Violino Velho

set 16, 2010 by

Violino Velho

A grandeza de alguém não está em como chegar, mas de que maneira sair

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Estudei violino por cinco anos. Parei por “incompatibilidade de dons”. Mas, neste período aprendi duas coisas: primeiro, se você não tem grande talento pra coisa, este é um dificílimo instrumento em que se gasta metade do tempo afinando pra outra metade tocar desafinado. (Hoje, reverencio os violinistas como Super-herois na Sala de Justiça que nunca mereci entrar!) A segunda lição veio dos lábios de um idoso lutiê. Eu precisava consertar meu violino e bati na porta do maior especialista de Curitiba, cuja profissão estranha eu desconhecia: o lutiê. Cheguei impaciente com ares de arrogância, e saí envergonhado “com o rabo entre as pernas”. “Sr, vê se faz alguma coisa com este instrumento velho que meu pai achou nos Classificados em liquidação!”, disparei ignorante. Ele pegou meu violino com respeito, pôs seus óculos de aumento pra detalhes, esqueceu minha presença ali e grudou seu nariz em cada canto do instrumento como se averiguasse uma obra-de-arte. Apressado, quebrei o encantamento sendo ainda mais ridículo, “o Sr acha que isso presta pra alguma coisa? É velho feito da madeira da Arca de Noé!” (a toupeira devia ter calado a boca!). O homem repousou meu difamado violino na mesa, suspirou fundo controlando a revolta, olhou pra mim reduzindo-me a uma lesma, e disse, pausadamente: “jovem, este é um legítimo violino francês, cuidadosamente esculpido no século dezenove, sua madeira é artesanal e ele está em perfeitíssimo estado. É uma raridade que, se você quiser, eu compro agora mesmo!”. Amoleci espantado, e prossegui pro cadafalso: “mas, eu pensei que ele fosse muito velho…”. E o especialista me enforcou: “eu também sou, meu jovem, e no ramo deste instrumento, quanto mais velho for o violino, melhor ele será!”. Silêncio. Juro que emudeci, “hã… e quanto é o reparo mesmo?”, saí dali miudinho e com uma lição aprendida maior que todos os infindáveis exercícios de dedilhado.

Envelhecer. Palavra tão evitável quanto inevitável. Ninguém quer, mas todos chegarão lá. E quem chegou, resumiu: “eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento” (Eclesiastes 1:14). Não dá pra perseguir um sopro como é impossível segurar os anos nas mãos. O tempo escoa entre os dedos e, rapidamente, as velas do bolo exigem uma torta GG. Lutamos contra as rugas, mas elas sempre chegam implacáveis – e o corpo, um dia jovem, anoitece sob uma constelação de dores e insônias. A verdade é que a velhice nunca chega, mas, quando menos percebemos, já estamos lá – abraçados pelo ocaso da vida. Surge, neste momento, o passaporte obrigatório: aposentadoria.

Infelizmente, num país onde a atenção ao idoso é assunto de dar vergonha, envelhecer virou fantasma assombrando pessoas dignas que merecem tudo de bom. De onde tiraram a ideia de que aposentar é sinônimo de parar? E que time de ingratos se viu no direito de caluniar este momento da vida como velhice estagnada? Pior é quando os herois desta galeria admirável vestem a camisa da decepção e tristeza encurvando-se ainda mais sem um brilho no olhar.  Por causa de uns frustrados com o “passado que passou” outros pagam a conta pela imagem que não faz justiça ao desempenho inquestionável de quem trabalhou tanto pra merecer curtir um pouco.

Jovem, quanto mais velho este instrumento, melhor será!”, arrematou o sábio artista. Não somente o violino, mas, e o vinho nobre, a moeda milenar e as artes incríveis? Assim como o diamante se faz com tempo e pressão, a vida nos presenteia com histórias pra contar de preço inestimável. E não se conquista de uma hora pra outra – leva tempo, levam décadas. Por isso, reconheço: aposentadoria nada mais é do que a coroação máxima merecida com a experiência adquirida. Verdade irrefutável! A coroa cravejada de rubis não vale mais que os cabelos brancos que a fazem jus. Pena que muitas frontes merecedoras nem sempre recebam esta homenagem dourada.

