O Sábio Sogro-Mala

ago 18, 2010 by

O Sábio Sogro-Mala

“Você não fica menor se reconhecer outros ficando maiores”

 

Muito se fala da sogra. Pouco se diz do sogro.

Acho uma afronta os maridões que – antes do beijo na sogra, quando ela vem praquela inadiável visita – já olham o tamanho da bagagem. Dizem que a distância ideal para sogra morar é: não tão longe pra ela chegar “de mala e cuia” por toda temporada, nem tão perto pra ir entrando de chinelo de dedo. Meu amigo dizia: “minha sogra é uma pedra preciosa! Mas é uma pedra!”. Absurdo! Amo minha sogra! Mas adoro mais sua filha! E o que dizer do sogro? Se existe “sogra-mala-sem-alça” (Ellen, meu amor, a minha jamais!), então o marido quê é? Um “sogro-mala-sem-zíper”?!

Certo dia, um sogro “chegou junto” do genro provando que sua “mala” tinha uma incrível bagagem de experiência administrativa. Numa carreira meteórica, o marido de sua filha foi promovido a CEO da empresa, e agora liderava culturas, funcionários e idiomas de uma imensa multinacional. O sogro tentou entrar no arranha-céu da diretoria-geral e foi barrado na fila do elevador. Ela dava voltas – e a espera profetizava horas até sua vez. Foi à saída de emergência e, os 45 lances de escada até o envidraçado andar presidencial, também estavam lotadíssimos – todos sufocados esperando falar com o importante genro. O que, pra alguns, provocaria fanática admiração por poder, não teve graça nenhuma para o sogro! Vendo o limpador de janelas subindo no andaime externo, o velho lhe deu uma gorjeta e escalou o atalho do lado de fora. Ao chegar no 45º andar, vendo o mundo a seus pés, bateu no vidro, surpreendendo o presidente. Aterrorizado, o genro abriu a janela, puxando o sogro pra dentro: “O que você está fazendo aqui? Deste jeito? Não tinha outra maneira civilizada de me visitar?” Explicar, demoraria demais, então o “mala” despejou seu conteúdo:

“Que é isto que fazes ao povo? Por que te assentas só, e todo o povo está em pé diante de ti, desde a manha até ao por-do-sol? (…) Não é bom o que fazes. Sem dúvida desfalecerás, assim tu, como todos que estão contigo. (…) Procura dentre o povo homens capazes, tementes a Deus, homens de verdade, que aborreçam a avareza: põe-nos por chefes de mil, de cem, de cinqüenta e de dez, para que julguem este povo em todo o tempo. (…) Se isto fizeres, e assim Deus to mandar, poderás então suportar.” (Êxodo 18:14-24)

Confesso que nunca vi – na Bíblia e no mundo corporativo – uma mala-sem-zíper que enxergasse tanto! Jetro entrou pra história do empreendedorismo como o verdadeiro guru da liderança. Quando uma empresa cresce demais, se o líder tenta atender diretamente a todos acabará desorganizando, desorientando, frustrado e, o pior, ocupando precocemente sua cova no cemitério. Moisés estava assim – e seus funcionários de Israel completamente perdidos. Pense no desespero do chefe-maior, chegar toda manhã ao estacionamento vendo a fila de atendimento virar a terceira esquina. Isto é administrar? O sogrão desmascarou provando que não!

Admiro a expressão “arte da delegação”. Ela traduz melhor a realidade. Delegar não é fácil – cheira perda de poder. Mas, como toda arte, ela exige do artista a paciência de burilar, treinar e aperfeiçoar sua obra com perfeição. Muito líder por aí delega mais como pedreiro do que como escultor. Um “usa” a pedra pra chapiscar cimento, o outro “esculpe” a pedra com cinzel. Olho chefes desgastados mundo afora carentes de uma mudança urgente! E você, experimentaria a grande lição de Jetro? Sejamos pragmáticos. Que tal praticar a sabedoria do sogro-mala?

1) Admita sair de cena. Parece simples, mas não é. Quando o sogro falou a Moisés “escolha”, nas entrelinhas ordenava: “des-escolha-se!” Sei lá se inventei esta palavra, mas é verdade. Ter pessoas aliviando problemas significa que você poderá ficar de fora de certas soluções. O verdadeiro chefe foca prioridades mais importantes, e se controla ao sentir-se obcecado por resolver tudo sozinho. Uma vez que você delegou, dê espaço e autonomia a quem você confiou a ordem. Quem lidera liberta! Muitos executivos especializam-se no discurso, mas pecam na prática. Ouvi um que começava a reunião de diretoria assim: “vocês são livres para pensar, falar e discordar quanto quiserem – contanto que, ao final, aprovem minha proposta!” Isto é delegar?

