Sentado nas Nuvens

jul 27, 2010 by

Sentado nas Nuvens

“É sempre bom voar com um Deus assim”

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Escrevo este texto sentado sobre as nuvens. Embaixo de mim, arranha-céus viram miniaturas em cubos alegóricos compondo o mosaico da maior cidade do Brasil. Ao meu lado um senhor ocupa quase duas poltronas – seu peso faz nosso avião cobrar mais da turbina neste lado. Uma música ambiente tenta distrair os desafiadores da lei da gravidade. O sol se deita no horizonte desenhando sobre São Paulo raios espetaculares de mais um dia que se foi. Nostalgia pura. Mas é verdade! Flutuando nos ares e brincando mais uma vez de albatroz, a gente pára pra pensar na vida. Minha família lá embaixo, eu aqui em cima. Sozinho. “Feliz por-do-sol, queridas!”, gostaria de dizer às duas rainhas do meu reino (uma responderia com um beijo sorridente, e a outra com uma babinha nos lábios tentando dizer “búú”).

Voar.

Para alguns que vivem pelos céus, como a outros em metrôs, pode parecer apenas uma pausa incômoda para transportar sonhos profissionais. Mas pra mim, não. Qualquer vôo ainda me fascina. Sou um eterno curioso tentando compreender como esse negócio funciona. Apesar de todas as respostas técnicas dos descendentes de Santos Dumont, ainda não me satisfaço: “tudo bem, mas são toneladas de aço, plástico, tecido e ossos…”, daí, começo tudo outra vez.

Voar é bom – especialmente para o ser humano valorizar o chão que pisa e reconhecer o essencial nas leis da aerodinâmica. Sempre sento depois da fileira 15 nos aviões brasileiros. Sabe por quê? Porque consigo controlar o medo, a nove mil metros de altura, olhando para minhas guardiãs protetoras: as asas. Pode parecer tolice, mas olhar para elas enquanto laminam os ares feito navalhas me traz segurança e equilíbrio. Graças a elas, quase me esqueço que estou a 800 quilômetros por hora, sustentado nos ventos.

Fico pensando no plano de vôo da vida de um cristão. Somente a velocidade extrema das promessas feitas não basta. Um par de fortes asas é o que ele precisa para manter-se nas alturas. E que asas são essas? A oração e a Bíblia. Nada mais do que as duas leis da comunicação com Deus: falar e ouvir.

Simples assim. Jesus provou com Sua vida que as coisas extraordinárias não precisam ser, necessariamente, complicadas. Já percebeu que Ele sempre aplicou conceitos profundamente complexos com ilustrações práticas do dia-dia? Ele usou o sal, a luz, a videira e um semeador a fim de tornar a Verdade acessível para os mais enganados da pirâmide social. Como se quisesse provar para os “colecionadores de diplomas” que salvação, antes de um doutorado em perfeição aparente, é uma amizade real com um Deus que convive com Suas criaturas.

Outro dia um rapaz me abordou após um culto. Seus olhos transpiravam um incômodo sincero. Tinha um semblante que mais parecia um passarinho de asa quebrada a um metro do Pit Bull. Sem dar voltas, foi direto: “Pastor, dá uma receita para eu não me perder de Jesus! Por favor…” Seu grito disfarçado parecia o eco de milhões de outros passarinhos na mesma situação. Todos vendo na igreja a cura para suas asinhas, mas sentindo o agressor chegando mais rápido do que o remédio.

Surge esta súplica derradeira. Os náufragos do século XXI não têm tempo de aprender a nadar – apenas conseguem procurar a bóia. Por isso muitos imploram a uma só voz: “Que fazer para não me perder?” Este desespero é sincero, cativando a atenção imediata do Dono do Universo. Por isso a resposta não mudou. Tanto para pássaros quebrados e náufragos afogados, quanto para um soldado em pânico vendo sua prisão virar playground.

