Ainda Ame

out 21, 2010 by

Ainda Ame

“Por que geralmente preferimos um NÃO ao invés de encarar o TALVEZ?”

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9:45 – Sala de Embarque. Ele estava no local combinado. Ela prometeu que viria. Juntos, seriam felizes para sempre. Agora, restava deixar os medos pra trás e desancorar seu coração inseguro. O momento era do tudo ou nada – do nunca ou talvez. Queimariam as cordas libertando-se para navegar novos mundos. Eram cúmplices de sonhos únicos em sintonia com a individualidade dos dois. Tinham tudo pra viver a loucura de uma história sublime e intensa. Ela só precisava vencer traumas não cicatrizados na alma. Ele, esquecer o padrão de vida palaciano junto à plebéia de olhos cativantes. Mas, sem dúvida, foram feitos um pro outro. Pra quê controlarem à sombra dos protocolos sociais o que foge ao controle do coração? Amavam-se como se já soubessem disso antes mesmo de nascer. Por isso, ele continuava lá, esperando. Sonhando. Só que ela não veio. Nunca apareceu. Seguiram planos de voo diferentes. Jamais se viram. Mas sempre se lembraram. Do que poderia ter sido. De como teriam vivido. Juntos. E felizes para sempre.

Sou um nostálgico assumido. Quem me vê por aí nem imagina os sentimentos emotivos capazes de me arrastar lágrimas afora. Porém, como todo homem, disfarço; como pai, sou coruja; meu lado marido se fascina; e como humano, busco amar até fazer valer. Agora a pouco, fui soprado pra longe na brisa da imaginação. Já percebeu como é complexo pensar no amor e nos que amam? Perambulam por aí histórias nunca vividas – e, por isso, nem contadas – só porque a explosão potencial do amor se abafou em desencontros de quem simplesmente fugiu. Ou não quis enfrentar. Temeram a alternativa voraz e, acanhados, se empoleiraram na rotina previsível. Muitos optam pelo NÃO: cartas sem respostas; estações de trem nunca descidas; ligações não retornadas; olhares de relance ignorados e paraísos ímpares jamais visitados. Por fim, acabam colecionadores da saudade doída do “como teria sido se eu apenas tivesse…?” Me diz uma coisa: se o assunto é amar, por que geralmente preferimos um NÃO ao invés de encarar o TALVEZ?

Lá em casa, somos uma canção de amor dedilhada com paixão. Encontramo-nos depois de um bom tempo perdidos. Como amantes de aventuras radicais, pulamos juntos do bung-jump num namoro assombrado por forças contrárias. Não estávamos errados, mas incomodava. Finalmente, eu e minha esposa decidimos apostar pela nossa cumplicidade a tentativa de experimentar o verdadeiro sonho a dois. Largamos o óbvio e peitamos o frio na barriga de nadar contra a correnteza. Porque algo em nós clamava pela recompensa de enfrentar a incerteza do amanhã na esperança de achar a felicidade maior em todos os depois-de-amanhãs. E como valeu! Afinal, amar sempre foi sinônimo de se arriscar – até porque a zona de conforto não é parceira das experiências inesquecíveis que fazem nossa história valer a pena.

Quer saber, ainda não vi um casal apaixonado de aposentados arrependidos por ser exceção à regra. Existem incríveis sagas de amor desfilando de bengala no território dos mais jovens. E este amor de verdade, e duradouro, é pra poucos – só para alguns loucos, como espero endoidecer também. Sabe, a vida passa rápido. O tempo sopra mais forte do que nossas asas podem resistir, e vemos nossos dias escapando pelos dedos. Os filhos amadurecem no forno micro-ondas e, de repente, você já está lá: com dificuldades de achar seu ano de nascimento na barra de rolagem no cadastro da internet. Surge o clamor pela imortalidade. E pra que colapsar refugiando-se no botox? É melhor amar de graça do que esvaziar pagando caro. Um coração feliz é diamante achado na sucata das rugas implacáveis. Tem gente velha amando como jovens aventureiros e gente nova azedando a vida na mesquinhez da falta de perdão. O melhor é que todos poderiam degustar maravilhas assim. Até quem apanhou da vida? Sem dúvida! Gente ranzinza não pode se acomodar no berço dos mal amados. Você pode amar como nunca lhe amaram antes, exatamente porque preferirá qualquer futuro melhor desconhecido a este passado pior solitário. Então, por que se atolar num presente conhecido medíocre?

