Beijoqueiro Imprestável

jul 27, 2010 by

Beijoqueiro Imprestável

“O mundo quer enxergar mais as testemunhas do que ouvir os advogados”

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Você compra um lustre de cristal para sua sala - surpreendentemente, ele vem sem encaixes para as lâmpadas.
O milionário compra uma Ferrari último modelo - ao sair da loja descobre que o veículo veio sem direção.
Um arquiteto projeta o melhor hospital - mas o pronto socorro está na cobertura do edifício.
O perfume do buquê de rosas invade a casa - a jovem romântica vasculha as flores percebendo que não há cartão nenhum.

“Pare aí. Que situações ridículas são essas?”, você se incomoda.
Eu concordo: A utilidade das coisas confirma a importância delas. Afinal de contas, ninguém adquire algo sem uma razão de ser.

Já percebeu como tudo na vida precisa ser relevantemente útil de alguma forma? O óbvio do resultado prático é escandaloso. Ou você compraria uma geladeira só funcionando a 30º C? Que tal uma caneta Mont Blanc com a tampa soldada? E uma TV-3D, de 60 polegadas, cuja tela é uma pintura a óleo?

Chega de devaneios. Antes de minha sanidade ser questionada, paremos aqui. Afinal, ninguém seria louco de usar a TV de LED para exibir uma pintura, nem se preocupar com a vista maravilhosa da janela de um pronto-socorro. Tudo tem uma razão de ser – e vale pelo que se propõe a fazer.

Nós sabemos disso. Jesus sabia disso. E o público-alvo de Cristo também. O curioso é que havia um grupo de pessoas que adorava vender calendários sem as datas escritas. Era o tipo de gente que se impunha sobre os outros com coisas sem sentido. Verdadeiros profissionais do absurdo inútil. Se você visse um grupo de fariseus conversando, podia ter certeza, lá vinha mais uma bicicleta sem pedal! A religião estava um absurdo – com uma “verborragia platônica” sem praticidade alguma. E abaixo deles estava um povo sedento, comprando uma bomba d´água no deserto,  pra descobrir depois que ela exigia água para funcionar.

Ninguém aguentava mais. Todos estavam cansados de inutilidade. Era uma relação entre líderes e liderados na iminência do litígio. Pois um marido apaixonado que presenteia sua amada com uma belíssima gravata de seda italiana, além de egoísta, precisa de um tratamento psicológico. Aqueles líderes espirituais também. E o terapeuta veio da maneira inesperada: um carpinteiro com sandálias de liquidação. Ninguém mais do que um “qualquer” perambulando por aí.

Cristo foi o professor mais prático que já existiu. Sua revolução se fundamentou no óbvio. Tudo o que Ele fez foi mostrar à multidão que estava dentro de uma padaria só vendendo sapatos. A máscara caiu, e a praticidade crua das necessidades humanas explodiu na superfície. Alguns buscavam soluções práticas para casamentos falidos. Outros como restaurar a auto-estima. Havia mulheres rejeitadas e homens desempregados. Enfim, todos estavam famintos e cansados de restaurantes com cardápios de flores. Não suportavam mais soluções desconexas enquanto a ânsia humana sempre foi por salvação – nada mais.

Quando Jesus acabou de proferir estas palavras, estavam as multidões maravilhadas de sua doutrina; porque ele as ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas.” (Mt. 7:28 e 29) Esse texto é o desfecho espetacular dos dramáticos capítulos cinco, seis e sete de Mateus. Algo para se grifar na Bíblia e incomodar os arrogantes. Captou a ironia inspiradora? Cristo maravilhava as pessoas exatamente pelo oposto daquilo cujos escribas maravilhavam-se a si próprios.

Ninguém quer música de presente quando está morrendo de sede. Nem máquina fotográfica se a febre passa dos 40 graus. E era exatamente disso que Jesus mais entendia. Enquanto os fariseus apoiavam sua autoridade na tradição incoerente, Cristo adequava cada oportunidade à necessidade de quem Lhe ouvia. E tornou a religião algo intensamente prático e útil.

O Sermão da Montanha é um tratado universal de inteligência esclarecendo a lei mais básica da venda: todo produto tem que suprir alguma necessidade – mesmo que o consumidor precise ser lembrado disso. E Jesus foi o maior especialista que já pisou por aqui para adequar a urgência eterna ao clamor de cada um de nós. Quando Ele falava, todos ouviam. Não porque Ele “era” uma autoridade com credenciais judaicas, mas porque ele “tinha” uma autoridade incrível conquistada no exemplo da coerência prática. Seus ensinamentos se revestiam de relevância porque refletiam os anseios mais humanos daqueles que Lhe cercavam.

