Garçom Maltrapilho

set 13, 2010 by

Garçom Maltrapilho

“Saber o melhor pra alguém não quer dizer obrigá-lo a fazer, mas amá-lo a tal ponto que um dia faça”

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Sou um garçom. E sou um mendigo. Ponto final. Descobri esta vocação dias atrás. E quer saber? Tô quase largando minha filha passando fome. Ela que se vire arrumando o que comer, pois pra mim, chega! Sério mesmo. Deixe me defender no júri popular dos leitores: nunca me senti tão humilhado quanto na hora de dar comida pra ela. A mãe decidiu que “precisava me envolver mais”, e inventou de me promover a “domador alimentar” neste refeitório de maluco. É sumariamente ridículo convencer uma criança de um ano e meio a engolir quatro colheradas de feijão amassado. Beira o estapafúrdico! Até pareço o palhaço Tiririca no tatame contra um lutador de sumô – quando ela não quer, não há piada que lhe faça abrir a boca. Desisto! Perco a paciência em dois minutos. Outro dia, tive que ir com a colher até a porta da entrada de serviço porque ela cismou que o “aviãozinho” tinha que vir de longe. Às vezes, mastigo metade daquela comida tenebrosamente sem sal só porque a madame-sem-dente exige “compartilhar” o momento. E quando ela não admite uma colherada sequer antes de agarrar dois brócolis, um em cada mão? Suas manias são de velho, seu apetite de borboleta, e a vontade instável feito o burrinho do Shrek. Se ela cerra a boca, nem pé-de-cabra abre (quase tentei!). Ela é geniosa, eu um garçom – seu desejo é uma ordem e minha tarefa uma súplica por esmola. Oras bolas, alimentar minha filha virou ritual tribal: ela é o cacique batucando na mesa, eu o índio desesperado se contorcendo na fogueira. Ultrajante!

Ser pai é relegar a soberania masculina à secundária importância. Eu virei o mendigo, ela a cortesã. Gravata de seda, autoridade profissional e voz de chefia, nada disso vale perante uma criança que não sabe o que quer, nem quer o que precisa querer. Não é deprimente rastejar implorando a permissão pra nutrir quem precisa disso pra sobreviver? E se forçar não dá, abandonar, nem pensar. Vai entender este mundo doido da paternidade…

A verdade é que à frente da cadeira infantil de alimentação, esmolando misericórdia deste ser inexplicavelmente intrigante, tenho entendido um pouco mais o absurdo desafio de Deus conosco. Se pra agradá-la sou o leão saltitando em sapatilhas de balé, o que a Onipotência já fez ao extremo para persuadir-nos? Sabe por que tudo isso? Por uma palavra capaz de espremer o universo e a divindade que o abraça numa caixinha de fósforos: o LIVRE-ARBÍTRIO.

É incrível como o Todo-Poderoso se limita assustadoramente pra respeitar a liberdade de escolha. Ele poderia, e deveria, usar o pé-de-cabra sobre nossa vontade auto-destrutiva, mas não o faz. Enquanto nos debatemos inconsequentemente com manias e exigências tolas, pacientemente, Ele se adapta nos protegendo sem forçar a barra.

Amor, converse e espere, ela cederá em algum momento”, a esposa jogava água fria em minha irritação fervendo. A filha estava com o babador colorido, a papinha preferida, a TV no desenho “oficial”, a colher anatômica rosa-pink, a comida no morno exato, a boneca-feia em cima da mesinha, tudo como ela gosta, mas a “bendita fofura” não abria a boca. Só depois de minutos de conversa alienígena, ela comeu tudo. E Deus com a gente? A mesma coisa. Ele desce ao nosso nível, respeitando nosso ritmo porque, em segundo lugar, quer que vivamos e, em primeiríssimo, nos ama apaixonadamente – até mais do que eu amo minha filha. Por isso, Ele espera nos dando o exemplo.

Você já pediu pra Deus impedi-lo de fazer coisa errada? Eu, várias vezes. Seria confortável não achar o bar, nem ter acesso a locais pervertidos, ou não saber como levar vantagem à custa dos outros. Mas Ele não faz, nem fará – pois jamais vai querer ouvir do Universo a acusação de nos furtar da alternativa. E ela existe. Somos livres pra buscar outros deuses, nos machucar, escravizar-nos ao que não presta ou destruir nossa vida de sucesso.

Isso, porém, não significa que Seu caráter libertador seja sinônimo de indiferença permissiva. Ele se importa, se preocupa e está sempre disposto a ajudar – ou mesmo alimentar com nutrientes eternamente bons. “Na esperança de que a própria criação será redimida para a liberdade da glória” (Romanos 8:21). É disso que estou falando: uma liberdade ativa que reconstrói hábitos demolidores. Quanto mais “pago mico” com minha filha, mais me encanto com a profundidade do amor divino. Deus respeitou um faraó inconstante e um Judas subornado, mas também perdoou um Saulo assassino e re-escreveu com pureza a biografia de uma prostituta. Ele não força o apetite pelo Céu, mas vem com toda Sua Graça na nossa menor concordância em receber algo melhor.

