Pra Você, Mil Vezes!

jul 27, 2010 by

Pra Você, Mil Vezes!

“Posso ser um otimista em extinção, mas estou convicto de que somos instintivamente formatados para ajudar”

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Alguns filmes só servem para comer pipoca. Outros acrescentam algo mais. Sei que assistir à película de um best-seller é como preferir degustar um hambúrguer num bistrô francês – você sempre perde os requintados detalhes. Mas como sou um impaciente curioso, certas leituras acelero no micro-ondas do DVD.

Um dia desses, fomos presenteados com momentos de descanso ímpar enquanto nosso bebê dormia três horas. Pus minha cultura em dia assistindo à indicação de um bom amigo. Tive que reconhecer. Foi ótimo! O tremendo filme consagrou um dos romances literários mais vendidos da década. Com nome ingênuo e profundo, O Caçador de Pipas conseguiu levar-nos às lágrimas – como nossa filhinha suplicando mamadeira.

O escritor afegão, Khaled Hosseini, teceu uma trama densa, sublime e emocionante ao abordar o tema de que é possível, com acertos no presente, redimir erros do passado. O que me marcou na história de dois amigos de infância soltando pipas, foi a incrível declaração de fidelidade sem limites. Numa das cenas mais singelas, um garoto corre buscar a pipa de seu melhor amigo. Após alguns passos, o personagem pobre, filho do empregado da casa, volta-se pro amigo rico, herdeiro do império, confessando sua servidão sincera, diz: “Pra você, mil vezes!” A partir daí, só digo que vale a pena conferir o resto …

Pra você, mil vezes!

Esta bela confissão tradicional reveste-se da cultura oriental para reforçar laços de profunda dedicação à outra pessoa. Descreve aquele momento nobre em que um ser humano reconhece a importância do outro. É um carinho prático prometendo sincera devoção. Uma verdade ideal para nosso mundo ocidental de utopias.

Vivemos aproximados uns dos outros. Dentro de ônibus coletivos, escalando arranha-céus em elevadores, esbarrando nas calçadas dos grandes centros. Interessante. Quanto mais perto, mais indiferentes. No ônibus nos isolamos com I-pods, nos elevadores contamos os andares e nas ruas fugimos para os celulares. Todos estão próximos, mas ninguém se importa. Tocamos nossa vida ilhada no mar de gente descartável. “Negócios são negócios”, inflam os espertos por aí, “mil vezes só pra mim”.

A verdade é que ninguém está disposto a largar seu lugar cativo na frente do espelho. O consumismo narcotiza seres egoístas que compram o que não devem, gastando o que não têm, a fim de parecer o que não são. Perambulando desnorteados, os habitantes deste planeta-fantasia competem alucinados para ver quem está no topo. Até a próxima rasteira coroar outro felizardo por curto prazo. Ninguém quer saber de ninguém, embora todos busquem ser alguém. “Falar em amor ao próximo? Corta essa! Se der lucro, eu até caso com você”. E os mutantes de ambições egocêntricas vão se mimetizando feitos camaleões enganando a todos pra salvarem sua pele. E uma vez salva, tatuam as glórias de suas conquistas na tentativa tola de se perpetuarem sobre os outros. É um mundo apinhado de gente, solitária e desconfiada, se ajuntando pra ganhar, mas cruzando os próprios braços para não terem que dividir.

Pra você, mil vezes! A frase tenta tocar o sentimento humano revestido de chumbo.

Em um dia ensolarado, o Sábio Professor precisava esquentar a frigideira e fazer pular uma platéia da sua zona de conforto. Ele tinha que ser de “pedra” o bastante para todos se envergonharem, mas de “espuma” o suficiente para não parar na cadeira elétrica. Decidiu contar uma história, um pouco diferente de crianças ingênuas soltando pipas. Amo a didática das palavras de Cristo para cravar o bisturi da graça na arrogância tosca dos fariseus.

“Certa vez”, Jesus começa como quem não quer nada, “descia um homem de Jerusalém para Jericó”. A cortina se levanta e no palco está o personagem principal: um homem retornando em paz de Jerusalém, a cidade de todos os santos. “E caiu nas mãos de ladrões que, espancando-o, largaram-no meio morto” (Lc 10:30). O filme já agarra a audiência em seus primeiros segundos.  Ninguém gosta de ver gente inocente levando bordoada de uma maioria covarde. A expressão “meio morto” é cruel. Ninguém se sentiria “meio vivo” estando inconsciente, arrebentado, nu e desfigurado de hematomas borbulhando sangue. Todos imaginam a cena. O Narrador acende os holofotes e introduz o Super Homem e o Indiana Jones: “casualmente passava pelo caminho um sacerdote que, vendo-o, passou de largo”, o fã-clube fica petrificado, “de igual modo um levita chegou ao lugar e, vendo-o, passou de largo” (Lc 10:31-32). Ninguém pisca. Como assim? Não usaram os poderes da capa vermelha nem do chicote arqueológico? Nossos heróis se acovardaram? Óbvio que não. Heróis imaginários nunca têm medo. Mas humanos reais podem, sim, ter mais o que fazer.