Esses dias minha princesa encantadora estava aos berros. Tenho uma filha que esnoba glamour quando desfila nos meus braços orgulhosos (e eu adoro pegar carona nos elogios que vão pra ela!). Mas quando a Thalissa decide chorar, nem concreto cimentando os ouvidos abafa tamanha sinfonia super-atômica. Foi quando comecei enchê-la de beijos. Quanto mais ela gritava, mais eu beijava. Assumindo meu desespero incompetente comecei fazer grunhidos debilóides com abraços sufocantes. Ela gritava mais. Eu beijava mais ainda. Até o momento que sua mãe chegou como imperatriz reivindicando seu trono. Suas palavras pareciam um cetro real me relegando ao sub-lugar de súdito ignorante:

“Amor”, disse ela impaciente, “não existe beijo no universo que faça calar um bebê há mais de três horas sem mamar!” O beijoqueiro reservou-se à sua insignificância e entreguei humildemente meu neném para quem, ao invés de beijos estatelados, tinha leite em abundância (um dia serei mais valorizado do que desengonçado!).

“Mas SOU o pai dela”, eu poderia insistir. “E daí?”, berraria ela com sua garganta escancarada, “quero mamaarrrr!!”.

E ela está certíssima! Não adianta ser autoridade se eu não tenho aquilo que me dá autoridade. Meu carinho insistente não passava de autoritarismo irrelevante –  assim como aqueles que “eram” nos tempos de Cristo sem “ter” o que todos precisavam: uma solução!

O mais impressionante é que estes homens eram autoridades religiosas. Pagava-se caro para graduar-se na Universidade Farisaica. E a auto-enganação prosseguia: o povo pedindo perdão para a alma e eles oferecendo uma lista de regras impossíveis. Como resultado coletivo restava pessoas deprimidas por um peso de consciência insuportável. Exatamente neste momento surge um Galileu ensinando o amor prático como limonada gelada numa tarde de verão.

Na verdade, minha filha precisa de carinho, mas não quando seu estômago está puro vácuo. Se alguém está em pé faz horas, uma cadeira macia será mais preciosa do que um quadro de Picasso. São as necessidades que impulsionam o valor das coisas. Ainda me lembro quando visitei o museu do Louvre, em Paris. Depois de horas intermináveis gastas em quilômetros de obras de arte encantando minhas pupilas, tudo o que eu mais queria era um degrau de escada disponível para sentar. Não me venham com a Mona Lisa “logo ali” se nem sinto mais as pernas de tanto latejarem! (Na próxima vez visitarei a La Gioconda antes).

Exatamente por isso o cristianismo seguiu o exemplo de Jesus. Enquanto os fariseus babavam de ódio, Cristo ilustrava a salvação com luz, sal, lírios do campo e outras ilustrações do dia-dia: “ou porventura, não valeis vós muito mais do que as aves?”(Mt.6:26), assegurava Ele. E para os seguidores à procura de um modelo, “pelos seus frutos os conhecereis” (Mt 6:16).

Não sou contra a teologia profunda, mas cuidado com o teologismo ineficaz. Gosto de ver, na escandalosa trajetória messiânica, um Jesus que falou de maneira prática e, mesmo na hora mais apoteótica do plano da redenção, restringiu-se apenas a dizer: “tenho sede, e Pai, perdoa eles! Nem imaginam o que estão fazendo…”

Já pensou nisso? Jesus sempre entendeu as necessidades humanas, “porque Deus, o vosso Pai, sabe o que tendes necessidade, antes que lho peçais” (Mt 6:8). Ao invés de proibir caminhar quilômetros no sábado, Ele fez um homem andar depois de 14 mil dias parado à beira do tanque. Desviando a atenção dos abutres hipócritas com suas mãos cheias de pedras, desmascarou os pecados deles como sendo ainda piores que os da mulher adúltera. O Mestre foi prático. Matou a fome da multidão, não com um Simpósio Judaico de Filosofia Teológica, mas clonou pães e peixes para todos comerem até se entalarem na garganta. Ele pagou o imposto devido desafogando um lambari no fundo do mar. E quando todos os seus melhores amigos se entreolhavam perante a bacia d´água, o Salvador eternizou a humildade prostrando-se diante deles como servo do amor.

