Felicidade de 1,99

jun 2, 2010 by

Felicidade de 1,99

Tem tantos por aí trocando a graça pelo sem graça”

.

O garoto não acredita no que ouviu. Seus olhos arregalados quase saltam da cabeça e, atordoado, nem respira de tanta felicidade. Presentes assim são difíceis de acreditar.

- Papai, você está falando sério?

A resposta do pai reforça o que acabou de prometer:

- Filho, pegue 20 brinquedos nesta loja. O que você quiser! – ordena o candidato a Papai Noel digno do Prêmio Nobel da Boa Vontade.

O menino desaparece gritando pelas prateleiras. Ele quer engolir o mundo de tanta alegria. Não é pra menos, acaba de ganhar na sena da loteria infantil. Sua mente processa “milhões de dinheiros” para curtir em segundos ímpares. Afinal de contas, ainda é cedo para entender que ele está “milionário” para fazer duas dezenas de compras na loja de 1,99.

E o pai? Sorri, quieto, pensando consigo mesmo: “Crianças são incríveis! Ficam mais felizes com o muito de um pouco do que com o pouco do muito”. Enquanto isso, prepara a carteira para desembolsar 39,80, que para o “mais novo rico do pedaço” parecem 5 milhões de dólares.

As crianças veem o mundo de maneira relativa. Preços e notas são complexidades que elas ainda não entendem. Iludem-se com a quantidade do que pegam, mesmo largando as coisas mais caras na prateleira. Simplesmente porque, para elas, o valor das coisas está no tamanho das coisas. Preferem um “caminhãozão” de plástico-laranja a uma miniatura da Ferrari com controle remoto. Para elas, a loja de 1,99 é muito melhor do que a Rolex da esquina. Esse é o planeta delas.

Esse é o planeta de todos nós. Somos crianças crescidas precisando aprender também o verdadeiro valor das coisas.

Vamos dar uma olhada no assunto da Graça. Não é fácil pensar em presentes invisíveis enquanto nos motivamos com aquilo que enxergamos. Somos do “pegar ou largar”, e parece impossível “valorizar sem enxergar”. A questão provocante é que as grandes coisas nem sempre estão ao alcance dos olhos. Na Bíblia você vê algo para não se ver: “porque as que se veem são temporais, e as que se não veem são eternas” (II Co 4:18).

Tem muita gente por aí trocando o “pra sempre” pelo “pra agora”. São compradores impacientes investindo tudo nas bolsas da ilusão. Compram ações nas prateleiras da liquidação. E a vitrine do mundo expõe muitas pechinchas: “troque um casamento de sempre pela aventura do agora”. Ou talvez, “largue a vidinha de sempre e curta as noitadas hoje”. E essa, “os princípios de sempre não embalam os alucinados com o ecstasy de agora”. Mais esta: “comportadinha como sempre? Sexo, drogas e rock’n roll é para já!”. E por aí vai, com imediatismo virando norma de conduta de mãos dadas com o hedonismo.

Crianças com braços picados e seringas descartáveis se alucinam na lojinha de 1,99. Infantis barbados se endividam nos jogos de azar mirando a sorte em cartas de papelão. Meninas em corpos crescidos vão ficando com seus “ficantes” descartáveis, aumentando o saldão da auto-imagem mendigada. Todos ficam ensandecidos com tamanha liquidação de vitalidade. Todos desconhecem o preço justo da verdadeira felicidade.

Isso confirma a regra das crianças. Tanto aquelas com seus pirulitos coloridos quanto as outras com seus apartamentos mobiliados: o valor das coisas está em pegar, ver e curtir as coisas.

Mas é incrível como Deus vira o tabuleiro do avesso. Aquilo que se vê, acaba. Mas aquilo que não se vê, renova-se a cada dia. Aí está a sublimidade da graça. Ser cristão é viver de graça. Nada mais. Isso nos leva a rejeitar tudo o que parece “bem baratinho”, porque a quantidade que enche os braços nem sempre traz qualidade ao coração.

Por isso a religião vem abraçada aos princípios da graça. Eles nos mantém focados no “pra sempre”. Auxilia-nos a cair na real fugindo da serpente e suas promessas de bons negócios. Porque o barato sai caro. Antever o Céu não é fácil quando o motel tem vagas disponíveis. A cruz caríssima pra Cristo veio de brinde para os filhos de Deus. Mas a ironia do descaso é vê-los hipnotizados nos bares esfumaçados sobre balcões cheios de “crianças bêbadas”. A louca dança da pechincha escraviza seus fãs que preferem a esmola agora que a fortuna logo ali.

Quando se rejeita o que é inteiramente gratuito, mesmo não sendo visto a curto prazo, deixa-se de ganhar o que só o Céu pode dar. E tem tantos trocando a graça pelo sem graça. Quebra-se o encanto ao ver o preço que se paga para levar tão pouco. E Jesus fica ali, de braços abertos e mãos cicatrizadas, oferecendo um presente que fortuna alguma pode pagar.

Quando Cristo morreu na cruz, a lojinha de 1,99 entrou em falência imediata. Mas o pior é que ela ainda ficou de portas abertas. Os que entram enchem os braços de ilusões e saem vazios crendo que fizeram um bom negócio. O pecado será sempre assim: uma miragem traiçoeira à beira do precipício escorregadio. Adão e Eva caíram lá. Noé, Davi e Ananias também. Na mesma queda vemos Sansão, Saulo e Pedro. Todos, um dia, acabam visitando a desgraça do nada aspirando ser algo. Alguns se levantam de volta. Outros ficam por lá.

Mas você pode sair desses corredores de produtos fúteis. A Graça lhe dá forças para não olhar as prateleiras. Fuja dos preços ridículos e dos conteúdos vazios. O Pai do Céu jamais enganará você. Ele não lhe dá 20 presentes de isopor.

Por isso o Filho não desceu da cruz: para lhe dar a chave da outra loja do lado oposto da rua. Lá, sim, as coisas custam caro, a qualidade é máxima e a satisfação garantida. E sabe o melhor? As etiquetas mostram os preços: absurdos e caríssimo, mas sobre elas um “xis” vermelho escrito: “de Graça”. Quer dizer que é só pegar tudo? Não custa nada? Custou, sim. Mas não para você, nem pra mim .

Você pode recomeçar agora mesmo. Tem permissão garantida para esquecer tudo o que já se atrapalhou por aí. O perdão beija você com a suave promessa da segunda chance. E sempre há uma segunda chance. Mesmo que seja a milésima vez para o Pai que sempre esquece a biografia do pecador que redime.

Mas aceite a Graça. Suas conquistas sonhadas podem mirar alturas maiores. A imortalidade deixou, faz anos, de ser uma impossibilidade. O Éden está logo ali. E o melhor de tudo? Saímos deste maravilhoso Jardim sem querer, mas podemos voltar pra lá quando quisermos – só falta entrar no portão.

Para sempre. Creio nestas duas expressões perpetuadas na alma humana.

De Graça. Veja o verdadeiro valor da salvação que vale a pena ganhar.

Com Deus. Único capaz de dar o verdadeiro presente da vida.

“Pode entrar, filho, e pegar o que quiser!”

.

Related Posts

Share This