Os Dois Raios

mar 26, 2011 by

Os Dois Raios

“Ser eternamente livrado do mal é muito mais importante do que ser, momentaneamente, machucado por ele.”

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Sabe da máxima que dizem por aí que “um raio nunca cai duas vezes seguidas no mesmo lugar”? Depende! Se o lugar for a cabeça de alguém esta suposição caiu por Terra – mesmo com ela se movendo 7 mil quilômetros em 7 anos. O “coitado do bendito azarado sortudo” estava na “hora errada e lugar errado” não apenas uma vez, mas, por absurdo que pareça, duas infelizes vezes pra levar uma reprise de relampeada na testa. Bom, não foi bem um relâmpago, no entanto, vale a pena conhecer a história do Zahrul Fuadi – o Homem das Quase Duas Mortes!

Sem dúvida, este homem de 39 anos viveu o bastante pra 2 vidas! Nascido na Indonésia, morava na cidade de Aceh quando, em 2004, o mundo paralisou mediante as imagens aterrorizantes do tsunami global que varreu ilhas e 220 mil pessoas em todas as direções do Oceano Índico. Salvou-se com sua família graças à sua moto que acelerou mais rápido do que a aproximação implacável da onda. Isso já seria uma grande história pra contar – e até esquecer – se não fosse o impensável de alguns dias atrás. Concluindo seu PhD, após reconstruir seus sonhos, ele estava no coração da cidade de Sendai quando a terra estremeceu em solo japonês. O maior terremoto da História do Japão ainda não seria tudo ante o pior que estava por vir: o tsunami aterrador. Novamente, Fuadi estava lá – e com sua família pra não lhe deixar mentir! Mas, desta vez, foram salvos às pressas por sua Embaixada agindo antes que a cordilheira de águas dizimasse outras 10 mil pessoas. Enfim, duas tragédias agressivas e nenhum arranhão pra contar história.

O que você acha disso: sortudo ou azarado? É sorte sobreviver ou azar quase morrer? E ele reconheceu: “Desastres naturais ocorrem sem dar muitas pistas!” Certíssimo. A incerteza do próximo minuto deveria nos despertar em todos os segundos. O mais intrigante é que geralmente as más experiências nos pegam de surpresa. Se tocamos nossas vidas com certa margem de previsibilidade segura, pra quê imaginar que um raio cairá justamente na nossa nuca? Daí, racionalizamos, nos acomodamos, ligamos o automático e desligamos a devoção – ou cultuamos o natural, nos apostatando do sobrenatural. Até, de repente, o imponderável decepar a corda da nossa rede de descanso. Despencamos em pânico. Com a soneca abruptamente interrompida, ficamos desnorteados e absortos pelo susto de sermos peças do jogo, e não as regras dele. Já viu como somos contraditórios? Fazemos turbinas gerarem eletricidade pela força térmica de varetas de plutônio, mas não conseguimos antever um tremor de terra capaz de explodir tudo pelos ares. Monitoramos um raio-x de tórax, porém nos apavoramos só em pensar na radioatividade descontrolada espalhada por aí. Fazemos foguetes tentando pisar em Marte, e nem de longe descobrimos como reduzir a fúria das catástrofes endemoninhadas. Percebe? Somos tão indestrutíveis quanto um formigueiro megalomaníaco na iminência de uma patada de elefante. Se quando a Natureza sussurra a gente emudece, imagina se ela resolve gritar?

Vejo minha filha tentando descer degraus. Agora, qualquer desnível em seu caminho surge como um desafio provocando-a ao extremo. O problema é que sua gana por fazer tudo sozinha não abre espaço pra receber ajuda. Ela pára, olha, calcula, se contorce, vira de quatro, apóia na parede, fecha o punho, escorrega o pé na superfície vertical, e não cede. Às vezes, de longe, eu já sei que não vai dar, mas a linda-cabecinha-dura (que puxou a mãe!) não reconhece – parece até alguém da Melhor Idade tentando correr pra dar um salto com vara! Até, finalmente, ela perceber que não dá. Então, rendida a seu orgulho espatifado, ergue seu bracinho de porcelana na minha direção, e diz “cêêê!” – que, além de “descêêê”, quer dizer “papai, reconheço minha completa falibilidade para galgar tamanha impossibilidade, por gentileza, ajude-me a concluir este desafio de complexidade inexorável!” Ela desce apoiada e quietinha. Eu sorrio maliciosamente abafando a gargalhada de glória, e pergunto: por que ela precisa ser assim? Coragem é uma coisa, agora, preponderância é completamente outra. A exemplo dela nossa independência prematura pode retardar a oportuna segurança só residente nos braços da Onipotência. Temo que nossa altivez humana inutilize a intervenção divina. Ganharíamos mais dependendo antes!

