Demita-se

jul 12, 2010 by

Demita-se

Você pediria demissão com um salário de meio milhão de euros? Largaria a empresa sem embolsar o bônus de 1,5 milhões de dólares? Que tal cair fora da mais alta cúpula de uma corporação bancaria internacional? E que louco neste planeta faria uma coisa dessas? Fique sabendo que tem doido assim por aí! Acabo de conhecer alguém que, além de fazer isso, convenceu-me o mesmo se estivesse nesta situação.

Li o livro “O Executivo Sem Culpa” e parei pra pensar na vida. Seu autor, João Ermida, saiu do anonimato dos milionários ensandecidos para adentrar o mundo dos demitidos inaceitáveis. Depois de décadas dançando a ciranda dos bilhões de dólares, descobriu que estava enriquecendo no bolso e mendigando no coração. Com linguagem ética, respeitosa, porém franca, o ex-tesoureiro mundial de um grande banco declara: “em 2003 pedi demissão do grupo Santander para pensar melhor minha vida. Decidi viver com aqueles que amo: minha família” (p. 61). À frente, sua confissão assusta: “eu me dispus a deixar pra trás alguns milhões de euros por ano em troca de paz. É verdade que o dinheiro era importante, mas nada vale tanto para mim quanto poder ser eu mesmo. Sentir que vivo bem com minha consciência foi a maior recompensa que recebi desde que deixei o mundo dos negócios” (p.78). Quer mais? “Não há nada que dê mais paz de espírito a alguém do que acordar de manhã e não ter de decidir quem é” (p. 118). Surpreso? Eu também!

O que leva um executivo trocar seu assento cativo na primeira classe pela econômica? O mesmo motivo que, se não revertido a tempo, carrega endinheirados frustrados à beira do colapso emocional. Um dia um amigo me disse “o pau de sebo do poder é escorregadio – alguns até chegam lá, mas deslizam logo depois”. Chegar ao topo é uma coisa, manter-se ali já é outro preço. Às vezes, sacrifica-se o que é verdadeiramente importante – família, caráter e princípios – para conquistar, na miragem do poder, exatamente o que se julgaria não sacrificar. Ou seja, as fileiras de líderes buscando idoneidade a priori crescem como contraponto deste século obcecado por resultados lucrativos em balanços superavitários.

Atenção, Pais! Jamais serei contra a busca da excelência máxima num mundo de medíocres. Pelo contrário, sou “fã de carteirinha” de quem sua a camisa, e até sangra nos pés, para correr à frente dos acomodados. A questão aqui é reverter os inestimáveis valores penhorados pela fome de chegar ao teto do mundo. Tem gente confundindo produtividade com ganância, ou comprometimento profissional com relativização da honestidade. Certa vez, outro “demitido da elite dominante da época” também alertou: “portanto, não temais, pois nada há encoberto que não venha a ser revelado; nem oculto que não venha a ser conhecido”(Mt. 10:26), e o Mestre foi mais longe: “quem a si mesmo se exaltar será humilhado; e quem a si mesmo se humilhar será exaltado”(Mt. 23:12). Isto soa absurdo nas envidraçadas salas de diretoria no universo empresarial. Mas, não se iluda! A dança das cadeiras de quem esconde para aparecer sempre tem seu acorde final. Um dia a fachada cai. Quando isto acontece, vergonha e humilhação explodem em todas as direções.

Olhe ao redor, vivemos num século de homens sufocados com stress, exaustos de colecionar disfarces, inseguros por manter bônus invejáveis e de consciência cauterizada por abrir mão daquilo que é certo. Em situações extremas, melhor é demitir-se daquilo que estraga sua família, se você já foi admitido por esta família que lhe perdoa. Voltar pra casa em paz é muito melhor do que enriquecer em pé de guerra. Minha filhota acaba de fazer um ano enquanto avalio as prioridades familiares convivendo com as responsabilidades profissionais. Ninguém quer viver debaixo da ponte, mas achar que só na cobertura há plenitude, isto pode trazer um brinde indesejável: a favela dos relacionamentos frustrantes.

