Piano Hipócrita

fev 27, 2011 by

Piano Hipócrita

“As belas notas musicais da sua vida nunca bastarão se soarem apenas por um curto prazo.”

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Permita-me deixar bem claro uma coisa: não sou de passar ninguém pra trás, nem faço negócios fraudulentos, muito menos repasso ‘abacaxis com casca’ pro meu próximo. Isto está claríssimo como sol de verão na praia? Então estou em paz. Porque na última semana passei um daqueles momentos que dá vontade de sumir na toca do tatu. Não sabia onde enterrar a cara! É que nos mudamos para um lugar charmosamente menor e precisamos vender algumas coisas – incluindo nosso impecável piano preto esmaltado. Foi uma estocada na alma repassá-lo a outros, mas não houve alternativa. Anunciei por R$ 5500,00 – preço justo por um Essenfelder com som de arcanjos em perfeitíssimo estado. Dois meses depois, e sob um ataque fulminante de desgosto, sabe por quanto ele foi vendido? R$ 1200,00 mais um McLanche Feliz de brinde! Calma, não sou nenhuma Madre Tereza dos negócios, você vai entender!

É que um especialista veio chancelar a categoria de meu amado instrumento e, depois de umas batidas na madeira, ele soltou a granada que estilhaçou minha paz: “Senhor, este piano está carcomido de cupins, e mais de 40% da madeira está comprometida. Só pra reformá-lo dará um trabalhão danado! Sinto muito, tem partes ocas que caberiam a mão inteira de um homem…” Eu sabia que vira-e-mexe um pozinho de serragem caía no chão, mas jamais imaginaria que os “demônios devoradores de madeiras nobres” já estavam construindo uma Manhattan inteira lá dentro – e há mais de 4 anos! Revoltado, aceitei a proposta ultrajante do técnico que ainda profetizou: “de uma hora pra outra, este piano simplesmente ruiria sob seus dedos – cupim é uma praga desgraçada!

Mas, e os sons angelicais sob a pintura negra espelhada feita o Lago dos Cines?”, não me conformava naquela noite de insônia com minha esposa. Ele foi nosso hobby por tantos anos, sem contar que tocar piano, pra nós, sempre foi um fetiche romântico (nós nos conhecemos, e nos apaixonamos, tocando muitas vezes juntos em eventos do colégio). E agora, literalmente, estávamos com um Cavalo de Tróia Musical abarrotado de um exército roedor dentro. Frustrante! Rendido, e pela primeira vez na vida, detectei a hipocrisia de uma obra de arte com 88 teclas.

Sabe o que é hipócrita? Segundo o Wikcionário, quer dizer: “fingido, que não age de acordo com as idéias que demonstra ter”. Mas, pare aí! Se você está gastando seu precioso tempo vasculhando alguém pra apontar, baixe já este dedo e ponha sua mão na consciência. Até que ponto não agimos igual meu ‘falecido’ piano? Já viu carro alegórico na Sapucaí? É uma explosão visual de luzes, cores e brilhos – mas, na verdade, é feito de isopor, celofane e pena de pavão. E o glamour de uma vitrine chique na parisiense Champs-Élysées? Se faltar a solidez estrutural no madeiramento de seus porões ninguém vê. E o caçula fingindo “ser peludo como ovelha”, enganando o pai cego, só pra roubar a primogenitura do irmão? (Está em Gênesis 27!) Conosco é a mesma coisa: falamos, impressionamos e flertamos – como melodia sedutora aos ouvidos conquistados – mas se a madeira estiver bichada, cedo ou tarde, a música sumirá, inesperadamente.

Um dia, Jesus também cruzou com um piano – de tronco, ramos, raízes e um Dilúvio de folhas radiantes. Seu brilho esverdeado refletia os raios do Sol feito um farol no parque. Era uma figueira que atraía qualquer um com seu encanto de sereia. Cristo chegou até ela e, não sendo o primeiro nem único naquele entardecer, procurou a confirmação da sua majestosa performance: os frutos. Mas não havia um sequer! Aquela árvore cinematográfica não tinha nem bolotinhas mirradas, muito menos figos suculentos. O olhar divino penetrou da ponta subterrânea da raiz atravessando até a folha mais cintilante do topo. Ele não fez nada, só deixou-se revelar como o Maior especialista em pianos do Universo. Uma noite entrou no meio. Ao amanhecer, pro susto geral do fã-clube dela, a figueira secou parecendo ter passado a noite num micro-ondas na potência máxima. Era só pele e osso, ou melhor, madeira seca e galhos retorcidos. Injustiça divina? Pense bem! Cristo não amaldiçoou a figueira, apenas revelou que ela já estava amaldiçoada. Parece duro, eu sei, mas na verdade Ele não fez nada que ela não tivesse dentro de si mesma: aridez, desnutrição, esterilidade e contradição. Só que o denso cobertor de folhagens por fora distraía todos da percepção do vazio que imperava dentro. Ou seja, o problema da figueira nunca foi não ter frutos, mas sim, ter folhas demais. Por isso elas sumiram (Marcos 11).