À meia-noite, um carcereiro tem uma tarefa: cuidar de dois presos perigosos. Enquanto isso, os prisioneiros têm a sua tarefa: louvar como em um culto de Ações de Graças. De repente vem o Anjo de Deus com sua tarefa: interromper a tarefa de todos. O invisível irrompe o visível. Um terremoto faz o chão e os queixos tremerem. As correntes viram de papel e as grades, cartolina. Todos os marginais daquela noite estão livres para brincar no parquinho.

Imediatamente, o  guarda puxa a própria espada: “é melhor morrer como mártir do que viver como pateta”, sua lógica segue o padrão romano. Mas, surpreendentemente, os cantores estão lá: imóveis e submissos. Paulo e Silas gritam, “não te faças mal que estamos todos aqui” (At 16:28). O soldado do mal não acredita em tanto bem. Após descobrir a Verdade através do exemplo dos presos-tenores, sua declaração é célebre:

Senhores, que devo fazer para que seja salvo?” (At 16:30) Ele espera o manual de instruções…

Mas a resposta é uma só: “Crê no Senhor Jesus, e serás salvo, tu e tua casa” (At 16:31)

“Só isso?” pensa ele. “Só tudo isso!” Pedro responde, escancarando a simplicidade estonteante do plano da redenção.

É por isso que enquanto sobrevôo aqui em cima reflito sobre a complexidade resumida da salvação. Um milagre na raça humana sustentado por duas asas: falar com Deus e ouvir a voz de Deus.

Amo o cristianismo porque naquela prisão o apóstolo não falou de uma doutrina, nem de uma filosofia. Ele falou de uma Pessoa: Jesus. E uma pessoa a gente não “lê”, nem “sabe”, muito menos “decora”. Com uma pessoa a gente conversa. E você não precisa se especializar em comunicação para saber que um diálogo tem duas ações únicas: falar e ouvir. Absolutamente nada mais.

Acho que você entendeu o mais importante. A oração e a leitura da Bíblia sustentam a vida cristã assim como as asas mantém uma aeronave no céu. Por isso estou sentado nas nuvens. E por isso usei essa ilustração para o jovem na porta da igreja. Porque ele desabafou o pesadelo de muitos: “meu maior problema não é negar Jesus, é desconhecê-lo com o tempo passando.”

Testemunhamos por aí muitas situações comprovando que a manutenção é um desafio maior do que a inauguração. Já percebeu? O primeiro beijo romântico é muito mais fácil do que andar de mãos dadas a vida toda. Começar um emprego novo não revela quanto custa para ganhar o bônus de férias. O sorriso hipnotizante de um recém-nascido não é brinde pré-datado da adolescência. Qualquer relacionamento da vida envolve um começo e um meio – disso dependerá o bom resultado do fim. Por isso sempre digo em casamentos que faço: “prometer amar alguém por toda a vida é fácil, o difícil é amar este alguém a cada dia de toda a sua vida”.

Com Cristo é a mesma lógica relacional. Manutenção custa o preço da dedicação. Para continuar na estrada do Céu tem que “bater papo” no caminho. Não tem alternativa. Deus precisava dialogar com Suas criaturas e fez tudo o que podia para isso. Compactou-se a tal ponto de concentrar verdades divinas nos insignificantes fonemas da linguagem humana. Esse milagre está ao alcance daquelas folhas mágicas. Não se pode ficar apenas no “Oi, tudo bem?”. Quando você abre a Palavra de Deus é o exato momento em que Ele tem algo muito mais importante para lhe falar. E só na Bíblia você se depara com os conceitos mais práticos, éticos e relevantes da história.

Lembra-se de quando um amigo ligou para você no celular e o assunto era tão incrível que você estacionou o que estava fazendo para ouvir melhor? (prometo que nunca mais vou dirigir enquanto falo ao telefone!) Isso mesmo. O que Deus tem para lhe falar é uma questão de sobrevivência – um recado íntimo de um amigo querendo imediatamente o seu bem. Ninguém na face da Terra, até hoje, ficou do mesmo jeito depois de mergulhar nas páginas bíblicas. Esta é a asa firme e perfeita, ao alcance das mãos, para manter nas alturas os ideais de sucesso humano. Um sucesso de felicidade eterna.