Pai, perdoa-os porque não sabem o que fazem” (Lucas 23:34), e que divindade é esta que ainda perdoa a rebelião homicida das próprias criaturas? Uma coisa sou eu pondo nariz de palhaço por uma colherada a mais, outra bem diferente é dar livre-arbítrio a ponto de deixá-la cortar minha jugular. Deus fez isso: pra salvar-nos do caminho alternativo pagou com Sua vida nossa estúpida ignorância ingrata. A birra sacrificou o mesmo Pai que nos alimenta. Já pensou nisso? Saber o melhor pra alguém não quer dizer obrigá-lo a fazer, mas amá-lo a tal ponto que um dia faça. Quem ama espera, o amor liberta e, nem sempre, a resposta será imediata. Tento sequer imaginar “a ação divina de não agir” – ainda que pudesse obrigar galáxias na piscada do olho. Quando Deus cravou aquela árvore no Jardim do Éden sabia que ela custaria a vida de alguém. O que o Universo jamais imaginaria é que esta tal vida seria a dEle mesmo: o próprio Deus!

Vendo minha postura de mendigo suplicando a boa vontade da filha, fico envergonhado em desconsiderar o que o Pai do Céu já chegou a fazer para ter-me em Seus braços. Toda vez que Deus se limita em não agir respeitando meu livre-arbítrio, ou insiste sem forçar aguardando minha escolha autônoma, Ele prova que ama muito mais do que manda. Por isso, o sonho acalentado no coração do Pai pede um ato de decisão humana: “e a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (João 17:3). Já pensou? Poder reconhecer em tudo o que você faz Alguém capaz de amar a ponto de querer tudo de bom pra você? Em nosso dia-dia vivemos fazendo opções, elas vão desde um percurso alternativo a caminho do trabalho até a oposição a um convite secreto depravado. Decidimos querer ou não, quer seja a papinha de gente adulta, ou destruir relacionamentos construídos. Em tudo isso, porém, o Pai continua lá – ou melhor, ali – ansioso por entregar aquilo que presta, que faz bem e alimenta a alma. O que impede de aceitar tamanho carinho divino? Nada!

Já escrevi muita coisa nestes últimos posts. Este blog me ajuda expressar sentimentos puros que sempre sonhei em espalhar por aí. Na objetividade das letras aprendi a escancarar a subjetividade do meu coração de pai coruja. Mas, confesso que, do fundo da alma, algo me incentiva a dizer isto pra você: a busca por felicidade com seu filho só será plena se acompanhada da sua busca de felicidade como filho. Ser um bom pai é não abrir mão de ser também um bom filho. E quem é o único e verdadeiro pai? O Pai do Céu. Tudo que fazemos por aqui é observado por Quem nos deu o direito de querer fazer, ou não. O amor de Deus extravasa em nossa liberdade de, inclusive, preferir rejeitá-Lo. Mas Ele permanecerá ali – de braços estendidos feito garçom oferecendo a sobremesa eterna. Sempre amando. Sempre esperando.

Eis que estou à porta e bato, se alguém ouvir…” (Apocalipse 3:20). Que tal reconhecer a iniciativa do Garçom Maltrapilho? Deus ofereceu Seu Filho na mendicância da pele humana para nos arrastar de uma vez por todas a um lugar muito melhor. Preferiu abrir mão de Si mesmo só pra re-conquistar a raça humana que nem merecia. Uma súplica assim é impossível passar despercebida. Porque não é comum nos deparar com um Criador deste jeito, nem dá pra ignorar o carinho prático de Quem ama deixando livre.

Ainda me lembro do último dia. Possuído de tremenda impaciência, não suportava mais ver minha filha recusando a derradeira colherada. Eu transpirava nervoso e a ira já descarregava eletricidade na raiz do cabelo. Só o amor-coruja ainda segurava a rédea. Foi quando cheguei bem pertinho dela, seu babador quase roçava meu queixo, e sussurrei sinceramente: “filha, só mais um pouco, por favor, faz isso pelo papai! É a última…” Silêncio. Seus olhinhos baixaram mirando a colher, por dentro eu controlava o instinto da pressa, até que ela cedeu, vagarosamente, abrindo sua boca de quatro dentes. Ali estava um momento incrivelmente simples. Sorri suspirando a conquista bem sucedida. E orei agradecendo a Deus por fazer o mesmo comigo. Afinal de contas, é para o meu bem, como sempre – e é uma pena não lembrar isso o tempo todo. Porque o Pai jamais esquecerá Seu amor incondicional. E continuará servindo, pedindo, esperando…

Bon Appétit.

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