Adoro loucuras que deram certo. E não menosprezo as inúmeras outras que serviram de rascunho. Arrisque-se amando mais – não porque os outros merecem, mas porque você faz por merecer. Não espere dos outros, e culpando o universo ao seu redor, enquanto existem coisas só capazes de virem de você mesmo. Entregue-se – sem esperar uma rosa sobre a cama à meia-luz – mas por garantir seus melhores sonhos que ninguém rouba. Podem arranhar sua realidade, porém não deixe encostarem na sua personalidade. Talvez, até não valorizem o laço do pacote, no entanto o seu conteúdo exclusivo é uma digital só sua.  E se um cônjuge lhe dilui, o negócio é trocá-lo como um par de tênis? Creio que não! Apenas tente mudar o foco e admirar mais a paisagem do dia no passeio que seus pés lhe levem.

Como você tem administrado seus devaneios do coração? Viva como se um dia só lhe sobrassem as lembranças. Curta não somente o que lhe dá fôlego, mas exatamente aqueles momentos que lhe tiram o fôlego. Explore sentidos puros de quem não quer se envergonhar depois. Quer saber? O coração humano foi feito para amar mais do que para bater. Este sentimento divino supera a pulsação da própria vida. Não duvide do que Deus garantiu: “Porque o amor é forte como a morte” (Cantares 8:6). O amor pode tudo, inclusive o impossível. Por desacreditarem nisso muitos se sentem nada, mas teriam vivido tudo. Isso inclui a possibilidade de garimpar sua felicidade mesmo sem estar, necessariamente, com alguém de fora. Sabia disso? Solidão não é estar sozinho, mas sentir-se só! Tem muitos “sozinhos” bem acompanhados de si mesmos, e vários “acompanhados” frustrados por reduzirem suas encantadas expectativas originais. Perca o medo de estar consigo. Quem encalha por aí é só navio e baleia, você é gente! Portanto, aproveite-se como sua grande companhia. Isso inclui curtir, trabalhar, viajar e inventar alternativas criativas.

Não fuja da regra que lhe dá direito inalienável de ser feliz. Invista mais tempo construindo bons momentos do que gastando na obsessão de ganhar de todos. Viver passando os outros pra trás resulta em morrer frustrado com a felicidade lá na frente – inalcançada. Até porque isso não se alcança competindo, recebe-se como um dom somente quando nos doamos. Por isso, sou um eterno otimista na chance de aproveitar a vida. Defendo a extinção do “não” provocado pelo medo do “talvez”. Ainda amo, a despeito da rara esperança no “ainda”. Muitos sobrevivem, mas encontrar quem vive bem é mais difícil. Só pra entusiastas que enxergam poesia na declaração tímida do romântico desengonçado, que veem arte no mero muro pichado na madrugada. Ou para os crédulos que percebem num “sim”, lá no corredor florido, o desafio do “ainda dá” – antes das coroas de flores, quando já for tarde demais.

Quando foi a última vez que você se deixou levar pelo desejo de escrever uma linda história de amor? Não digo encenar, contracenar ou representar papéis escritos por roteiros de cinema. Eu digo redigir com sua própria vida – que ainda sente fome de saciar seus sonhos. Será que não é possível trocar as miragens acalentadas no travesseiro por realidades que deixariam qualquer romântico de queixo caído? Nós, de volta lá em casa, descobrimos que pra viver juntos um conto de fadas temos que proteger muito o próprio enredo de cada um. Não se vive apaixonado pelo outro sem antes admirar-se a si mesmo. Longe de ser orgulho ou egoísmo, “amar ao próximo como a si mesmo” (Mateus 19:19) é garantia divina de tornar os castelos da Rapunzel em solos firmes no dia-dia. Acha que não dá? Ainda dá! Ainda ame. Sempre convidamos Deus para agir em nossa vida como nosso Cupido nos primeiros momentos e nosso Padrinho pra todos os anos seguintes. E sabe o que Ele constantemente nos faz lembrar? “O coração do homem traça seu caminho, mas é o Senhor quem lhe dirige os passos” (Provérbios 16:9). Muito melhor do que insistir em percorrer estradas impossíveis é passear ao lado dAquele capaz de tornar tudo mais possível.

Jamais se viram. Mas sempre se lembraram. Do que poderia ter sido. De como teriam vivido. Juntos. E felizes para sempre. Rejeite finais assim. Muito menos com você. Sei que os filmes de fazer chorar terminam em amores impossíveis – inatingíveis. A tragédia do “nunca mais” imortaliza Romeus e Julietas por aí. Mas não quando o assunto é nossa vida real. Troque a noite no cárcere do NÃO pelo luar na janela do TALVEZ. Liberte-se das garras do JAMAIS arriscando aventurar-se na alternativa do AINDA. E se Deus for o primeiro a saber daquilo que você não conta pra mais ninguém, Ele lhe surpreenderá – pode acreditar! – porque o Criador sempre será o maior torcedor em ver Suas criaturas amadas experimentando Sua Própria essência divina. Afinal de contas, Ele é amor.

E por que não dar uma chance dessas pra você?

Ainda ame – feliz para sempre.

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