Tesoura de Ouro

jan 25, 2011 by

Tesoura de Ouro

“O problema é vermos bicho-papão em bola de lençol ao pé da cama”

Voltei. E mais coruja ainda.

Nestas últimas semanas, quando decidi não teclar debaixo dos coqueiros, minha filha foi a grande atração turística das férias. E não seria diferente! Acredita que ela já me chama de diversas maneiras? Com 18 meses, é uma erudita da Academia de Letras com seu vocabulário riquíssimo de sinônimos: ô pai, paiê, páá, papai, papi! E a que eu mais gosto, ô fortão, super herói da  minha vida!! – bom, não é bem isso, mas estou certo que é o que ela quer dizer quando dá um grito de alegria arrepiantemente lindo.

E sua vontade própria? Implacável! Tente visualizar um pedacinho de gente desfilando com biquíni da Cinderela, mini-óculos imitando Prada, segurando uma deliciosa manga esmagada nos dedos, dizendo de indicador apontado: nã – não! Agora que ela aprendeu expressar seus gostos, vivo a mistura da comédia e do terror. Por vezes, é tão engraçado que até falta ar, outras assustam a ponto de paralisar sem sabermos o que fazer. Num momento sua independência não admite mãos dadas, de repente ela estira seu braço com semblante tão exigente que nos obriga a obedecer imediatamente. Outro dia não aguentei tanta ordem mirim que repliquei à “encantadora liderzinha”: eita, ô Dilminha! Afinal, a baixinha sabe o que quer e tento imaginar nossa Presidenta da República quando mandava ainda de fraldas… (difícil foi me proteger da fúria materna, logo a seguir!)

Mas o grande “show estapafúrdico” das férias foi na última semana. Caímos na real ao perceber que nossa filha estava mais linda pra nós do que pra si mesma. Com cachinhos de cabelos hipnotizando os pais fascinados, não queríamos reconhecer que eles já se aproximavam do seu queixo com furinho. Fomos ao shopping, escolhemos o melhor salão, o vestidinho era de festa, demos um brinquedinho, e avisamos: “filha, você ficará ainda mais linda. Vamos pedir um estilo Channel com franginha de Lady Dy”. E achamos, em vão, que ela aceitaria este apelo de top model. Patético engano! Ficou mais pra Lady Gaga. Sua delicadeza fugiu uma galáxia quando ela viu a tesoura na mão da hair stylist (era pra ser chique, sim!). Minha filha começou a gritar de um jeito que eu procurei um daqueles enormes secadores femininos – tipo capacete da NASA – pra me esconder dentro. O pampeiro foi tão escandaloso que todos os cabeleireiros emudeceram suas conversas construtivas espiando o que se passava. Indignado, tentei ajudar: “filha, isso lhe deixará linda, não é injeção, nem médico!” – pronto, lembrei a palavra tenebrosa e os berros tornaram a torcida do Corinthians um sussurro. Surtado de vergonha e pressa, segurei as pernas dela, a mãe firmou seu rosto nos braços, e disse: “corta de qualquer jeito! Tira só o cabelo do olho, e logo!”. Rapidamente, as mãos profissionais foram direto ao ponto. Ufa! Fim do barraco.

Vou dizer uma coisa: nunca vi, em toda a História da Humanidade, tesouradas tão caras. Foram apenas três: Zip, zap e zum. Treze reais! TREZE reais?! Sem desconto – nem parcelamento. Investi num corte de cabelo tão fashion que até eu faria com a tesourinha do meu canivete suíço. Depois, no carro, ela falava “bê-bê” apontando pro mesmo cabelo, enquanto eu me perdia em crise existencial: por que é tão difícil pra ela me deixar fazer o bem “que é pra ela”?E sendo completamente indolor? Ela não confia em mim?!

Não adianta! Quem sabe menos se assusta mais. O desconhecido se agiganta como uma imensa sombra projetada na hora do por-do-sol – maior do que é. Isso pode gerar situações embaraçosas. Enquanto o engenheiro dorme tranquilo no prédio que construiu, um retirante lá do interior entra em pânico vendo uma escada rolante. A ignorância destaca a insegurança, e o instinto da sobrevivência grita: se você não entende tudo, fique alerta com cada parte! Só que o problema é vermos bicho-papão em bola de lençol ao pé da cama. Quantas vezes nos esperneamos assustados mesmo no colo do Pai do Céu? E se confiássemos nAquele que tem a visão do todo? Seríamos muito mais felizes com nossos sonhos, relacionamentos e cachinhos de cabelos melhor aparados.

Começo este Novo Ano olhando uma filha com três mechas a menos na franja, enquanto espero confiar mais no Pai que diz: “Filho, isso não dói! ‘Venha, e Eu cuidarei bem de ti!’ (Jeremias 40:4)”. Que tal pensar nisso? Merecemos um descanso maior acreditando, do que uma curtição menor se apavorando. Crer no Criador é reconhecer que, como criaturas cheias de vontades, jamais veremos o todo. Sei lá se as previsões são ruins, prefira segurar firme no imutável Provedor. Os medos que tentarão assombrar você nos próximos meses não passam de tentativas covardes do Inimigo vencido buscando ser o que não é: senhor da sua vida. Agora, quando Deus nos envolve em Seus braços onipotentes não há tesourada no Universo visível, nem no invisível, capaz de machucar permanentemente um filho, ou filha, de Seu incalculável amor divino.

Da próxima vez que algum “salão da vida” vier cortar algo de você, faça o que minha princesa não fez: estando pertinho do Paizão, não se apavore, e veja-O provar o poder da Sua promessa. “Mas o que confia no Senhor está seguro” (Provérbios 29:25). Isto é fantástico! Ele sempre fará Seu melhor para nosso bem, por isso não duvide no desconhecido de Quem inventou o próprio Conhecimento. Valerá sempre mais. E você terá um futuro extraordinário – não desperdiçando a experiência do Céu.

Ah, além disso, será ótimo olhar no espelho depois.

Que venha mais um super ano!

.

Related Posts

Share This