Mordedor de Tornozelo

out 13, 2010 by

Mordedor de Tornozelo

“Os críticos só latem, a menos que você ofereça o dedo!”

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Detesto cachorrinho chato metido a cão de guarda. Aqueles mesmos! Minúsculos, latem que nem ganso rouco, irritam como giz arranhando lousa, e perseguem seu calcanhar feito lata amarrada em pára-choque de recém-casado. Peraí! Não suporto ver um escovão de pêlos se achando no direito de estragar meu passeio!

Outro dia, caminhava deliciosamente com minha musa-infantil de um ano e meio, e um pernilongo canino inventou de vir atrás da gente. Enquanto a filha achava graça, o pai perdia a cabeça. Vem cá, estes desengonçados monstros esqueléticos de quatro patas tinham que sumir misteriosamente abduzidos por um ralador de carne moída! Cruel demais? É porque você não estava lá pra se livrar daquela peste histérica. Ô bicho-chato! Sai pra lá, estorvo! O trambolho esganiçado nem alcançava minha batata da perna e já queria fazer purê do meu bom humor. “Me deixa em paz e vai cuidar da sua laia de atordoados”, ignorei o delinquente arranha-sola até ele cansar da minha canela chispando pra enervar outro. Depois da interrupção na doce-lua-de-MMs entre pai e filha, voltamos a  comer balinhas coloridas escondidas da mãe, e parei pra pensar nos “piores neuróticos amigos do homem”.

Vira e mexe todos somos assolados por estes trombadinhas da paz: os famigerados mordedores de tornozelos. Às vezes, são poodles-micro-toys metidos a pit-bulls, outras são chiuauas se achando dobermans. Todos odiosamente iguais, e com a mesma miopia doentia (existem exceções!): eles nem se enxergam e já querem morder – não passando de meros roedores sem rabo. É ridículo, beirando o detestável. Eles não têm dentes pra nada, não assustam nada e se acham tudo. São uns vira-latas de alumínio falsificado – um barulhão só pra fazer fuá.

Mas, e você, se lembra da última vez que um roedor de canelas atazanou sua paz? Como reagiu? Seguiu seu caminho indiferente, ou se deitou oferecendo o pescoço? Não deu a mínima pra mala-de-focinho, ou abriu a gola doando sua jugular? Êpa, não menospreze a pergunta, pois tem gente fazendo exatamente este absurdo. Tá duvidando? Olha só!

O maridão chega entusiasmado com o elogio do chefe e a esposa-de-urtiga alerta: “hum, não se iluda que você nem é tudo isso!” O aluno tira um B+ na prova e o colega-talibã reage: “olha o analfa saindo do Mobral!” O líder visionário explode de empolgação com a ideia e o funcionário-chulé cochicha: “baixa a bola antes de rebaixarem você como os anteriores!” A princesa beija o espelho saindo flutuando pra jantar dentro de um sapatinho de cristal até o namorado-sapo-rabujento desencantar: “chíí, mas que cabelo é esse?” A amiga vibra com a lipoaspiração presenteada pelo marido e as quase-amigas-de-narizes-tortos desanimam no chá da tarde: “sei não, tempos depois tudo volta a ser como antes”. O trabalhador chega animado com um insight genial pra empresa até o chefe-tosco-mal-amado jogar o baldão: “fique no seu canto porque você não entende nada deste jogo”. Enfim, toda vez que alguém tem um impulso pra frente, surge um mordedor de calcanhar puxando pra trás. Apresento a você, os demolidores da festa: os críticos!

Esta semana devorei um livro numa só sentada: Nos Bastidores da PIXAR, da Editora Saraiva (ainda escreverei vários posts com as lições absorvidas de lá!). Aqueles que encantaram o mundo com os desenhos ToyStory, Up, Procurando Nemo, Ratatouille e Wall-E, descobriram um oásis criativo no deserto dos críticos. E eles dão o manual de sobrevivência: os mordedores de tornozelo do local de trabalho não são diferentes. São os eternos pessimistas que vivem repetindo “isso nunca vai dar certo” ou “não podemos tentar isso” ou ainda “a gerência jamais aprovará”. Não deixe que eles peguem você! Ignore os pessimistas! (p. 104) Uau! Olhei meu calcanhar calejado e percebi que tenho dado atenção demais pra estes bichos-chatos. Já percebeu? Se você ignora um cão irritante, ele desaparece – agora, se você se curva pra tentar acalmá-lo, pode até perder um dedo.

A Bíblia está povoada de gente assim. Olhe Noé – construindo um snowboard gigante pra descer um Grand Canyon sem neve – o que ele deve ter ouvido de latidos! E Neemias? Prometeu reconstruir a Muralha da China com baldinhos infantis de areia da praia – já imaginou o absurdo? Houve também os doze espias de Israel: enquanto dez se viam micro-hobbits diante dos brotossauros filisteus, só dois ousaram crer que podiam virar o placar perdido. Lembra de Pedro no barco antes de Cristo vir passeando sobre o maremoto? Ele criticou o Mestre a ponto de questionar suas credenciais messiânicas! Em barco assim, Jesus não entra – jamais! E os caçoadores rindo da careca do profeta sem sentir o bafo das ursas no cangote? A Palavra de Deus ama confrontar homens de verdade com latidores-fracotes.

