus braços fortes respondendo mais feliz do que nunca:

Sim, meu filho, eu voltei! Chega de adesivos! Para sempre.

Agora, nada mais importava.

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