Que tal arriscar sair da zona de conforto se os dias estão desconfortáveis e vazios? Ganhar um pouco menos pode significar ganhar muito mais (ou dinheiro na conta fabrica beijos estatelados de quem nem sabe quanto é 2 + 2 ?!). Horas atrás eu estava preocupado com minhas faturas de cartões quando senti dois braços agarrando minha perna depois de 5 passos desengonçados. Consegui – ao menos desta vez – focar na prioridade que faz todo o resto valer mais: larguei 2 minutos de dívidas pra rolar no chão com 10 quilinhos de crédito. Fiz um bom negócio! Mas gostaria de lembrar mais esta admissão vitalícia daqueles que amo.

Ok! se você leu até aqui, das duas uma: ou um dia já “rodou a baiana” e honestamente re-colocou as coisas prioritárias em primeiro lugar, ou está na iminência de descer ladeira abaixo rolando cada vez mais sozinho. Que tal ser macho o bastante pra ter coragem de fazer o que é certo neste mundo de incertezas, e homem o suficiente para ter orgulho de si mesmo? “Os homens perdem a saúde para juntar dinheiro e, depois, perdem o dinheiro para recuperá-la. Por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem o presente, de tal forma que acabam por nem viver no presente, nem no futuro. Vivem como se nunca fossem morrer e morrem como se não tivessem vivido…” (Confúcio).

Após esta boa leitura “divisora de águas”, reverbero aqui as 3 qualidades de valores mais importantes para homens-pais sonhando em ser honestamente bem-sucedidos:  VERDADE. Apesar “da mentira ser sempre muito mais bem paga do que a verdade”, não duvide de que “olhar o outro nos olhos requer muito de cada um de nós”(p. 115). Não seja um covarde no chiqueiro dos trapaceiros. “A verdade é sinônimo de eficiência e dignidade, com a diferença de que, com ela, não menosprezamos o ser humano que está ao nosso lado”(p.116).

HUMILDADE. A linguagem do serviço parece estar em desuso. “O mundo é dos espertos”, falam por aí. Mas algo me diz, no fundo da alma, que a humildade ainda é o verdadeiro atalho para uma carreira de sucesso. Não é fácil – de maneira alguma – mas a tentativa vale a pena. “A falta de humildade é um dos grandes problemas entre os gestores do século XXI. Um grande ego nunca será bom conselheiro, em especial quando as águas mudam de curso – e elas mudam mais do que a gente pensa. (…) A promessa de repetição do último êxito é atraente, mas não é realista”(p.119). Apostarei sempre nos homens-pais que podem aprender alguma coisa com as criaturinhas sem dentes, mas de coração puro.

SOLIDARIEDADE. “Ajude o próximo!”, parece ter virado mero slogan de campanha promocional ultrajante disfarçando os interesses comerciais das grandes empresas. A verdade é que ser solidário começa no ambiente de trabalho e não no Lar de Idosos do bairro ao lado. “Começa quando nos interessamos pelos colegas e subordinados, por seus problemas – que amanhã podem vir a ser os nossos”(p.120). Tem homem achando que empatia virou sinônimo de anemia, e que voltar-se para o próximo é derrotar-se para si memo. A coisa está toda errada! Identificar-se com o problema alheio é depositar na sua própria conta emocional investimentos que voltarão multiplicados para si lá na frente. “A solidariedade deveria estar sempre presente nas decisões de negócio e nunca ser suplantada pelo desejo de eficiência”(p.121).

Finalmente, apresento-lhe uma citação que tem norteado minha vida. Uma verdadeira grande escritora, que fugiu da literatura fútil com garotos sobre vassouras e vampiros apaixonados, escreveu: “A maior necessidade do mundo é a de homens; homens que não se comprem nem se vendam; homens que no íntimo da alma sejam verdadeiros e honestos; (…) homens cuja consciência seja tão fiel ao dever como a bússola o é ao pólo; homens que permaneçam firmes pelo que é reto, ainda que caiam os céus.” (White, Educação, p.57) Prefiro ter um caráter ingênuo na arena da vida, a ser um malandro infeliz com vergonha do espelho. Demita-se daquilo que pode arrancar de você o poderoso fôlego da vida. Demita-se de ser carregado pela enxurrada das estratégias desumanas. Demita-se do salário gordo que lhe mantém com sonhos magros. Enfim, demita-se para dormir em paz com sua consciência tranqüila.

Faltou coragem para este ato heróico? Comece demitindo-se do medo de re-escrever sua história cujos fins serão chancelados pelos meios.

Demita-se. Depois disso, felicite-se!

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