A realidade é que os críticos só latem, a menos que você ofereça o dedo! Os pessimistas não valem nada, há não ser que você os valorize. Cada vez que você tiver um sonho alguém latirá no seu tornozelo. Seja um visionário e proteja sua canela. Porque eles sempre estarão lá – pra beliscar, mordiscar, desanimar e distrair. Por isso, Neemias disse: “estou fazendo grande obra, de modo que não poderei descer” (Neemias 6:3). E Jesus repreendeu Pedro: “homem de pequena fé, por que duvidaste?” (Mateus 14:31). Noé prosseguiu: “era homem justo e íntegro entre os seus; Noé andava com Deus” (Gênesis 6:9). Josué e Calebe enxergaram: “Eia! Subamos, e possuamos a terra, porque certamente prevaleceremos contra ela” (Números 13:30). E você também alcançará a linha de chegada se tão somente visar o máximo, a despeito de se sentir o mínimo. Continue!

Agora, o outro lado é mais assustador e serve de alerta: se ninguém está criticando ou desanimando você, já pensou que talvez possa ser um perigoso sinal de ser você quem está mordiscando alguém? (Não se sinta agredido! Isto é apenas um brainstorm entre amigos.) É que, geralmente, quem persegue calcanhares por aí raramente percebe no próprio coração por ali. Você é daqueles que curte o sonho ou encurta o papo? Delicia-se com uma boa gargalhada ou foge para as sacrossantas catacumbas do mau-humor? Apoia as ideias quase impossíveis, ou adora puxar o pé-de-apoio com a patética beliscada “isso nunca vai dar certo”? Não o estou conclamando a virar um lunático de devaneios irresponsáveis numa terra encantada com miragens de fadas. Mas, sim, apenas pedindo a você se observar quando algo maior e diferente surge pra tirá-lo da zona de conforto. Você vibra? Ou late? Rema no barco, ou só pesa dentro? Avalie-se!

O mundo está obcecado por descobrir gente talentosa capaz de ousar desbravando o desconhecido. Se todos já fizeram, que tal fazer diferente? Se existem mordedores implodindo o ânimo dos outros, saiba que todo heroi na face da Terra leva cicatrizes na altura da canela – sem exceção! Agora, mil vezes ser eu o mordido do que o mordedor. Prefiro comprar uma caneleira de aço a provocar os outros a gastarem o mesmo.

Houve uma noite dramática onde um calcanhar foi mordido pra valer. Uma serpente tenebrosa substituiu o cachorro vira-lata. Ela mordeu sem dó: “pára com isso. Pra quê se machucar tanto por este serzinho humano de nada? Você vai gritar, sangrar, implorar por socorro e sumir no vazio da morte. Desista já! Não valerá a pena.” E o Heroi tremeu na alma: “Pai, se possível, passa de mim este cálice (Mateus 26:39). Será que eu consigo? Nosso tornozelo dói demais!” No Getsêmani Jesus sentia o cheiro da cruz, mas nosso pecado asfixiava-o contra o perfume da ressurreição. Jamais, na história da eternidade, crítica e desânimo se concentraram tanto sobre uma só Pessoa. Toda a potestade do mal beliscava Sua canela, e tudo o que Ele tinha pra se agarrar era a esperança no poder do Pai. Mas, agora, até isso Lhe fora arrancado – ficando apenas só, no escuro. Não foi fácil pra Ele. E não me diga que é mais difícil pra você. Acredite: dá pra prosseguir acima da tentação do coro dos derrotados. Pai e Filho não desanimaram – e você também não desanime, muito menos desanime os outros. “Somos mais que vencedores por meio daquele que nos amou” (Romanos 8:37). Se Cristo conseguiu superar a serpente, você conseguirá ignorar um arranha-sola.

Não uso bola de cristal, mas posso fazer uma previsão? Logo, outro mordedor de tornozelo perseguirá seu passeio pela vida. Eles se multiplicam assustadoramente formando uma rede onipresente de chatos desanimadores. Quer saber? Tente se lembrar deste texto e, por absurdo que pareça, agradeça a Deus – Aquele mesmo cujo calcanhar também doeu um dia. E comemorar o quê? O privilégio reservado só aos grandes nomes no panteão dos herois que fazem algo capaz de mudar o ordinário das coisas. E, olhando pra sua canela desejada, respire fundo celebrando o memorável fato de contribuir para uma vida melhor – de seres ímpares acima dos mesmos de sempre. Continue em frente! E seja  extraordinário.

Os outros silenciarão.

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