Invisíveis Aparecidos

abr 7, 2012 by

Invisíveis Aparecidos

Ser invisível pode ser bom – desaparecer demais já beira o insuportável.

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Pense nos sucessos de bilheteria jovem: Harry Potter tinha uma capa que lhe fazia desaparecer; em O Senhor dos Anéis o poder do anel transportava invisivelmente quem o utilizasse; na saga Crepúsculo uma beldade vampiresca viaja no tempo vendo sem ser vista; em Missão Impossível 4 uma lâmina ultra-tecnológica imita o final do corredor sumindo tudo o que está atrás dela; e por aí vai. Afinal, o fascínio pela invisibilidade ainda conquista gerações através das eras.

Minha filha está na fase de se esconder. Só que seus neuroniozinhos ainda não conseguem decifrar a realidade. O que ela faz? Improvisa de um jeito divertidíssimo. Antes de eu apontar o carro na portaria sou obrigado a telefonar avisando minha chegada. É o tempo pra ela fazer sua trincheira imaginária ficando a espreita esperando por mim. Uma cortina com os pés aparecendo, debaixo da mesa de vidro, ou até com meio corpo sob as almofadas do sofá, tudo é motivo pra ela se sentir hiper-escondida. E quando não vem a idéia mirabolante, sua criatividade improvisa uma solução: tapa seu rosto com as mãozinhas – pronto! – já está invisível.

O engraçado é que se eu enrolo mais de cinco segundos – tentando deixar a brincadeira tão previsível um milímetro menos óbvia – ela já pula de onde está aos berros. “Achooou!”, grita como se fosse um diamante raro escondido feito um coqueiro no meio do campo de futebol. Pois, na sua imaginação infantil, seu trágico sumiço poria em risco a salvação da humanidade sob um ataque apocalíptico. Nossa! Pra ela, sua falta desmoronaria o cosmos!

O curioso é que crescemos no corpo vivendo os mesmos extremos. Gostamos de nos esconder – mesmo vedando os próprios olhos – até também não agüentarmos ficar escondidos muito tempo. Não é meio louco? Se às vezes a vontade é sumir do mapa, outras vezes é saltar do anonimato. Porque, na verdade, ser invisível pode ser bom – desaparecer demais já beira o insuportável. Ou você não liga se ninguém liga para você?!

Por isso sou fã devoto de como uma criança espelha a todos nós. Garimpar um esconderijo a nos proporcionar um sublime momento com nós mesmos, é um chamado à paz de espírito. No entanto, não ser notado no longo prazo abre uma cratera desesperadora na cordilheira da auto-estima. Quem disse que é pecado tentar ser alguém entre tantos ninguéns? Se todos temos digitais inimitáveis por que só as de alguns são reconhecidas por isso? Não adianta, brincar de esconder na vida perde a graça quando o tempo passa sem qualquer um nos achar. Fomos criados por Deus à imagem dEle – não à Sua sombra. E isso nos provoca a algo mais.

Então, quer saber? Se no cantinho do seu coração – naquele lugar que ninguém chega – seu desejo for escapar da capa da invisibilidade, confira até que ponto suas mãos não estão lacrando os olhos da sua alma. Sob as vistas do Pai do Céu você jamais poderá se esconder. Não dá pra ser transparente perante o Único capaz de revirar galáxias só pra lhe encontrar – mesmo custando Sua própria vida! Foi Ele Quem desapareceu por três dias do Universo pra torná-lo atração incomparável no palco da eternidade.

E se a multidão daqui não lhe pedir autógrafos, guarde a caneta à espera da coroa. A ilusão de tantos no pau-de-sebo da popularidade escorregará no orgulho mais cedo, ou mais tarde. Afinal, tem muita gente aparecendo pros outros desaparecida pra si mesma. Você não! Você é diferente de um acaso surgindo por aí – é a promessa inigualável de uma Providência infalível.

Ah! E da próxima vez que a inesperada e indesejável sensação de transparência bater à sua porta tire as mãos dos olhos pondo seus braços pra trás. E de cabeça erguida, sustentada num peito estufado, olhe bem pra cima gritando com toda a força: “achooou!”.

Aquele que vale muito mais que qualquer audiência lhe sorrirá apaixonadamente – como que dizendo: “ei! Pra Mim você nunca sumiu!”.

Com Seus braços bem abertos pra você.

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