Noites de Tormenta

nov 20, 2010 by

Noites de Tormenta

“Dormir bastante não é mais importante do que ficar acordado ao lado de quem a gente ama”

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Só duas coisas na vida me deixam de mau humor: fome e sono.

Meu instinto natural foi projetado pra curtir as coisas, pessoas, lugares e sabores. Acho graça até de piadas sem-graça no jeito sanguíneo-inquieto que Deus me fez. Agora, quer me ver capotar emocionalmente e o sorriso se deformar num emburramento sem tamanho? Já viu um ser hiperativo-feliz se achincalhando em enigmático silêncio beirando a antipatia? Isso mesmo, me deixe sem comer ou, pior, sem dormir! Tão simples quanto explosivo. Aguento tudo, mas viro bicho de estômago vazio ou olheiras de urso-panda.

Chegamos ao limite do limite. Nos últimos dias testemunhei uma mulher de titânio enfrentar sua própria criptonita. A Super-Mulher hasteou a bandeira branca e minha esposa rendeu-se em estado de sítio. Quase dois anos, literalmente, sem dormir mais que 3 horas ininterruptas, provaram que ela é de aço com ossada de platina, mas seu coração continua de carne tendo prazo de validade. Antes de ver a orquestra da nossa vida com o teto do teatro desabando sobre nós, tomei a decisão: minha filha aprenderá dormir à noite sem depender “do mamá pra naná”. Calma, ninguém aqui regulará comida de bebê, apenas é que ela condicionou suas madrugadas a um “amuleto sonífero” custando o equilíbrio vital da minha patroa amada. Chega! Esta filha linda não morrerá por mamar às 23h voltando a se deliciar às 7h da manhã – e não deixarei sua mãe implodir com 723 noites de insônia obrigatória. A solução pra esta emergência familiar? EU AQUI fazer o “papel da mãe” nestas inacabáveis 8 horas de intervalo!

Confesso que me preparei psicologicamente pra enfrentar o “Programa Corujão” com ares de Mike Tyson no Jardim da Infância. Na primeira levantada da madrugada o cenário era uma trincheira de guerra: mamadeira de um lado, água mineral do outro, fralda pronta pra trocar, pomada anti-assadura semi-aberta (pra não confundir com pasta de dente), música pra ninar ao alcance, fralda reserva pendurada, luz azulada com peixinho de acrílico pra hipnotizar o sono sepulcral, lenços umedecidos, chinelos anti-ruídos, enfim, um verdadeiro pit-stop de Fórmula 1 no autódromo dos pais metidos a mães.

Tic tac. Duas da manhã. Fui lá! Seus berros pareciam turbina de avião. Apertei seu corpinho contra mim, e ela estranhou os bíceps mais fortes com peitorais sem seios. “Não é a mamãe!”, pensou me lembrando o Bebê Dinossauro. Chorou 25 minutos sem parar. Foi uma luta de gênios fortes. Exausta, finalmente seu temperamento sanguíneo-colérico-sulfúrico se rendeu. Ganhei! Voltei pra cama e dormi triunfante… 45 minutos! Tudo de novo. De novo. E de novo. Tá louco! Enlouqueci.

Ao amanhecer, a cena contrastava: uma mulher repaginada pelo delicioso sono há muito perdido versus um homem estraçalhado com seu estado de humor aos fiapos. E era só o começo da verdadeira queda-de-braço premiando o mais perseverante – ou ganharia a tirana-mirim sugando a energia da mãe, ou venceria a insistência do pai “mal-vindo” à calada da noite. Sabe quem subiu no pódio? Ainda não sei. São tantas noites de tormenta que esqueci o que é roncar em berço esplêndido novamente. (Minha esposa se lembrou!)

Você acha que estou abominando isso até a quinta geração? Mesmo sonâmbulo às 11h da manhã, insisto que NÃO! Quer saber, nunca estive tão intimamente “linkado” à minha filhota como ao tomá-la nos braços às 4h15 da madrugada. Vezes incontáveis, perdi o tempo admirando seu soninho de paz nesta absurda declaração de amor direta de Deus. Agora ela chora pouco e, instantes depois, já amolece em meus ombros enquanto piso nas nuvens com tamanha poção mágica de paixão. Nas últimas “sessões de vigília” ela nem leva 5 minutos pra dormir de novo. Acredita? Não quer água, mamadeira, ou o peixinho azul aceso, apenas vai deslizando sua cabecinha nos meus braços escorregando lentamente seus bracinhos pelas minhas costas. Então, apaga completamente. Uma vez de volta ao berço, abre bem pouquinho seus olhinhos só pra conferir que o paizão está ali debruçado na beirada tentando não babar – por vezes de admiração, outras de sono…

Hoje, (e só hoje!) entendo a plenitude do verso bíblico “em paz me deito e logo pego no sono, porque, Senhor, só Tú me fazes repousar seguro” (Salmos 4:8). Cresci ouvindo meus pais dizerem isso antes de dormir. Mas, quando troquei meu sono pra ver o serzinho que mais amo “nanar”, finalmente compreendi a essência desta incrível declaração. O que atormenta de noite não é a escuridão, mas a sensação de estar só. A presença do Pai muda tudo, mesmo se o travesseiro for regado a lágrimas. E Ele estará sempre lá, ou melhor, ali, bem pertinho, porque dormir bastante não é mais importante do que ficar acordado ao lado de quem a gente ama. Deus nos ama tanto que fica o tempo todo nos observando enquanto dormimos. Se enxergássemos mais nosso Pai ao lado da cama perderíamos menos as preciosas horas de sono tentando nos virar sozinhos. É só acreditar que Ele jamais lhe abandonará pra tirar uma soneca. Melhor de tudo? O Pai do Céu não se cansa de velar por Seus recém-nascidos que crescem no berçário do Universo. Se você deixar sua vida embalada pelos Braços divinos não haverá noite capaz de eclipsar os raios do amanhecer. Confie nisto, mesmo escuridão adentro!

Finalmente, percebo que minha filha e eu somos idênticos: ela dorme em paz sabendo que sempre estarei por lá – mesmo que seus testes custem minhas insônias. E Deus encarou a tormenta do pecado na mais interminável de todas as noites – daquela sexta ao domingo – para eu também dormir em paz na esperança da Salvação. Escrevo antevendo meus próximos momentos: outra noite de sobressaltos chorosos seguidos por abraços fortes reconquistando o doce sono infantil. Por Sua vez, Deus espera o re-encontro prevendo outra promessa: pra Ele, o pior da madrugada já passou, restando permanecer ao nosso lado só um pouco mais até o dia raiar. E você perceberá, uma vez por todas, que nunca dormiu só – mas, sempre protegido pela melhor Companhia que existe.

Durma em paz!– enquanto Ele permanecerá ao relento acordado por toda sua vida.

Boa noite, filhinho!

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