Pai Marketeiro 3.0

jun 17, 2010 by

Pai Marketeiro 3.0

“O núcleo da relação pai-filho não são coisas, são lembranças juntos”

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Estou de queixo caído, literalmente paralisado. Belisquem-me se não estou sonhando. Acabo de ler uma revolução – quase inacreditável. Meu guru arrancou a toalha com tudo em cima. Resultado: um terremoto capaz de estremecer a alta cúpula do império corporativo. Executivos, gestores, diretores e líderes, cujos negócios norteiam nosso planeta, fiquem espertos! Quem não surfar esta nova onda será engolido no tsunami. Vem aí, a fórmula do segredo do sucesso (meu queixo ainda continua caído…)

Falo do livro onde o nome do autor vende mais que o título. Nem é pra menos, Philip Kotler tornou-se referência inquestionável de sabedoria prática alinhada às tendências eficazes do universo empresarial. E o mago lançou sua última poção mágica: “Marketing 3.0”. Devorei as páginas com um susto em cada folha. Impensável!

Formei-me em Publicidade e Propaganda na Universidade Federal do Paraná, em 2003 – um curso ímpar onde aprendemos regras para, criativamente, quebrá-las depois vendendo mais. De lá pra cá, sou um curioso insaciável por ver na vitrine da vida a inteligência humana em sua ousadia máxima. Creio na boa expressão do marketing apelando ao consumidor se o produto é essencialmente bom – abomino, no entanto, o estupro mental que inventa miragens de paraíso entregando o inferno traiçoeiro do consumo irresponsável. Cabe a cada ser humano o direito irrevogável de legislar com prudência o uso soberano de seu livre-arbítrio…  Chega de filosofar! Voltemos às estratégias humanas que, desde as lentilhas de Jacó, hipnotizam Esaús modernos no escambo de suas primogenituras. Se quiser vender, saiba convencer, para isso existe o marketing.

Obviamente, se o que me aterrorizou nomearam 3.0, é porque outras revoluções se antecederam. A Era Industrial carregou o Marketing 1.0 coroando o produto como fim em si mesmo. “Carro pode ser de qualquer cor, desde que seja preto”, dizia Henry Ford reforçando a tendência. Os famosos “4Ps de McCarthy” reduziam a Preço, Produto, Promoção e Ponto-de-venda a mentalidade da época. Foi bom enquanto durou, pois algo maior estava porvir. Surgia a Era da Informação arrastando a humanidade para o Marketing 2.0., e o palco das atenções vira propriedade exclusiva do cliente. As necessidades e desejos dos públicos-alvos são questões de ordem imediatas para elaboração de estratégias. Os egípcios são lembrados por um faraó moderno erigindo um monumento empresarial – a Pirâmide de Maslow. O capitalismo se encanta com esta definição das necessidades humanas: na base, as questões de sobrevivência, no meio, a segurança e auto-estima, na ponta, a auto-realização com significado. Simples assim? Só por enquanto. Prepare-se para o botão detonador.

Semanas atrás, Kotler fez o circo pegar fogo. “A espiritualidade vem rapidamente substituindo a sobrevivência como necessidade primária dos seres humanos”, ou “a sociedade hoje está cada vez mais em busca de recursos espirituais, acima até mesmo da busca de satisfação material”. E mais, “dirigir ao espírito dos consumidores”, “decifrar o código da alma”, e até “alcançar os consumidores como seres humanos plenos, feitos de alma, coração e espírito” (p.21e 40). Dá pra acreditar nestas expressões? Veja isso: “o Marketing 3.0 oferece respostas e esperança às pessoas que enfrentam problemas e, assim, tocam os consumidores em um nível superior”(p.5). É o advento do “marketing do espírito humano (p.65). Chegamos ao surpreendente ponto de virada da interface “high-tech” da Internet para a “high-touch” humana (p.100).

“Espera aí”, você diz com seu queixo imitando o meu, “isto é o mercado ou um púlpito? Kotler perdeu o faro marqueteiro virando arauto das boas maneiras?” Sei lá! Parece que, finalmente, ele encontrou a sabedoria mais do que só esperteza. Suas páginas parecem tão atuais quanto outras amareladas pelo tempo: “tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento (Fp 4:8). Século XXI & Século I – que tal 20 séculos para o bumerangue voltar pra casa? Ou o apóstolo Paulo escondeu seu lado publicitário, ou Kotler revelou sua paz de espírito. Bom, não vejo nada de Duda Mendonça no primeiro, mas admito detectar algo de Nelson Mandela no segundo.