Isso é fantástico! Jesus TINHA autoridade, ponto final. Os fariseus apenas ERAM autoridade. “Ser autoridade” só depende de uma posição nomeada obrigando a obediência por medo. “Ter autoridade” é algo conquistado pelo exemplo de Quem cativa a devoção provocada na cruz. Cristo foi mais direto: “Guardai-vos de exercer a vossa justiça diante dos homens, com o fim de serdes vistos por eles; doutra sorte não tereis galardão junto de vosso Pai celeste” (Mt. 6:1). Consegue imaginar eles se contorcendo enfurecidos? Aqueles que “eram” complicaram tudo a ponto de matar para mandar. Aquele que “tinha” simplificou tudo de tal maneira que precisou morrer para salvar o mundo da complicação.

É por isso que sou admirador compulsivo das verdades aplicáveis. Toda vez que alguém vem com a Bíblia aberta para discutir como num ringue, eu me afasto e sigo meu caminho procurando o sorriso prático de quem vive os princípios bíblicos de um jeito feliz. E você, já aprendeu com Cristo a utilidade das coisas eternas? Tem conseguido ver na igreja mais do que beijos descontrolados para sua alma esfomeada de paz? Seus amigos veem no seu olhar a liberdade de quem descobriu o tesouro da Graça? Seus sermões são mais vividos do que pregados?

Fico me perguntando até que ponto minha filha aceita meu amor de pai mais por ação útil do que por obrigação ilógica. E até que ponto o mundo lá fora está mais impressionado com os cristãos práticos do que decepcionado com escribas modernos?

Helena entra na igreja procurando desesperadamente algo mais. Seu cheiro forte revela que, do perfume original, só restou o álcool. Após a noite insana, seu hálito também. Olhos vermelhos se escondem atrás de cabelos emaranhados. Suas roupas protegem muito menos do que seu corpo tenta mostrar. Envergonhada, senta-se no último banco apenas contando os segundos para ser escorraçada dali também. É uma escrava do mundo tentando passar despercebida no salão nobre da eternidade real. Não dura muito e é descoberta.

Uma mão encosta seu ombro trêmulo gerando um calafrio de desespero. A indignidade se apodera de Helena. O encanto de fadas se quebra e a ilusão do disfarce se desfaz – está na hora de voltar para a abóbora. Uma voz firme ao pé do ouvido não lhe surpreende. E a ordem também:

“Por favor, jovem, venha comigo!” Ela se levanta virando-se para a porta de saída e depara-se com o corpo blindado do diácono em um terno de aço. Mas, imediatamente, o imprevisível acontece. Ele bloqueia o corredor no sentido de trás e acena apontando para frente. A garota não entende nada, absorta em vergonha e insegurança ao mesmo tempo. Caminha pelo corredor até um lugar na primeira fila. Olhares de aprovação dos lados sustentam suas pernas trêmulas. A igreja canta enquanto ela se espanta.

“Aqui você poderá acompanhar melhor nosso serviço de culto. Seja bem-vinda a Casa de Deus”. O homem se afasta sorridente. Helena sente pela primeira vez o chão sumir mais do que com as drogas alucinógenas de horas antes. Inacreditável! Ninguém precisa pregar mais nada. Ela já entendeu o que é relevante no tão falado cristianismo.

Entende o que digo? Essa igreja existe, certo? De verdade, ou só na imaginação de Deus? Tenho medo daqueles que complicam as coisas para tantas Helenas por aí. O Salvador garantiu “não julgueis para que não sejais julgados”(Mt. 7:1).

Cristo não “pregou” o Sermão da Montanha. Apenas registrou em palavras o que já era prático na Sua vida. Isso deu a Ele mais autoridade do que àqueles que só eram de falar. Da próxima vez que pensar em religião reflita se ela está sendo mais prática do que teórica. O mundo quer enxergar as testemunhas mais do que ouvir os advogados engravatados. Uma ação oportuna vale mais do que toneladas de discursos. E as bem-aventuranças são o resultado consistente de quem invade o núcleo do cristianismo que age, faz, resulta e sangra.

Por isso estes três capítulos de Mateus ensinam mais que uma pós-graduação. Orar é algo simples, perdoar é algo prático e obedecer é uma necessidade para manter-se feliz. Não complique o que Deus simplificou. Não estamos neste mundo para apresentar teorias espirituais – vivemos aqui para andar de braços dados uns com os outros dentro dAquele abraço que supre nossa necessidade mais humana.

Convide Jesus pra “justificar Sua utilidade de ter autoridade sobre você” (e assinar seu cartão de rosas).

Permita que Ele intervenha na sua vida e sonhos. Será prático, funcional e adequado.

Eu também prometo que, da próxima vez, beijocarei menos e alimentarei mais.