E você, tem trabalhado demais e visto o tempo passar de menos? Não se esqueça de planejar seu melhor momento: quando o alívio dos compromissos obrigatórios trará consigo o direito de você fazer o que sempre quis nas horas vagas. Sentimento de inutilidade é uma coisa, descanso merecido é completamente outra. Vai depender do quanto você se agarra mais à posição do que à satisfação, ou hiper-valoriza uma cadeira cativa sobre o oráculo adquirido com os anos. Os cargos sempre passarão, a unção jamais! Se mandar é a parte dura do jogo, aconselhar é o apito final com o placar ao seu favor. E se este mundo prioriza os corpos jovens, eles não virão antes na honesta gratidão do Céu. Afinal de contas, o próprio rei Davi testemunhou de si mesmo: “ainda que o homem viva muitos anos, regozije-se em todos eles” (Eclesiastes 11:8)  

Conheço um casal que fez da vida uma curtição e agora, mais do que nunca, estão aptos pra curtir a vida. Fizeram do trabalho um privilégio, superaram imprevistos ajoelhados e investiram naquilo que fica quando a aposentadoria entra sem bater na porta – a família. Quero trabalhar como eles, ter o sucesso deles, agora, se tudo der errado, uma coisa eu não abro mão: envelhecer como eles. Já viu criança feliz com rugas em volta dos olhos? Eu já, eles são assim! Olham pra trás sem medo de serem abraçados pela doce sensação de missão cumprida; olham pra frente com a poderosa esperança de que o melhor ainda está para vir; e encaram o agora como um presente divino para amar as pessoas e aproveitar as oportunidades. Tem gente que passa a vida pisando em gente pra no final dela morrer com medo de ser pisado pela solidão. Eles não! São instrumentos musicais cujo som foi ficando melhor a cada ano. Como fã-admirador, descobri o segredo da sinfonia de uma aposentadoria bem tocada:

1) GRATIDÃO. Volte o controle remoto do tempo na sua vida analisando quanta coisa boa você experimentou. Que tal ser grato pelo tanto que passou? Chegar até aqui é proteção, carinho e benção de Deus – um milagre provocando a ação de graça!

2) HUMILDADE. Dá licença para outros também chegarem aonde você chegou? A grandeza de alguém não está em como chegar, mas de que maneira sair. Jamais apagarão seu passado porque outro seguiu com a tocha. Seja humilde e ceda como nobre.

3) CARA DE PAU. Bom humor é hipnotizante, se você quer pessoas ao seu redor. Perca a vergonha. Curta os privilégios da terceira idade. Exija seu assento preferencial! Nem tenha medo de pedir, perguntar e receber atenção. Você fez – e viveu – por merecer…

4) FAMÍLIA. Tudo. E sempre. Volte-se pra quem nunca olhou mais pra posição do que pra cumplicidade sanguínea. Aproveite cada milésimo com os que lhe amam, mesmo sem falar sempre. Ainda dá tempo de “correr atrás do tempo”. Perdido? Não! Aprendido.

5) ESPERANÇA. Ponha seu coração lá na frente e acredite que um dia seu corpo irá atrás. Ninguém envelhece por dentro – jamais! – a menos que perca a esperança no Céu. Não existe aposentadoria dos planos de Deus. Ele sempre fará algo por e para você. A esperança não é “a última que morre” – pois quem tem esperança, não morre. Pode dormir um pouco. Agarre-se às promessas imutáveis de Quem lhe fez pra ser eternamente feliz: “Deus fará renovar-se o que se passou” (Eclesiastes 3:15).

A Bíblia é a maior prova das fortes emoções divinas nos cabelos brancos. Moisés saiu da cadeira de balanço pra libertar uma nação escravizada. Seu irmão Arão, ainda mais velho, guardou o caçula na pré-escola do deserto. Abraão subiu o monte pra matar o filho, e de lá desceu mais jovem do que nunca. Elias pegou carona numa carruagem de fogo pro asilo da eternidade. Salomão, só no fim da vida, encontrou sua grande paixão, mesmo fazendo amor sem fazer. A hipermetropia de João não enxergava mais de perto, mas seus olhos viram longe todas as profecias do Apocalipse. José morreu com planos pros seus ossos. Davi projetou o maior templo da História pro seu filho construir. Enfim, Deus é especialista em revelar o verdadeiro valor dos instrumentos mais velhos. E sabe fazer música como ninguém no Universo, provando que o som fica ainda melhor tempos depois.

Meus pais completam 40 anos de serviço à Causa de Deus. Trabalharam 14.600 dias fazendo pelo Criador o que Ele criou dentro de nós: a utilidade de servir. Nunca pensei que Jesus esperaria mais pra voltar e eu testemunharia a coroação do reconhecimento justo que eles sempre merecerão. Tristeza por isso? Deixa de bobeira! É claro que não! O que vem pela frente será bom demais. Junto deles aprendi o valor de uma vida bem vivida e torço para que outros “avôs e avós corujas” também possam se aventurar felizes nesta fase sem igual. Temos conversado muito e, agora, como nunca, reconhecido a importância de trabalhar pela família mais que por cargos. Aposentar é ver o mundo com os olhos da experiência dentro de um corpo mortal, mas com sonhos imortais. Missão cumprida? Só se for pra fugir das obrigações do trabalho remunerado. Porque esta liberdade pra fazer o que quer, com quem quer e quando quer, é só pra quem pode, fez por merecer e será pra sempre um exemplo.

Acredito no privilégio deste aplauso infindável no palco dos herois.

Afinal, são violinos mais velhos e cada vez melhores. Parabéns!

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