Caminho na Lua

jul 27, 2010 by

Caminho na Lua

Você até pode chorar por fora. Jamais abra mão de sorrir por dentro.

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Só existe uma coisa mais dolorida do que sorrir por fora, mesmo que tudo esteja desmoronando dentro. É tentar sorrir por dentro quando todos endeusam lhe ver sempre sorrindo por fora.

A multidão adora repousar sobre perfeições imaginárias. E paga caro por isso. O mundo cintilante das celebridades sobrevive disso. Tem gente especialista em sorrir por fora. Enriquecem como resultado. No tapete vermelho desfilam manequins sorridentes com suas miragens de vida feliz. Zilhões de flashes eternizam decotes de ouro disfarçando um coração oco. Todos se encantam. Todos se enganam. Ninguém reconhece.

Michael nasceu para brilhar assim. Seu dom raro escancarou os portais de um mundo de sorrisos só pra ele. Afinal, talentos de diamante refletem cedo as luzes dos paparazzi. Uma voz única, muito maior que seu corpo infantil, projetou-o cedo para tudo e mais um pouco. Autógrafos, recordes de venda, luvas de brilhante, clipes estratosféricos, seu nome nas bocas de todos. Ser absoluto tem suas vantagens exclusivas. Nada menos justo que o senhor das extravagâncias máximas inventar o impensável: caminhar na Lua. Moon walk. Um passo de dança. O mundo parou, suspirou, imitou e nunca mais foi o mesmo.

Mas lá estava Michael. No Olimpo da fama beirando o limbo da desorientação. Máscaras, plásticas, um bebê na varanda, metamorfose de pele, a foto da identidade diferente a cada cirurgia, tribunais. O sucesso cobra sua taxa. Um preço que escraviza. Fugir pra Terra do Nunca parecia ser o refúgio derradeiro para um sorridente de bilhões de dólares – de lucro e de dívidas. Também não funcionou. Cama de gente grande não pode virar jardim da infância.

Na verdade toda a história de Michael se resumiu em duas fases. Uma vida em dois momentos. Como criança se viu forçado a viver como adulto. Como adulto perdeu tudo o que tinha tentando voltar a ser criança. Duas partes de uma vida. Não curtiu nenhuma delas. Morreu cedo. Nosso planeta, uma aldeia global, soube instantaneamente. Bilhões de vidas sentiram a ausência de uma. Esgotaram-se os CDs na hora. Última chance de se iludir com o sorriso de Michael. Mas agora, ele não sorri mais – nem por fora. Morreu sozinho. É sempre assim.

Por incrível que pareça, sua vida imatura revelou na morte a maturidade de uma verdade. No funeral de Michael os holofotes projetavam a pompa. Um microfone sozinho no palco vazio mandava seu recado. À frente, uma família vestindo Versace, escondia atrás de óculos escuros uma fúria canibal pela partilha da herança. Milhões assistiam pela TV, todos às sombras de um mito que se desfez na triste realidade: Michael fez a vida sorrindo por fora, mas sem sorrir por dentro. Entendi isso ao me surpreender com sua música preferida. Ali estava o resumo musical daquilo que ele buscou encontrar a vida inteira. Um título de uma só palavra, mas com significado arrebatador. SORRIA.

Sorria, embora seu coração esteja doendo
Sorria, mesmo que ele esteja partido
Quando há nuvens no céu
Você sobreviverá…

Ilumine sua face com alegria
Esconda todo rastro de tristeza
Embora uma lágrima possa estar tão próxima
Este é o momento que você tem que continuar tentando
Sorria, pra que serve o choro?
Você descobrirá que a vida ainda vale a pena
Se você apenas…

Este é o momento que você tem que continuar tentando
Sorria, pra que serve o choro
Você descobrirá que a vida ainda vale a pena
Se você apenas Sorrir

O autor da música de Michael foi outro sorridente, um tal de Charles. Um caminhou na Lua com suas luvas de diamante. O outro andou de pernas tortas girando uma bengala com seu bigode de pincel que conquistou o mundo. Charles e Michael. Ambos tentando sorrir por dentro, como pareciam por fora. Felicidade não é algo pra mostrar, é para experimentar. Exibir é uma coisa, saborear é outra. Milhões de dólares enchem bolsos de quem sabe disfarçar como poucos. O mundo chama isso sucesso. A lista aumenta dos que brilham assim. E dos que morrem assim também. A propósito, só 70 noites depois, o corpo do cantor de Triller foi enterrado nas colinas de Hollywood.

É incrível como Michael Jackson e Charles Chaplin gastaram a vida buscando achar o que o Nazareno deu de graça: “Buscai em primeiro lugar o reino de Deus” (Mt 6:33a). Um conselho de Amigo para quem nem precisa pedir, mas bem lá dentro tenta sorrir. Ele sabia que o sorriso por fora dos fariseus sobreviveria milênios – com o tempo, apenas mudaria de embalagem. Mas continuaria assim. Só com a embalagem. Sem mais nada por dentro. Por isso o Cordeiro avisou, implorou e sofreu. Até morreu, para fazer sorrir lá dentro o que vale muito mais do que a risada encerada por fora. E o verdadeiro sucesso também foi garantido “todas as coisas vos serão acrescentadas” (Mt 6:33b). Isso é fantástico, espetacular! E, melhor ainda, acessível a todos.

Michael sorriu por fora, chorou por dentro. Você até pode chorar por fora. Jamais abra mão de sorrir por dentro. Aquele sorriso sem preço – que não atrai multidões de fãs – mas cativa a paz de espírito lá no íntimo. Pra sempre.

E, quer saber? Deixe a lua onde está. É melhor caminhar com Ele por aqui.

Sorrindo.

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