Sou um homem de fé e acredito!” Não tenha dúvida, depois de 2 raios na testa é inevitável respeitar a soberania dos Céus. Se Fuadi quase morreu duas vezes, o que dizer de eu e você que estamos vivos – graças a Deus – inúmeras vezes? Escapar de uma muralha de águas devoradoras é tão maravilhoso quanto atrasar 2 segundos, sem perceber, pra não atravessar um cruzamento. Um dia você descobrirá que o motorista bêbado no outro carro chocaria diretamente sobre sua amada no banco do carona. Só 2 segundos – e tão importantes quanto 2 raios. Ou, que tal as 2 tentativas amorosas naufragadas que seriam péssimas escolhas até descortinar diante de você alguém muito melhor? Só 2 desilusões – como 2 relâmpagos.

Confesso que eu amo o poder de Deus capaz de reverter o imprevisível na promessa do possível. “Porque a tua graça é melhor do que a vida; os meus lábios te louvam” (Salmos 63:3). Melhor do que viver descendo degraus é sobreviver ao alcance dAqueles braços que podem tudo. Esta graça do Pai lá de cima está disponível bem aqui, pertinho de você. O problema é agirmos irresponsavelmente como se Deus não existisse e um terremoto nunca acontecesse. Este precioso alerta bíblico é “rota de fuga” para casos de tragédias iminentes: se viver é bom, a graça divina de viver mais é melhor ainda! Porque a única coisa melhor do que a vida é garantir sua duração eternamente – e por que não sem interrupção? Acredito que uma moto salvadora “na hora certa e lugar certo” é uma demonstração irrevogável da intrínseca vontade de Deus de resgatar todo mundo do colapso do mal. E ainda 2 vezes?! Será que é sorte? Prefiro crer na Providência.

Não tapo o Sol com a peneira. Sei que nosso heroi azarado-sortudo é como um anel de diamante re-encontrado dentro do esgoto. Porque muita gente boa morreu lá. Que dizer das milhares de famílias cuja Embaixada chegou segundos depois? E dos demais filhos de Deus que só perceberam o monstro das águas quando já estavam engolidos por ele? É muito difícil ter esperança quando é tarde demais. Tem coisa muito errada neste planeta obra-prima dos pinceis impecáveis do Criador (Gênesis 1 e 2). Mas prossigo apegado a uma aparente contradição: “Ainda que a minha carne e o meu coração desfaleçam, Deus é a fortaleza do meu coração” (Salmos 73:26). Como entender um coração fortalecido que se desfalece? Ora, o pecado pode até destruir injustamente corações de carne, mas é a justiça de Deus que há de preservar fortalecida a promessa de resgate eterno de toda esta agonia. Por isso tenho esperança viva no plano da redenção de um Criador que se deixou morrer através do Filho para que todas as suas criaturas pudessem viver por meio do perdão (João 3:16).

Enquanto vou ali, feito deidade, salvar minha filhota de um degrau maior que sua perna, que tal acreditar mais para aguentar ainda um pouco mais? Talvez outros raios caiam nas testas por aí e, quem sabe, sortudos-azarados desfilarão por muitas páginas dos jornais, mas siga em frente! Dizendo “cêêê”, ou “Deus me ajude!”, não duvide na escuridão daquilo que o Pai nos promete às claras: “Deus é fiel, e não permitirá que sejais tentados além das vossas forças; pelo contrário, juntamente com a tentação, vos proverá livramento, de sorte que a possais suportar” (1 Coríntios 10:13). Ser eternamente livrado do mal é muito mais importante do que ser, momentaneamente, machucado por ele.

Até aquele dia quando, diante do Mar de Vidro (Apocalipse 4:6), esqueceremos tudo que nos dias de hoje terá ficado lá pra trás. Você viverá em chão firme, sem degraus intransponíveis, e com graça de sobra pra louvar, dizendo:

Obrigado, Senhor!

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