O Eco

dez 8, 2010 by

O Eco

“Cada Benção de Deus merece, no mínimo, uma resposta nossa de Ação de Graça.”

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Minha filha está um encanto. Suas pernas fortalecidas agora correm incansáveis. Sua energia se reabastece automaticamente com gasolina aditivada. Suas respostas aos nossos estímulos são instantâneas: “Cadê o sorriso?”, e ela dá um soluço de gargalhada lindo, “boca de velho”, ela esconde os lábios pra dentro arregalando os olhos enquanto procuro descobrir quem ensinou isso, “piscadinha!”, seus cílios abrem e fecham como boneca de porcelana, “cheira o papai”, ela encosta seu rosto de pele de pêssego no meu pescoço e, fazendo cócegas com seu narizinho de cristal, dá um suspiro dizendo “hummm”. Não é de enlouquecer qualquer pai coruja? E sabe da última? Em qualquer lugar ou hora que ela estiver – na cozinha, na rua, no banho ou na cama – se a gente diz “filha, Papai do Céu!”, ela pára o que está fazendo, agacha suas pernas fofas no chão, dobra seus joelhinhos sentando nos calcanhares, abaixa a cabeça escondendo o rosto sob seus cachos castanhos, ajunta as mãozinhas na boca, e começa a falar “blzumñohaindmywz” até depois de uns segundos balbuciando seu idioma ininteligível, terminar com um “amém!”. Não é incrivelmente hipnotizante? Sua interatividade descortinou uma nova fase neste coração de paizão deixando o que já era bom ainda melhor!

Olho pra cima e me pergunto: Pai do Céu, como pode ser tão delicioso viver um momento assim? E o Onipotente Criador olha pra mim, e responde: “Rendei graças ao Senhor, porque ele é bom, e sua misericórdia dura para sempre” (Salmos 106:1). Só isso? Mas Ele é booom demais! Preciso fazer algo mais… , pensamos altivos sem perceber o insignificante reflexo de nossa pequenez no espelho. Mas é isso mesmo, tudo o que podemos fazer por Deus, após receber um beijo divino vindo de Seus próprios lábios, é simplesmente agradecer. Nossa gratidão humana é oásis de água fresca na sede que Deus tem de receber um carinho nosso – depois de tanta coisa linda que Ele nos dá e faz para cada um de nós.

Estamos encostando em mais um final de ano. E isso prova duas coisas para nós: primeiro, a vida está passando, e com ela, as páginas da minha e da sua História sendo escritas com momentos, pessoas, experiências, lembranças, viagens e degraus galgados de amadurecimento. Talvez, nestes últimos 12 meses, você sofreu mais do que sorriu, ou até curtiu mais do que dormiu. Sei lá, olhar pra trás é garantir o aproveitamento extremo de cada minuto absorvido pela vida que os Céus nos ofertou. Valorize este presente! Por isso, em segundo lugar, vem o mais importante: independente dos altos e baixos reconheça seu coração pulsando forte e seja agradecido! A Ação de Graça é uma declaração de amor que fazemos a Deus deixando-O muito mais feliz como nosso Pai do que somente útil como nosso mero Papai Noel. Ele fez muito mais por nós do que se quer poderemos imaginar. Só lá no Céu saberemos dos milésimos de segundos de atraso que nos livraram de uma colisão nas estradas, ou dias enfermos que nos mantiveram em casa contra alguma experiência lá fora que poderia redirecionar nossa vida para algo ainda pior. Acredito que cada momento vivido neste ano foi uma linda composição divina daquilo que chamo “Música da Minha Vida”. Ele é o supremo artista, e eu a partitura disponível para ser escrita de acordo com a vontade dEle.

Neste momento, volto-me para a criaturinha que tornou 2010 o ano mais “encantadoramente maluco” em meus 35 anos vividos até aqui. Minha filha – além de ajoelhar, piscar, ou fazer boca de velho – inaugurou outra fase deliciosamente intrigante: a do ECO! Porque agora a gente termina uma frase e ela continua com um “ão!”, ou um “abáá!”, ou até mesmo um “bíí!”. Sua mente fértil está se despertando para falar e tudo o que ela sabe fazer é tentar “participar da conversa” balbuciando o que escutou na última sílaba. E isso incomoda? Só se eu fosse doido! Eu adoro ouvir seus fonemas alienígenas ecoando aquilo que digo. Faz-me sentir importante e digno a ponto de ser imitado. Ela nem sabe, mas estas incansáveis repetições infantis inflam meu ego humano por me sentir relevante ao formatar o vocabulário vitalício dela. Curto muito tudo isso!

E com nosso Deus? Deveríamos nos habituar a ecoar suas declarações divinas da mesma maneira. Obviamente, ele derrete Everestes e eu nem consigo enxugar um gelo, mas do meu jeito limitadíssimo posso pelo menos reconhecer o que Ele tem feito. Por isso, acredito fortemente que cada bênção de Deus merece, no mínimo, uma resposta nossa de Ação de Graça. Deveríamos nos especializar em ser eco humano do poder divino. É Deus Quem faz, mas somos nós que precisamos agradecer. Se dez leprosos foram curados, sejamos o único a ecoar pra sempre o merecimento do Criador. Se todos ostentam seus vestidos de festa, ousemos quebrar o perfume mais caro e derramar sobre os pés do Único capaz de perdoar nossos crimes desgraçados. Se o mundo só pensa nos fogos de artifício e roupas brancas na beirada das ondas, prostremos nossos joelhos, ainda que desengonçadamente como minha filha, e devolvamos ao Céu nossa gratidão que Deus sempre faz por merecer.

Convido você, leitor-coruja, a repensar neste dias aquilo que, geralmente, fica empoeirado no esquecimento da mente na adrenalina destes últimos dias: seja agradecido tanto quanto favorecido. Alguém morreu pra gente viver, interferiu ativamente para sobrevivermos imerecidamente, e nos ama tanto a ponto de ser fascinado por nós a despeito de nossas falhas. Este é nosso Deus – só esperando nosso “muito obrigado”. E Ele jamais reclamará se dissermos do nosso patético e humano jeitão:

Blzumñohaindmywz, amém!

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Feliz Fim pra mais um Ano Novo!

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