2) A visão da realidade não é delegável. Moisés, mesmo obedecendo Jetro, não delegou a transmissão da palavra final da visão divina para o povo. Se você tem 5 ou 50 sub-líderes que aliviam sua carga com outros colaboradores, puxe sempre para você a prudência, os princípios, o norte e o foco. No livro “Como Conduzir seus Negócios pela Bíblia”, Dave Anderson alerta: “Jamais delegue a visão. Isto é inegociável!” Seja claro ao pontuar o que seu olhar mais amplo está antevendo lá à frente. Verdadeiros líderes assumem a responsabilidade de ver o quadro além da moldura. Sua percepção determinará se seus líderes aprendizes serão águias ou gansos.

3) Descentralize tarefas, mas jamais “delegue” a confiança. Acredite no seu trabalho e confie nos seus líderes. Ou seja, não escolha gente em quem você não confia. A segurança é imprescindível para a produtividade. Repasse tarefas confiáveis, mas não abra mão da confiança com e para você. Viva o clima de forte vínculo com seus líderes pra isto se refletir nos resultados posteriores às tarefas delegadas. Ao escolher um líder no time, não priorize a competência até você pisar em chão firme. Ou, que tal o “melhor” discípulo traí-lo por 30 moedas de prata? A relação de confiança é um para-raio contra tempestades de insubordinação e difamação num ambiente competitivo.

4) Permita erros, não vícios. Pessoas sempre vão errar – inclusive você! Mas, falhas de caráter e vícios cultivados devem acender a luz vermelha. Fique alerta para diferenciar erros superáveis na escola da vida dos traços de personalidade capazes de aniquilar sua visão de líder. Este discernimento só existe ajoelhado pedindo sabedoria a Deus. E Ele nunca ignora um líder humano carecendo da onisciência divina.

5) Procure agradar a todos, mesmo desagradando alguns. Existe um perigo: não ser claro nos princípios da empresa e, para se aceito por todos, largar cada um fazendo o que quer. Bem, isso já é incompetência anárquica tornando um local de trabalho na “Casa da Mãe Joana”. Pensar no bem de todos – com o crescimento saudável da instituição – resultará em mal para alguns. Ao fazer seu melhor com sua equipe, provavelmente terá gente perdendo espaço como estrela solitária. Pense na constelação ao todo. A unanimidade é uma miragem que ilude apenas os ditadores. Sua visão maior sempre encontrará míopes no caminho. É como diz, Samira Toledo, Diretora de RH onde trabalho, ”em um ambiente corporativo, as políticas de interesse pessoal devem ser deixadas de lado“. Siga em frente!

6) Gaste mais tempo com poucos e menos tempo com muitos. Delegar responsabilidade otimiza o tempo – que nunca será elástico. Quando você acredita no seu “núcleo duro”, eles repercutirão seus princípios aos outros, e assim por diante. Mas, pra isso, tem que passar tempo junto! Talvez Moisés, que atendia 2 milhões de funcionários, passou a atender só uma centena deles – mas, no final das contas, o tempo com poucos multiplicou-se como tempo clonado para todos. Jesus fez o mesmo. Paulo com Timóteo, também. Por que você não?

7) Questione mais do que conclua. Disse Voltaire: “o verdadeiro mestre lidera mais por perguntas que por respostas”. Tenho uma vontade danada de ser o ponto final! Todo líder também tem. Mas, quando você delega pra fazer discípulos, interrogações despertam a democracia, e exclamações provocam o silêncio. Uma pergunta do tipo “o que você acha?” abre o horizonte da auto-estima e, melhor ainda, pode trazer uma alternativa que você nunca imaginou. A humildade em ouvir opiniões conquista o envolvimento do grupo. Todos ganham no final – e você não perderá sua autoridade.

Que tal? Já está convencido de que o sogro Jetro tinha razão? Só falta o último passo pra tudo dar mais do que certo. E o genrão acertou em cheio: “Moisés atendeu às palavras de seu sogro, e fez tudo quanto este lhe dissera” (Exodo 18:24). É isso aí! Agora é só ter humildade para aceitar a sugestão de alguém que talvez esteja do lado de fora da sua janela querendo ajudar. Homens que sabem mandar só são verdadeiramente homens se também sabem escutar. Seja um artista famoso na arte da delegação, pois quem centraliza demais acaba ficando inseguro demais. Depois disso, Moisés rendeu mais como líder, seu sogro cumpriu seu papel como sábio conselheiro, e o mundo empresarial ganhou uma lição de sucesso. Delegue! Você não fica menor se reconhecer outros ficando maiores. As coisas andarão melhores. E você terá mais tempo para ser um bom pai, um bom marido e, especialmente, um tremendo líder.

Quem sabe, até surpreendendo os outros por ser, finalmente, menos mala!

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