Mas, é claro, ninguém agüenta só ouvir. Apesar de termos dois ouvidos e uma boca, esta tem um pulmão detrás ansioso por desabafar sua força. Todos nós gostamos de falar – nem que seja somente por falar (jamais concordarei com a idéia de que, enquanto os homens pensam para falar, as mulheres falam para pensar. Pelo menos, na frente da minha esposa!). Mas, brincadeiras à parte, o ser humano tem esta necessidade de contar para os outros a que veio. Os especialistas em comunicação descobriram uma estatística interessante: quando duas pessoas estão conversando, dezessete segundos é a média de tempo que alguém agüenta ouvir até interromper o outro para dizer o que pensa sobre o assunto.

Por isso o avião tem duas asas. E é por esta razão que o centurião aprendeu como é simples continuar com Cristo. Uma vez que você ouve o que Deus quer, através da leitura da Bíblia, tenha absoluta certeza de que Ele também quer ouvir o que você quer, por meio da oração. “Pedi e dar-se-vos-á. Buscai e achareis” (Mt 7:7). Quando criança, eu achava engraçada esta palavra com quatro hífens, “dar-se-vos-á”, mas hoje compreendo o sublime atrás do curioso. A oração é a maneira mais humana que temos para dizer o que queremos. O Todo Poderoso das constelações intergalácticas dá a nós o direito de falar, questionar, suplicar e argumentar. Você pode usar qualquer palavra, “oração”, “prece”, “desabafo”, o que quiser, mas tudo se resumirá no incrível fenômeno de você conversar com o Criador e ser ouvido.

Quantas mulheres conversam com o travesseiro enquanto seu cônjuge se ensurdece. E quantos filhos batem portas dos quartos como um grito de socorro implorando para serem ouvidos? Ninguém gosta de falar com as paredes. Agora, já pensou nisso? Você pode conversar com Deus. Ele é “todo ouvidos” enquanto você se sente a esposa muda. Ele pára sua agenda universal para dar atenção ao adolescente incompreendido. Ele gosta de ouvir histórias, desabafos particulares e confissões trancadas a sete chaves.

Mas tem pessoas que perdem esta grande chance. Se eu soubesse o endereço eletrônico da correspondência pessoal do presidente da república, eu mandaria uma lista de sonhos e decepções para ele. Se você conhecesse alguém que pudesse lhe fazer um desconto na compra da sua primeira casa, certamente falaria com ela. A necessidade leva a ação. E por que não explorar incansavelmente o acesso direto a Quem de fato pode resolver tudo? Quanto tempo do seu dia, causticante de rotinas e compromissos, você dedica contando o que precisa para Deus? Que tal este investimento: falar, pedir e esperar acontecer.

Obviamente, simplicidade é diferente de irrelevância. Não sejamos mimados a ponto de achar que Deus é o Papai Noel das meias penduradas na janela. Ele não é fada-madrinha para só ficar distribuindo encantamentos a nós. Ele pode responder diferente do que pedimos (e muito diferente, por sinal!). Mas Sua resposta será inacreditavelmente melhor do que imaginamos com nossa visão míope de uma existência de 80 anos.

Aí está a maravilha da oração. Quando falamos, Deus ouve. Quando gritamos, Deus desconsidera o grito, mas entende o desespero. Podemos ajoelhar ao pé da cama e adentrar o trono da Graça. Vejo neste cristianismo prático, um diálogo de Pai para filho – de amigo para Amigo. Você pode escudar-se nAquele que gasta tempo ouvindo seus sentimentos transformados em sílabas. “Por que a nossa vida está escondida com Cristo em Deus” (Cl 3:3). Isso é amizade extrema de quem se comunica.

O sinal de “apertar os cintos” acendeu. O destino está perto. O avião começa descer e eu aqui, atrás das asas, ainda pensando nelas. É bom voar com um Deus assim. Bíblia e oração – a receita infalível de uma viagem eterna bem sucedida.

Vamos aterrissar. Tenho que desligar meu computador. Valeu a pena contar isso para você. Valeu mais a pena viajar outra vez em segurança.

Graças a Deus. Graças às asas.

Como cristão, aprenda a voar desse jeito infalível.

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