Meu piano soava lindo quando meus dedos dançavam sobre o teclado preto-e-branco, mas não duraria muito. E quer saber? As belas notas musicais da sua vida nunca bastarão se soarem apenas por um curto prazo. Tocar muito não garante tocar sempre – e, ao menos eu, fui feito mais pro sempre do que pro muito. Agora, já percebeu como a artimanha do parecer, e não ser, provoca a obsessão pelo ter? Por aí afora, ostentar um inebriante colar de diamantes é muito mais sedutor do que cultivar um caráter brilhante. Não se renda à ilusão das posses materiais, pois a maior de todas elas não se compra, se conquista: coerência.

Preparado pro pior ainda? O mais grave não é quem finge, mas quem nem sabe que está fingindo. Outro dia me lasquei tentando ser o mega-pai. Cheguei em casa cansado, não tinha almoçado, estava irritado com as irritações de uns irritantes, a chuva gelada lambeu meu cangote, quase caí numa poça ao sair do carro e, finalmente, passei pela porta travestido de simpatia fútil: “Oi, filhinha linda do papai!” Ela me olhou intrigantemente e, com a mesma rapidez que virou seu corpinho na minha direção, desvirou-o na direção da mãe, escondendo-se por entre suas pernas maternas. “Amor, isso soa falso! E criança saca na hora!”, a onisciência feminina me surpreendeu. É verdade! Fiz papel de tolo achando que estava abafando. Por outro lado, já viu como uma pessoinha de 2 anos é assustadoramente sincera? Ela pode ter uma constelação de defeitos-mirins, mas ser fingida é impossível. Não sabe “fazer social”, não entende de “fazer lobby”, nem disfarça sob regras de etiqueta. O que ela é – é o que é! – ponto final. (Imagina meu chefe simpático levando dela um “nããão!” com uma “coiçada” de cara daquelas!) Daí você entende por que o Mestre colocou um garotinho no Seu colo, ignorando uma gangue inteira de PhDs e MBAs, condecorando-o como Personalidade do Ano? Ainda profetizou: “a não ser que vocês se convertam e se tornem como crianças, jamais entrarão no Reino dos céus” (Mateus 18:3).

Uau! Pianos, figueiras, Jardins da Infância e carros Abre-Alas têm muito a nos ensinar. Hipocrisia não é ter, ou não, cupins – mas seguir se exibindo normalmente sem avaliar a consistência da madeira. Faça um check-up com o Especialista Divino. Não tema as batidinhas reveladoras lhe mostrando o diagnóstico. Preferirei sofrer um pouco descobrindo agora do que me iludir até desabar feito sepulcro caiado (Mateus 23:27). Pesado? Talvez não, pois ainda há a esperança chegando de carona na oportunidade. Todos, em algum momento, e sem exceção, já provocaram o galo cantar três vezes (Mateus 26:75). Mas a verdadeira melodia do perdão soa pra todos após o domingo da ressurreição. Por isso, o Pedro dissimulado daquela noite, nem de longe foi o mesmo Pedro crucificado de cabeça pra baixo – sua coerência reconquistada não admitiu mais “parecer algo” nem na hora do seu martírio. E suas notas musicais soarão por um longo prazo.

E você? Lembre-se que sua vida é um instrumento musical feito artesanalmente pelas mãos do Criador. É uma peça rara soando acordes a todos que passam por você. Que tal pedir a Deus pra reformar seu interior? Não digo a casca exterior que uma boa maquiagem, ou um elegante nó de gravata, disfarçam – mas, aquele núcleo existencial que sustenta firmemente seu caráter. Ele consegue consertar tudo. O cinzel divino pode raspar o que não condiz lá dentro deixando-o consistente tanto por fora quanto no coração. Então você poderá fazer música tranquilamente, afinadamente e… por um bom tempo!

Bravo!

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