Deixa-me pôr mais lenha na fogueira. Quando Cristo usou o sacerdote e o levita como supostos salvadores da pátria, trouxe às luzes gente da mais alta estirpe da aristocracia judaica. Líderes respeitados faziam por merecer. Eles eram admirados por isso. Neste caso, voltando de Jerusalém, eles estavam mais purificados ainda. O sacerdote, mais à frente, voltava do templo, e um levita memorizando a torah, vinha depois. Eram duas personalidades VIP desfilando na primeira classe da ponte aérea. Logo a seguir, porém, o filme escapa de qualquer história em quadrinhos e, sem dó, quebra as pernas dos nossos modelos de solidariedade. “Passaram de largo”, assusta a Bíblia. Inacreditável! Se nem os melhores personificam um bom coração, quem se salva em nosso mundo solitário?

Surge o absurdo. Jesus pensa em cada palavra dando a entonação perfeita do suspense. “Mas um samaritano”, a platéia não acredita que Ele catou um personagem do lixo, “chegou perto dele, viu-o e moveu-se de compaixão”. Os discípulos empalidecem. Parece que Ele foi longe demais. Cristo não apenas cutuca o machucado com bisturi, mas despeja sal grosso em cima. Um samaritano? Este miserável vai aprontar alguma…“Aproximando-se, curou-lhe as feridas” (Lc 10:34). A audiência fica fora do ar. A cortina desce. Ninguém aplaude.

Somos todos admiradores das cartas marcadas. Ovacionamos os bilionários querendo salvar a África. Mas ele? O faxineiro, e não os ministros, fazendo massagem cardíaca no presidente? Não gostamos de ver favelado apontando dedo pro dono da cobertura. Muito menos um miserável samaritano sendo o único médico de plantão no hospital dos egoístas da nossa geração. No entanto, foi Ele mesmo que, no silêncio das atitudes práticas, discursou com categoria a frase eternizada:

“Pra você, mil vezes!”

O recital dos bons exemplos, interessados no próximo, continua. E a Bíblia registra sons deste concerto. Lá está Davi trazendo pra dormir no palácio, a 50 passos do trono, o aleijado Mefibosete, único descendente vivo de seu arqui-inimigo. Tem José dando o beijo do perdão nos irmãos como recompensa de ter sido assassinado de mentira, mas banido do seu lar de verdade.

Pra você, mil vezes. Amigos fazem coisas pelos outros. São discípulos assustados presenciando o Messias prostrando-Se com uma bacia para o lava-pés. Tempos depois, o mesmo Pedro (buscando pipas para alguém) foi à frente do templo com a lição aprendida: “Não tenho prata nem ouro, mas o que tenho te dou. Em nome de Jesus, levanta-te e anda” (At 3:6). E Jonas? A misericórdia divina perdoou mil vezes uma Nínive quebrantada, a despeito do profeta mais preocupado com sua sombra. Zaqueu deu o maior bônus natalino da história para todos seus devedores. Estevão perdoou Saulo. A lista é grande.

Fomos feitos por Deus para auxiliar o próximo. Posso ser um otimista em extinção, mas estou convicto de que somos instintivamente formatados para ajudar. O pecado nos faz mirar o umbigo, mas ainda herdamos do Éden a felicidade compartilhada. Hoje entendo, hipnotizado de paixão por minha filha, o que é oferecer mil vidas minhas para vê-la sorrindo. Faz bem ver o bem no olhar do próximo. Aquele samaritano atrasou seu percurso, mas dormiu em paz com sua consciência solidária.

Catadores de pipas estão por aí, como heróis realizados, nos hemocentros e assistências sociais. Você reconhece o sorriso deles – lábios felizes de quem se importa com a fila de transplantes,  a taxa de mortalidade e o olhar triste da criança grudada no carro com o sinal fechado. Quando foi a última vez que você se importou com alguém? Prometer curar a AIDS em outro continente é mais fácil do que dar um abraço sincero no colega de trabalho ao lado. Talvez você até tenha dinheiro para reverter o PIB de um país. Senão, cuidado para não deixar o “melhor imaginado” estragando aquilo que já é o “bom realizado”. Pegue pipas para quem está perto de você.

“Não fuja da raia” quando puder mostrar que é servo de seu bom coração! Desperdiçam-se  milhões de dólares em cosméticos para curar rugas dos olhares avarentos. Não adianta. O bom-humor é diretamente proporcional à disposição de transformar heróicos ideais abolicionistas em pequenas atitudes práticas de amor ao próximo. Defendo esta bandeira da contra-mão. Deixe os egoístas com seus mundos claustrofóbicos de paredes espelhadas. Seja, você, mais doador de si próprio! Mesmo que zombem do seu coração ingênuo por causa disso. Deus jamais deixará de ver alguém assim. A propósito, Jesus contou um segredo: “em verdade vos digo que, quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes” (Mt 25:40).

Aí está o cristianismo disparando na frente das outras religiões com suas filosofias sociais. Fazer o bem é conhecer mais que uma ideologia. É encarar a face de Cristo. Toda vez que você se dedica a alguém está se envolvendo fisicamente com o Salvador. Isso é bom demais pra ser verdade. É tão maravilhoso, que tem que ser verdade! Por isso a declaração mais inimaginável do universo veio do Criador: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho Unigênito para que todo aquele que nEle crer, não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3:16). Vejo aqui um Pai correndo loucamente atrás da imensa pipa de todas as eras. O plano da redenção é a maior prova de que dar é a essência do amor. Só quem doa para alguém sabe o que é verdadeiramente amar.

Pra você, mil vezes! Pode ser absurdo, mas até isso é pouco para quem entregou a vida de Seu Filho bilhões de vezes para cada um de nós…

Pense nisso! E busque pipas para alguém perto de você.