A verdade é que a nova tendência do mercado troca o canibalismo pela cooperação. Virar Maslow de cabeça pra baixo, valorizando a auto-realização como um fim questionando os meios, faz-nos pensar: quanto tempo investimos na coerência de alma? Até quando acordaremos decidindo que personagem encenaremos? Passar outros pra trás é, realmente, projetar-nos à frente? Somos o Coiote incansavelmente neurótico, ou o Papa Léguas saboreando a vida com sinceridade? E, não se irrite, por favor! Mas, enquanto o mundo dos negócios está se reinventando na valorização do ser humano, que pais seremos nós com aquela rigidez indiferente à moda antiga?

Não quero me deter no Marketing 3.0. Quero desafiar nossa raça a encarar a revolução da Paternidade 3.0! No passado, os pais 1.0 se desculpavam com a caça do jantar a ausência na tenda o dia todo. Depois, a “autoridade imperial 2.0” silenciava o diálogo dos súditos com o orgulho machista impenetrável. Ainda houve uma geração 2.5 obcecada pelo sucesso profissional seqüestrando o “amigo em casa” como refém da rotina impessoal de agendas inacabáveis. E agora, finalmente, somos convidados a demolir tradições fúteis e pular do arranha-céu na direção do tapete do quarto: pais 3.0 valorizam a preciosidade incalculável de viver algo bom com quem crescerá rápido.

Pego carona no mundo lá fora para refletir mudanças drásticas no meu mundo aqui dentro. Sou coerente com a carência genuína que minha filha tem do “seu melhor amigo”? Meu amor declarado se fundamenta na honestidade de ações práticas? Tem pai vendo filho como produto achando que dá pra brincar enquanto responde seu Blackberry. Outros vêm sua família como clientes cujas necessidades de consumo, uma vez satisfeitas, lhe absolvem da presença no jantar – às vezes de corpo, mas sem alma.

Semana passada almoçava com “minhas mulheres” (a filha de 11 meses e a esposa com um pouco mais), quando ouvimos a conversa da mesa ao lado. Quatro homens quase gritavam: “quando o assunto é cliente, gosto de dar atenção. Ele em primeiro lugar. A chatice é quando tem minha família pra ficar no pé!” Estupefato olhei minha esposa que, petrificada, não acreditava no que ouvia. Ali estavam empresários inflando o ego sem perceber a falência miserável da felicidade plena. “E cadê o que realmente importa?”, perguntaria o guru da paternidade 3.0.

Chegou a hora da bandeirada quadriculada. Filhos, esposa e família são maravilhas vivas que merecem cativar-nos como público-alvo. “A vitória é o percurso”, ouvi de alguém. E nesta trajetória as pessoas que mais amamos merecem o melhor do nosso amor. Mesada, shopping, doces, sapatos novos e clínicas de beleza, não substituem o elemento humano calando fundo no coração. Presentes têm seu espaço, mas estar presente preenche muito mais. O núcleo da relação pai-filho não são coisas, são lembranças juntos. E o que você tem feito por isso? Tem solidificado seu “ego paterno” sobre valores de relacionamentos coerentes?

A pressuposição básica impulsionando o Marketing 3.0 foi a explosão das redes sociais como ameaça rasteira a empresas que tentam enganar consumidores com embalagens lindas envolvendo produtos sem qualidade. Toda a imagem maquiada da TV pode rapidamente implodir, se na comunidade virtual do boca-a-boca, ou IP-a-IP, surge uma mobilização contrária de internautas desviando a opinião pública favorável. O Twitter pode devastar mais que a propaganda no Jornal Nacional. Da mesma forma, a Paternidade 3.0 se vê obrigada a respeitar mais a “inteligência familiar” questionando a honestidade do tempo, sinceridade da presença e bom-humor na convivência. Uma imagem desgastada de um pai na mente do filho não é simples de ser revertida. O caráter aprendido vale zilhões de vezes mais do que mera aparência comunicada.

Concluo fazendo um alerta: os pais que sonham o bem de seus filhos antes de “heróis admiráveis” precisam ser amigos confiáveis. A honestidade da convivência pesa mais que certos equívocos na educação por aí. Erramos porque não somos infalíveis, mas a credibilidade da sincera devoção de amar de maneira prática perdoa as piores falhas momentâneas. Podemos ser melhores pais. Podemos conquistar nosso “mercado” com a valorização da família que nos ama. E a consciência tranqüila é garantia certa de uma paz de espírito que só os verdadeiros pais-amigos podem experimentar.

E isto é felicidade. Muito maior que 3.0!

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